Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 33 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Operando no piloto automático

Por toda a vida, nosso cérebro se reescreve para criar circuitos dedicados às missões que praticamos, sejam elas andar, surfar, correr, nadar ou dirigir. Essa capacidade de gravar programas na estrutura do cérebro é um de seus truques mais poderosos. Pode resolver o problema do movimento complexo usando muito pouca energia pela conexão de circuitos indicados no hardware. Depois de gravadas nos circuitos do cérebro, essas habilidades podem ser realizadas sem pensar – sem esforço consciente – e isso libera recursos, permitindo que o eu consciente se dedique a outras tarefas e as absorva.

Há uma consequência para esta automatização: as novas habilidades

caem abaixo do alcance do acesso consciente. Você perde acesso aos programas sofisticados que rodam internamente e assim não sabe exatamente como faz o que faz. Quando sobe uma escada enquanto tem uma conversa, você não faz ideia de como calcula as dezenas de microcorreções de seu equilíbrio corporal e como sua língua se mexe dinamicamente para produzir os sons corretos do seu idioma. Essas são tarefas difíceis que você nem sempre conseguiu fazer. Mas, como seus atos tornam-se automáticos e inconscientes, geram a capacidade de operar no piloto automático. Todos nós conhecemos a sensação de dirigir o carro para casa pelo trajeto diário e, de repente, perceber que chegamos ao local de destino sem ter nenhuma lembrança verdadeira da viagem. As habilidades envolvidas na direção tornaram-se tão automatizadas, que você pode fazer isso inconscientemente. O “eu” consciente – a parte que ganha vida quando você acorda pela manhã – não é mais o motorista, é no máximo um carona na viagem.

 

SINAPSES E APRENDIZADO

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As conexões entre neurônios são chamadas sinapses. São nessas conexões que

substâncias químicas denominadas neurotransmissores transportam sinais

entre neurônios. Mas nem todas as conexões sinápticas têm a mesma força:

dependendo de seu histórico de atividade, podem ficar mais fortes ou mais

fracas. À medida que as sinapses mudam de potência, a informação flui pela

rede de forma diferente. Se enfraquece o suficiente, uma conexão murcha e

desaparece. Se for fortalecida, pode dar origem a novas conexões. Parte dessa

reconfiguração é orientada por sistemas de recompensa, que transmitem

globalmente um neurotransmissor chamado dopamina quando tudo dá certo.

A rede cerebral de Austin foi remodelada – de forma muito lenta e sutil – pelo

sucesso ou fracasso de cada tentativa durante centenas de horas de prática.

 

Há um resultado interessante para as habilidades automáticas: as tentativas de interferir conscientemente nelas costumam piorar seu desempenho. É melhor que as proficiências aprendidas, até as muito complexas, fiquem por conta própria.

Pense no alpinista Dean Potter: até sua morte recente, ele escalava

penhascos sem corda e sem equipamento de segurança. Desde os 12 anos, Dean dedicou a vida à escalada. Anos de prática gravaram grande precisão e habilidade em seu cérebro. Para atingir tal nível, Dean contava com seus circuitos supertreinados para fazer o trabalho, livre de deliberação consciente. Ele entregou todo o controle ao inconsciente. Ele escalava em um estado cerebral comumente chamado de “fluxo”, em que atletas radicais costumam ir ao limite de sua capacidade. Como muitos atletas, Dean chegava ao estado de fluxo colocando-se em uma situação de risco de vida. Nesse estado, ele não experimentava a intromissão de sua voz interior e podia dispor inteiramente da capacidade de escalada que tinha, gravada em seus circuitos durante anos de treinamento dedicado.

Como o campeão de empilhamento de copos Austin Naber, as ondas

cerebrais de um atleta no fluxo não são enlouquecidas pelos sons da deliberação consciente (eu estou bem? Será que eu disse isso ou aquilo? Tranquei a porta quando saí?). Durante o fluxo, o cérebro entra em um estado de hipofrontalidade, o que significa que partes do córtex pré-frontal ficam temporariamente menos ativas. Essas são as áreas envolvidas em raciocínio abstrato, planejamento para o futuro e concentração no senso de identidade da pessoa. A redução dessas operações de fundo é a chave que permite que uma pessoa fique pendurada na metade da subida de uma face rochosa. Proezas como a de Dean só podem ser realizadas sem a distração da conversação interna.

Muitas vezes, é melhor deixar a consciência de lado – e em alguns tipos

de tarefas não existe alternativa, porque o cérebro inconsciente pode operar em velocidades que a mente consciente não consegue acompanhar por ser lenta demais. Considere o jogo de beisebol, em que uma bola rápida pode viajar da base do arremessador à home plate a 150 quilômetros por hora. Para fazer contato com a bola, o cérebro tem apenas cerca de quatro décimos de segundo para reagir. Nesse tempo, ele precisa processar e orquestrar uma sequência complexa de movimentos para atingir a bola. Os rebatedores fazem contato com as bolas de beisebol o tempo todo, mas não conscientemente: a bola simplesmente é rápida demais para que o atleta tenha consciência de sua posição, e a rebatida acontece antes que o rebatedor consiga registrar o que aconteceu. A consciência não foi apenas deixada de lado, também comeu poeira.