Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 27 de 71

Páginas do PDF

Cérebro: Uma Biografia

Dobra no tempo

 

Existe outro aspecto da realidade que raras vezes paramos para considerar: com frequência, a experiência que nosso cérebro tem do tempo pode ser muito estranha. Em determinadas situações, nossa realidade pode parecer mais lenta ou mais rápida.

Quando eu tinha oito anos, caí do telhado de uma casa, e a queda pareceu durar

muito tempo. Quando entrei para o ensino médio, aprendi física e calculei a duração real da queda – oito décimos de segundo. Isso me fez procurar compreender duas coisas: por que eu acreditava que a experiência tinha sido muito mais longa e o que aquilo me dizia a respeito da nossa percepção da realidade?

Bem no alto das montanhas, o praticante de wingsuit profissional Jeb Corliss viveu

uma distorção no tempo. Tudo começou com um salto que ele já havia feito antes. Porém, nesse dia, ele escolheu um alvo: um conjunto de balões que estouraria com o corpo. Jeb se lembra: “Enquanto eu me aproximava para bater em um daqueles balões, que estavam amarrados a um pedaço de granito, cometi um erro de cálculo.” Ele estima que estava a 190 quilômetros por hora quando se chocou contra a plataforma.

Por ser atleta profissional de wingsuit, o salto dele nesse dia foi filmado por várias

câmeras montadas nos penhascos e em seu corpo. É possível ouvir no vídeo o barulho do corpo dele batendo no granito. Jeb passou direto pelas câmeras e seguiu pela encosta onde havia acabado de cair.

Foi aí que o senso de tempo dele sofreu uma distorção. Jeb descreveu a

experiência: “Meu cérebro se dividiu em dois processos separados de pensamento. Um deles era de simples dados técnicos. Você tem duas opções: não pode puxar a corda, então segue em frente, bate e morre, basicamente. Ou pode puxar, abrir um paraquedas e sangrar até morrer enquanto espera o resgate.”

Para Jeb, esses dois processos de pensamento separados pareceram minutos no

tempo: “Parece que você está funcionando tão rapidamente, que a percepção de todo o resto tem o ritmo reduzido e tudo se estende. O tempo passa mais devagar e você tem a sensação de câmera lenta.”

Ele puxou a corda do paraquedas e caiu sobre o solo. Quebrou uma perna, os

tornozelos e três dedos dos pés. Seis segundos se passaram entre o instante em que Jeb bateu na pedra e o momento em que puxou a corda. Porém, como em minha queda do telhado, esse período pareceu muito mais longo para ele.

A experiência subjetiva da desaceleração do tempo foi relatada em uma variedade

de situações de risco – como acidentes de carro ou assaltos –, bem como em eventos que envolvem ver um ente querido em perigo, como uma criança caindo em um lago. Todas essas descrições são caracterizadas pelo senso de que os acontecimentos se desenrolam com muito mais lentidão do que o normal, em ricos detalhes.

Quando caí do telhado, ou quando Jeb bateu na aba do penhasco, o que

aconteceu dentro de nossos cérebros? Será que o tempo de fato fica mais lento em situações assustadoras?

Alguns anos atrás, meus alunos e eu criamos um experimento para abordar essa

questão. Induzimos o medo extremo em pessoas, largando-as no ar de uma altura de 45 metros. Em queda livre. De costas.

Nessa experiência, os participantes caíram com um mostrador digital preso ao

pulso – um dispositivo que inventamos e chamamos de cronômetro perceptivo. Eles relataram os números que conseguiram ler no dispositivo no pulso. Se de fato pudessem ver o tempo em câmera lenta, conseguiriam ler os números. Mas nenhum deles pôde.

Então, por que Jeb e eu nos lembramos dos nossos acidentes como se eles

tivessem acontecido em câmera lenta? A resposta parece estar em como nossas lembranças são armazenadas.

Em momentos ameaçadores, uma área do cérebro chamada de amídala entra em

marcha acelerada, recrutando os recursos do resto do cérebro e forçando tudo a se ocupar da situação. Quando a amídala está em ação, as lembranças são registradas com mais detalhes e nitidez do que em circunstâncias normais porque um sistema secundário de memória foi ativado. Afinal, é para isso que serve a memória: acompanhar acontecimentos importantes, de forma que, se você um dia estiver em uma situação semelhante, seu cérebro tenha mais informações para tentar sobreviver. Em outras palavras, se sua vida está em risco, é uma boa hora para fazer anotações.

 

MEDINDO A VELOCIDADE DA VISÃO:

O CRONÔMETRO PERCEPTIVO

Para testar a percepção do tempo em situações assustadoras, largamos os voluntários de

uma altura de 45 metros. Eu próprio me joguei três vezes e cada ocasião foi igualmente

apavorante. Na tela, os números são gerados por lâmpadas de LED. A cada momento, as

lâmpadas que estão acesas se apagam e as que estão apagadas se acendem. A taxas lentas

de alternação, os participantes não tiveram problemas para relatar os números. Mas, a

uma taxa um pouco mais rápida, as imagens positivas e negativas se fundiam,

impossibilitando a leitura dos números. Para determinar se os participantes conseguiam

enxergar em movimento mais lento, largamos as pessoas com a taxa de alternação um

pouco mais elevada do que elas normalmente conseguem enxergar. Se elas estivessem

vendo em câmera lenta, como Neo em Matrix, não teriam dificuldade para discriminar os

números. Caso contrário, a taxa em que poderiam ver os números não deveria ser

diferente de quando estavam no solo. O resultado? Largamos 23 voluntários, inclusive eu

mesmo. Ninguém teve um desempenho melhor enquanto estava em voo. Apesar das

esperanças iniciais, nós não éramos como Neo.

Imagem 9: Quando o cronômetro perceptivo alterna os números lentamente, eles

podem ser lidos. A uma taxa de alternação um pouco maior, isso não é possível.

 

O efeito colateral interessante é este: seu cérebro não está acostumado a esse tipo

de densidade de memória (o capô estava se amassando, o espelho retrovisor caía, o outro motorista era parecido com um vizinho seu chamado Bob). Então, quando os acontecimentos são repassados em sua memória, a sua interpretação é de que o evento deve ter levado muito mais tempo. Dito de outra forma, na realidade não vivemos acidentes apavorantes em câmera lenta; a impressão resulta do modo como a memória é lida. Quando nos perguntamos “o que foi que aconteceu?”, o detalhe da lembrança nos diz que o fato deve ter ocorrido em câmera lenta, embora isso não seja verdade. Nossa distorção no tempo é algo que acontece em retrospecto, um truque da memória que escreve a história da nossa realidade.

Agora, se você sofreu um acidente que ameaçou sua vida, pode insistir e dizer que

estava consciente do desenrolar da história em câmera lenta enquanto ela acontecia. Mas observe o seguinte: esse é outro truque da nossa realidade consciente. Como vimos anteriormente com a sincronia dos sentidos, nunca estamos presentes no momento. Alguns filósofos sugerem que a consciência desperta não passa de um exame de lembranças rápidas: nosso cérebro está sempre perguntando “o que aconteceu? O que aconteceu?”. Assim, a experiência consciente, na realidade, é apenas uma memória imediata.

Aliás, mesmo depois de publicarmos nossa pesquisa sobre isso, algumas pessoas

ainda me dizem que sabem que que o evento ocorreu como em um filme em câmera lenta. Então, costumo perguntar se a pessoa ao lado delas no carro estava gritando “nããããão!” em tom grave como acontece em cenas em câmera lenta. Elas têm de admitir que isso não aconteceu. Isso é parte do motivo para pensarmos que o tempo perceptivo na verdade não se estende, embora seja uma realidade interna da pessoa.