Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 17 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Eu era cego, mas agora vejo

 

Mike May tinha quase quatro anos quando perdeu a visão. Uma explosão química escoriou suas córneas, impedindo que os olhos tivessem acesso aos fótons. Como cego, ele teve sucesso nos negócios e também foi campeão de esqui paraolímpico, percorrendo as encostas com o uso de marcadores sonoros.

Então, depois de mais de 40 anos de cegueira, Mike soube de um tratamento pioneiro com células-tronco que podia corrigir o dano físico em seus olhos. Ele decidiu se submeter à cirurgia, afinal, a cegueira era resultado apenas de suas córneas turvas e a solução era fácil.

 

TRANSDUÇÃO SENSORIAL

 

A biologia descobriu muitas maneiras de converter a informação do mundo em sinais eletroquímicos. Estas são apenas algumas das máquinas de tradução que você tem: células ciliadas no ouvido interno, vários tipos de receptores de tato na pele, papilas gustativas na língua, receptores moleculares no bulbo olfativo e fotorreceptores no fundo do olho.

Os sinais do ambiente são traduzidos nos sinais eletroquímicos

transmitidos pelas células cerebrais. Esse é o primeiro passo para o cérebro conseguir usar as informações do mundo que existe fora do corpo. Os olhos convertem (ou traduzem) fótons em sinais elétricos. Os mecanismos do ouvido interno convertem vibrações na densidade do ar em sinais elétricos. Receptores na pele (e também dentro do corpo) convertem pressão, estiramento, temperatura e substâncias químicas irritantes em sinais elétricos. O nariz converte moléculas de odor flutuantes, e a língua converte moléculas de sabor em sinais elétricos. Em uma cidade com

visitantes de todo o mundo, moedas estrangeiras devem ser convertidas em uma moeda comum antes que aconteçam transações importantes. O mesmo se dá com o cérebro. Ele é fundamentalmente cosmopolita, recebendo viajantes de muitas origens diferentes.

Um dos enigmas não resolvidos da neurociência é conhecido

como o “problema da integração”: como o cérebro é capaz de produzir um só quadro unificado do mundo, uma vez que a visão é processada em uma região, a audição em outra, o tato em uma terceira e assim por diante? Apesar de o problema persistir, a moeda comum entre os neurônios, assim como sua enorme interconectividade, promete estar no cerne da solução.

 

Mas aconteceu algo inesperado. Câmeras de televisão estavam a postos para documentar o momento em que os curativos seriam retirados. Mike descreve o que sentiu quando o médico retirou a atadura: “Surgiu um jato de luz e um bombardeio de imagens em meu olho. De repente, veio essa inundação de informações visuais. Foi estarrecedor.”

As novas córneas de Mike recebiam e focalizavam a luz como deviam, mas seu cérebro não via sentido nas informações que chegavam. Com as câmeras dos noticiários rodando, Mike olhou os filhos e sorriu para eles. Por dentro, porém, estava apavorado, porque não sabia dizer como eles eram ou o que era o quê. “Eu não sabia reconhecer um rosto”, ele relembra.

Em termos cirúrgicos, o transplante foi um completo sucesso. Mas, da perspectiva de Mike, o que ele vivia não podia ser chamado de visão. Ele próprio resumiu: “Era como se meu cérebro dissesse ‘Minha nossa!’.”

Com ajuda dos médicos e da família, ele saiu da sala de exames e andou pelo corredor, olhando para o carpete, as imagens nas paredes, as portas. Nada daquilo fazia sentido. Quando entrou no carro para ir para casa, Mike viu os carros, as construções e as pessoas que passavam zunindo, tentando sem sucesso entender o que enxergava. Na via expressa, ele se retraiu quando teve a impressão de que o carro ia bater em um retângulo largo à frente – era uma placa de sinalização da rodovia. Ele não tinha o sentido do que eram os objetos nem de sua profundidade. Na realidade, Mike achou mais difícil esquiar após a cirurgia do que quando o fazia como cego. Devido a suas dificuldades na percepção de profundidade, era um problema saber a diferença entre pessoas, árvores, sombras e buracos. Para ele, eram simplesmente coisas escuras contra a neve branca.

A lição que vem à tona a partir da experiência de Mike é de que o sistema visual não é como uma câmera. Ver não é simplesmente retirar a tampa da lente. Para enxergar, você precisa ter mais do que olhos funcionais.

No caso de Mike, 40 anos de cegueira fizeram com que o território de seu sistema visual (o que normalmente chamaríamos de córtex visual) fosse amplamente dominado por outros sentidos, como a audição e o tato. Isso teve impacto na capacidade do cérebro de mesclar todos os sinais necessários para ter a visão. Como explicaremos adiante, a visão surge da coordenação de bilhões de neurônios que trabalham juntos em uma sinfonia complexa e particular.

Hoje, 15 anos depois da cirurgia, Mike ainda tem dificuldade para ler palavras no papel e entender a expressão das pessoas. Quando precisa ter um senso melhor de sua percepção visual imperfeita, ele usa os outros sentidos para validar as informações: ele toca, se levanta, ouve. Essa comparação entre sentidos é algo que todos fizemos quando éramos muito mais jovens, na época em que nosso cérebro começava a entender o mundo.