Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 6 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

A adolescência

 

Há algumas poucas décadas, pensava-se que a maior parte do desenvolvimento do cérebro estava concluída perto do fim da infância. Mas agora sabemos que o processo de construção de um cérebro humano leva até 25 anos. Os anos da adolescência são um período de tanta importância na reorganização neural e de mudanças, que afetam drasticamente quem aparentamos ser. Os hormônios que correm pelo corpo provocam alterações físicas evidentes à medida que assumimos a aparência de adultos – mas, de maneira oculta, o cérebro passa por mudanças igualmente monumentais. Estas mudanças interferem profundamente em nosso comportamento e na reação ao mundo que nos cerca.

Uma dessas mudanças tem relação com um senso emergente de identidade – e, com ele, a autoconsciência.

Para entender o funcionamento do cérebro adolescente, realizamos um experimento simples. Com a ajuda de meu aluno de pós-graduação Ricky Savjani, pedimos a voluntários que se sentassem em um banco na vitrine de uma loja. Depois, abrimos a cortina e expusemos o voluntário olhando para o mundo e sendo encarado por quem passava.

Antes de mandá-los para essa situação socialmente constrangedora, equipamos cada voluntário de modo que pudéssemos medir sua reação emocional. Nós os conectamos a um dispositivo que mede a resposta galvânica da pele (RGP), um substituto útil para a ansiedade: quanto mais as glândulas sudoríparas se abrirem, maior será a condutância da pele (a propósito, esta é a mesma tecnologia usada em um detector de mentiras ou teste de polígrafo).

Adultos e adolescentes participaram do nosso experimento. Nos adultos, observamos uma resposta de estresse por serem observados por estranhos, exatamente como esperávamos. Porém, nos adolescentes, este mesmo experimento provocou uma intensa atividade das emoções sociais: os adolescentes ficaram muito mais ansiosos – alguns chegaram a tremer – enquanto eram olhados.

 

ESCULPINDO O CÉREBRO

ADOLESCENTE

 

Depois da infância, pouco antes do início da puberdade, há um segundo período de produção em excesso: do córtex pré-frontal brotam novas células e novas conexões (sinapses), criando assim novas vias para a modelagem. A sobra é seguida por aproximadamente uma década de desbastes: por toda a adolescência, as conexões mais fracas são aparadas, enquanto as mais fortes são reforçadas. Como resultado do desbaste, o volume do córtex pré-frontal é reduzido em cerca de 1% ao ano durante a adolescência. A formação de circuitos nesse período da vida prepara o indivíduo para as lições que aprendemos no caminho para nos tornarmos adultos.

Como essas enormes mudanças acontecem em áreas cerebrais

necessárias a um raciocínio superior e ao controle de impulsos, a adolescência é uma época de acentuada mudança cognitiva. O córtex pré-frontal dorsolateral, importante no controle dos impulsos, está entre as regiões de amadurecimento mais atrasadas, chegando ao estado adulto apenas quando o indivíduo completa vinte anos. Bem antes de os neurocientistas entenderem os detalhes, as seguradoras de automóveis perceberam as consequências do amadurecimento incompleto do cérebro – e, assim, cobram mais caro de motoristas adolescentes. Da mesma forma, o sistema judiciário há muito tem essa intuição, e os

delinquentes juvenis são tratados de forma diferente em relação aos adultos.

 

Por que a diferença entre adultos e adolescentes? A resposta envolve uma área do cérebro chamada córtex pré-frontal medial (CPFM). Esta região torna-se ativa quando você pensa em si mesmo e, em particular, no significado emocional de certa situação para seu ser. A doutora Leah Somerville e seus colegas da Universidade Harvard descobriram que, à medida que uma pessoa sai da infância para a adolescência, o CPFM torna-se mais ativo em situações sociais, chegando ao auge por volta dos 15 anos. A essa altura, as situações sociais têm muito peso emocional, resultando em uma resposta de estresse autoconsciente de alta intensidade. Ou seja, na adolescência, pensar em si mesmo – a chamada “avaliação de si” – tem alta prioridade. Já um cérebro adulto se acostumou ao senso de si, como se tivesse se acostumado a um novo par de sapatos. Desse modo, um adulto não se importa muito de ficar sentado em uma vitrine.

Além do constrangimento social e da hipersensibilidade emocional, o cérebro adolescente é formado para assumir riscos. Seja dirigindo em alta velocidade ou enviando fotos de nus pelo celular, os comportamentos arriscados são mais tentadores para o cérebro adolescente do que para o adulto. Grande parte disso tem relação com nossa resposta a recompensas e incentivos. Conforme passamos da infância para a adolescência, o cérebro mostra uma reação crescente a recompensas em áreas relacionadas com a busca pelo prazer (uma delas se chama núcleo accumbens). Na adolescência, a atividade aqui é tão alta quanto na idade adulta. Mas temos um fato importante: a atividade no córtex orbitofrontal, envolvido na tomada de decisão executiva, na atenção e na simulação de consequências futuras, é a mesma na adolescência e na infância. Graças ao sistema maduro de busca pelo prazer combinado com o córtex orbitofrontal imaturo, o adolescente não só é emocionalmente hipersensível como também tem menos capacidade de controlar suas emoções do que os adultos.

Além disso, Somerville e sua equipe têm uma ideia da razão pela qual a pressão dos colegas instiga de maneira tão incisiva o comportamento em adolescentes: as áreas envolvidas nas considerações sociais (como o CPFM) são mais fortemente combinadas com outras regiões do cérebro que traduzem motivações em ações (o corpo estriado e sua rede de conexões). Isso, sugerem eles, pode explicar por que os adolescentes ficam mais dispostos a correr riscos quando os amigos estão presentes.

A forma como vemos o mundo quando somos adolescentes é consequência de um cérebro em transformação que segue seu cronograma. Essas mudanças nos levam a ter mais autoconsciência, a correr mais riscos e nos tornam mais dispostos a assumir um comportamento motivado pelos colegas. Temos uma mensagem importante para pais frustrados do mundo todo: na adolescência, quem somos não é simplesmente o resultado de uma decisão ou de uma atitude, é o produto de um período de mudanças neurais intensas e inevitáveis.