Cérebro: Uma Biografia
Os sinais sutis a nossa volta
À medida que crescemos, nossos desafios sociais tornam-se mais sutis e complexos. Além das palavras e dos atos, precisamos interpretar inflexão, expressões faciais, linguagem corporal. Enquanto estamos concentrados no que discutimos, o maquinário de nosso cérebro se ocupa do processamento de informações complexas. De tão instintivas, as operações são essencialmente invisíveis.
Em geral, a melhor maneira de apreciar uma coisa é ver como é o mundo quando ela está ausente. Um homem chamado John Robison simplesmente não tinha consciência, enquanto crescia, da
atividade normal do cérebro social. Ele sofreu bullying e rejeição de outras crianças, mas descobriu o amor pelas máquinas. Como o próprio descreve, ele podia ficar perto de um trator sem sofrer implicâncias por parte dele. “Acho que aprendi a fazer amizade com as máquinas antes de fazer amizade com outras pessoas”, diz John.
AUTISMO
O autismo é um distúrbio neurodesenvolvimental que afeta 1% da
população. Embora tenha se determinado que seu desenvolvimento
tem como base causas genéticas e ambientais, o número de
indivíduos com o diagnóstico de autismo cresceu nos últimos anos,
com pouca ou nenhuma evidência que explique o aumento. Em
pessoas que não são afetadas pelo autismo, muitas regiões do
cérebro estão envolvidas na busca de pistas sociais sobre os
sentimentos e pensamentos dos outros. No autismo, esta atividade
cerebral não é vista tão fortemente – de modo paralelo, as
habilidades sociais são diminuídas.
Com o tempo, a afinidade de John pela tecnologia o levou a lugares inalcançáveis para aqueles que o rejeitavam. Aos 21 anos,
ele era roadie da banda KISS. Porém, mesmo cercado pela infame luxúria do rock and roll, sua perspectiva era diferente. Quando as pessoas lhe perguntavam sobre os músicos e como eles eram, John dizia que a banda tinha tocado no Sun Coliseum com sete amplificadores em série. Ele contava que havia 2.200 watts no sistema do baixo e podia enumerar os amplificadores e quais eram as frequências de filtros. Mas não conseguia dizer nada sobre os músicos que cantavam através deles. Ele vivia em um mundo de tecnologia e equipamentos. John só recebeu o diagnóstico da síndrome de Asperger, uma forma de autismo, aos quarenta anos.
Então, aconteceu algo que transformou a vida de John. Em 2008, ele foi convidado a participar de um experimento na Faculdade de Medicina de Harvard. Uma equipe liderada pelo doutor Alvaro Pascual-Leone usou estimulação magnética transcraniana (EMT) para avaliar como a atividade em uma área do cérebro afetava a atividade em outra. A EMT emite um pulso magnético forte perto da cabeça, que, por sua vez, induz uma pequena corrente elétrica no cérebro, perturbando temporariamente a atividade cerebral local. O experimento pretendia ajudar os pesquisadores a ter um conhecimento maior sobre o cérebro autista. A equipe usou EMT para visar diferentes regiões do cérebro de John envolvidas em função cognitiva de ordem mais elevada. No início, John contou que a estimulação não surtia efeito. Mas, em uma sessão, os pesquisadores aplicaram EMT ao córtex pré-frontal dorsolateral, uma parte evolutivamente recente do cérebro, envolvida no raciocínio flexível e na abstração. John afirma que isso o deixou diferente.
John ligou para o doutor Pascual-Leone contando que os efeitos da estimulação pareciam ter “destrancado” alguma coisa nele. Os efeitos duraram bem além do próprio experimento, segundo John. Para John, abriram toda uma nova janela para o mundo social. Ele simplesmente não percebia que havia mensagens emanando das expressões faciais dos outros – depois do experimento, porém, era consciente dessas mensagens. Para John, sua experiência do mundo agora estava transformada. Pascual-Leone ficou cético. Deduziu que, se os efeitos eram reais, eles não durariam, dado que os efeitos da EMT em geral persistem por apenas de alguns minutos a horas. Mas Pascual-Leone, embora não tenha entendido inteiramente o que tinha acontecido, concordou que a estimulação parece ter alterado fundamentalmente John.
Na esfera social, John passou da experiência em preto e branco para a cor total. Ele agora vê um canal de comunicação que antes jamais foi capaz de detectar. A história de John não fala simplesmente de esperança em novas técnicas de tratamento para distúrbios do espectro autista. Revela a importância do mecanismo inconsciente que opera internamente, em cada momento da vida em que estamos acordados, dedicados à ligação social – circuitos do cérebro que decodificam continuamente as emoções dos outros, com base em sutis dicas faciais, auditivas e de outros sentidos.
“Eu sabia que as pessoas podiam exibir sinais de uma raiva louca”, diz ele. “Mas se você me perguntasse sobre expressões mais sutis – por exemplo, ‘Acho você um amor’ ou ‘O que será que
você está escondendo?’, ‘Adoro fazer isso’ ou ‘Eu gostaria que você fizesse tal coisa’, eu não fazia ideia de que essas coisas aconteciam.”
A cada momento de nossa vida, nossos circuitos cerebrais decodificam as emoções dos outros, com base em dicas faciais extremamente sutis. Para entender melhor como interpretamos rostos de forma tão rápida e automática, convidei um grupo de pessoas a meu laboratório. Colocamos dois eletrodos em seus rostos – um na testa, outro na bochecha – para medir pequenas alterações na expressão. Depois, pedimos que olhassem fotografias de faces.
Quando os participantes olhavam uma foto que mostrava, digamos, um sorriso ou uma carranca, podíamos medir curtos períodos de atividade elétrica que indicavam que seus músculos faciais estavam em movimento, em geral de maneira bem sutil. Isso acontece devido a algo chamado espelhamento: eles usavam automaticamente os próprios músculos faciais para copiar as expressões que viam. Um sorriso tinha como reflexo um sorriso, mesmo que o movimento dos músculos fosse leve demais para ficar claro visualmente. Sem querer, as pessoas imitavam as outras.
Esse espelhamento esclarece um fato estranho: casais que são casados há muito tempo começam a ficar parecidos, e quanto mais tempo são casados, mais forte é o efeito. A pesquisa sugere que isso não acontece simplesmente porque eles adotam as mesmas roupas ou corte de cabelo, mas porque estiveram espelhando o rosto do outro por tantos anos, que até o padrão de rugas se igualava.
Por que espelhamos? Existe algum propósito para isso? Para descobrir, convidei um segundo grupo de pessoas ao laboratório – semelhante ao primeiro, exceto por um detalhe: o novo grupo foi exposto à toxina mais letal do planeta. Se você ingerisse apenas poucas gotas dessa neurotoxina, seu cérebro não poderia mais mandar os músculos se contraírem e você morreria de paralisia (especificamente, seu diafragma não conseguiria mais se mexer e você ficaria asfixiado). Em vista desses fatos, parece improvável que as pessoas paguem para receber uma injeção dessas. Mas elas pagam. Trata-se da toxina botulínica, derivada de uma bactéria, e que costuma ser comercializada com o nome comercial de Botox. Quando injetada nos músculos faciais, ela os paralisa e assim reduz a formação de rugas.
Imagem 21: No teste “Reading the Mind in the Eyes” [“Lendo a mente
com os olhos”] (Baron-Cohen et al, 2001), os participantes veem 36 fotografias de expressões faciais, cada uma delas acompanhada de
quatro palavras.
Entretanto, além do benefício cosmético, há um efeito colateral menos conhecido do Botox. Mostramos a usuários de Botox o mesmo conjunto de fotos e seus músculos faciais revelaram menos espelhamento em nosso eletromiograma. Até aí, nada de surpreendente – o enfraquecimento dos músculos foi intencional. A surpresa foi outra, originalmente relatada em 2011 por David Neal e Tanya Chartrand. Como em seu experimento original, pedi aos participantes dos dois grupos (Botox e não Botox) que olhassem expressões faciais e escolhessem uma entre quatro palavras que melhor descrevesse a emoção demonstrada.
Em média, as pessoas com Botox eram piores na identificação correta das emoções nas fotografias. Por quê? Uma hipótese sugere que a falta de resposta dos músculos faciais prejudica a capacidade de interpretar os outros. Todos nós sabemos que o rosto menos móvel dos usuários de Botox dificulta a interpretação de seus sentimentos. A surpresa é que esses mesmos músculos paralisados podem dificultar a interpretação que estas pessoas fazem dos outros.
Há um jeito de pensar nesse resultado: meus músculos faciais refletem o que estou sentindo e o seu maquinário neural tira proveito disso. Quando tenta entender o que estou sentindo, você experimenta a minha expressão facial. Você não o faz de propósito – isso acontece de forma inconsciente e rápida –, mas esse espelhamento automático da minha expressão lhe dá uma estimativa rápida do que eu devo estar sentindo. É um truque poderoso para o seu cérebro ter uma compreensão melhor de mim e fazer previsões melhores sobre como agirei. Por acaso, esse é apenas um entre muitos truques.