Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 64 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Inteligência artificial

 

Há muito tempo as pessoas vêm tentando criar máquinas que pensam. Essa linha de pesquisa – a inteligência artificial – existe pelo menos desde os anos 1950. Embora os pioneiros tivessem muito otimismo, o problema se mostrou inesperadamente complicado. Os carros que se dirigem sozinhos em breve chegarão ao mundo, e quase duas décadas já se passaram desde que um computador derrotou um grande mestre do xadrez, mas ainda não existe uma máquina verdadeiramente senciente. Quando eu era criança, esperava que a essa altura teríamos robôs interagindo conosco, cuidando de nós, tendo conversas significativas. O fato de que ainda estamos muito distantes deste resultado demonstra a profundidade do enigma de como funciona o cérebro e a que imensa distância ainda estamos de decodificar os segredos da Mãe Natureza.

Uma das mais recentes tentativas de criar inteligência artificial pode ser encontrada na Universidade de Plymouth, na Inglaterra. É o chamado iCub, um robô humanoide projetado e montado para aprender como uma criança humana. Por tradição, os robôs são pré-programados com o que precisam saber a respeito de suas tarefas. Mas e se os robôs conseguissem se desenvolver como fazem os bebês humanos, interagindo com o mundo, imitando e aprendendo pelo exemplo? Afinal, os bebês não chegam ao mundo sabendo falar e andar, mas têm curiosidade, prestam atenção e imitam. Os bebês usam o mundo em que estão como um livro didático para aprender pelo exemplo. Um robô não poderia fazer o mesmo?

O iCub tem mais ou menos o tamanho de uma criança de dois anos. Tem olhos, ouvidos e sensores de tato, e estes lhe permitem interagir com o mundo e aprender a respeito dele.

Se você apresentar um novo objeto ao iCub e lhe der um nome (“Isto é uma bola vermelha”), o programa de computador correlaciona a imagem visual do objeto com o rótulo verbal. Assim, da próxima vez que você mostrar a bola vermelha e perguntar “O que é isto?”, ele responderá “Isto é uma bola vermelha”. O objetivo é que o robô, a cada interação, aumente continuamente sua base de conhecimento. Ao fazer alterações e conexões em seu código interno, ele constrói um repertório de respostas apropriadas.

Acontece com frequência de ele entender mal as coisas. Se você mostrar e der nome a vários objetos e pressionar o iCub a dar o nome de todos, verá vários erros e um grande número de respostas “Eu não sei”. Tudo isso faz parte do processo e também revela como é difícil construir inteligência.

Interagi um bom tempo com o iCub e é um projeto impressionante. Porém, quanto mais tempo se passava, mais era evidente que não havia mente por trás do programa. Apesar dos olhos grandes, da voz amistosa e dos movimentos infantis, fica claro que o iCub não é senciente. Ele funciona segundo linhas de código e não de raciocínio. Embora ainda estejamos nos primórdios da inteligência artificial, é difícil deixar de remoer uma questão antiga e profunda da filosofia: poderiam as linhas de código de computador um dia chegar a pensar? Quando o iCub consegue dizer “bola vermelha”, ele de fato experimenta o vermelho ou o conceito do que é redondo? Os computadores fazem apenas o que estão programados para fazer, ou podem de fato ter experiência interna?