Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 7 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Plasticidade na idade adulta

 

Quando chegamos aos 25 anos, as transformações cerebrais da infância e da adolescência finalmente acabaram. As mudanças tectônicas em nossa identidade e personalidade cessam e agora nosso cérebro parece estar plenamente desenvolvido. É de se pensar que, na idade adulta, não haverá mais mudanças em quem somos, mas não é bem assim: mesmo nessa fase, o cérebro continua a mudar. Podemos descrever como “plástico” algo que pode ser moldado e que pode sustentar uma forma. O mesmo acontece com o cérebro, até na idade adulta: ele é alterado pela experiência e a retém.

Para entender melhor como essas mudanças físicas podem ser impressionantes, considere o cérebro de um determinado grupo de homens e mulheres que trabalham em Londres: os motoristas de táxi. Eles passam por quatro anos de treinamento intensivo para ser aprovados no exame “Conhecimento de Londres”, uma das proezas de memória mais difíceis da sociedade. O teste exige que os aspirantes a taxista memorizem as extensas vias de Londres, em todas as suas combinações e permutações. A tarefa é bastante difícil: o exame cobre 320 rotas diferentes pela cidade, 25 mil ruas e 20 mil pontos de referência e de interesse – hotéis, teatros, restaurantes, embaixadas, delegacias, instalações esportivas e qualquer lugar para onde o passageiro queira ir. Os alunos costumam passar de três a quatro horas por dia recitando percursos teóricos.

Os desafios mentais singulares do “Conhecimento de Londres” despertaram o interesse de um grupo de neurocientistas da University College London, que escanearam o cérebro de vários motoristas de táxi. Os cientistas estavam especialmente interessados em uma pequena área do cérebro chamada hipocampo, que é fundamental para a memória e, em particular, para a memória espacial.

Os cientistas descobriram diferenças visíveis nos cérebros dos taxistas: a parte posterior do hipocampo dos motoristas era maior do que a das pessoas do grupo de controle – razão pela qual a memória espacial deles era elevada, presume-se. Os pesquisadores também descobriram que, quanto mais tempo de trabalho tinha o taxista, maior era a alteração naquela região cerebral, o que sugere que o resultado não apenas refletia uma condição preexistente das pessoas que entravam na profissão, mas era resultado da prática.

O estudo dos taxistas demonstra que o cérebro adulto não é imutável: ele pode se reconfigurar de tal modo, que a mudança fica evidente para especialistas.

Não é apenas o cérebro dos taxistas que se remodela. Quando um dos cérebros mais famosos do século XX, o de Albert Einstein, foi examinado, o segredo de sua genialidade não foi revelado. Mas viu-se que a área cerebral dedicada aos dedos de sua mão esquerda tinha se expandido, formando uma dobra gigantesca em seu córtex chamada de sinal de ômega, com a forma da letra grega Ω. Isso ocorreu devido à paixão de Einstein por tocar violino, um fato bem menos conhecido pelo público. Essa dobra aumenta em violinistas experientes, que desenvolvem intensamente a destreza com os dedos da mão esquerda. Já os pianistas desenvolvem um sinal de ômega nos dois hemisférios por usarem as duas mãos em movimentos detalhados e refinados.

O formato de morros e vales no cérebro se conserva nas pessoas de modo geral, mas os detalhes mais distintos refletem de modo pessoal e único os lugares por onde você passou e quem você é agora. Embora a maioria das mudanças seja pequena demais para ser detectada a olho nu, tudo que você viveu alterou a estrutura física de seu cérebro, da expressão dos genes às posições das moléculas e à arquitetura dos neurônios. A família em que você nasceu, sua cultura, seus amigos, seu trabalho, cada filme a que você assistiu, cada conversa que teve – tudo isso deixou marcas no sistema nervoso. Estas impressões microscópicas e indeléveis se acumulam, fazem você ser quem é e limitam quem você pode se tornar.