Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 12 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Eu sou senciente

 

Quando penso em quem sou, há um aspecto acima dos demais que não pode ser ignorado: eu sou suscetível. Vivo minha existência. Sinto que estou aqui, olhando o mundo por estes olhos, observando do meu próprio palco este espetáculo em cores. Chamemos essa sensação de consciência ou despertar.

Os cientistas costumam divergir quanto à definição detalhada de consciência, mas é bem fácil definir sobre o que estamos falando com a ajuda de uma comparação simples: quando você está desperto, tem consciência; quando está em sono profundo, não tem. Essa distinção nos faz avançar a uma pergunta simples: qual é a diferença, na atividade cerebral, entre esses dois estados?

Uma forma de medir isso é a eletroencefalografia (EEG), que apreende um sumário de bilhões de neurônios em descarga por meio da captação de sinais elétricos fracos no exterior do crânio. É uma técnica um tanto rudimentar, que às vezes é comparada a tentar entender as regras do beisebol escutando os rumores de uma partida do lado de fora do estádio. Todavia, o EEG pode nos dar um discernimento imediato das diferenças entre os estados de vigília e sono.

Quando você está acordado, as ondas cerebrais revelam que seus bilhões de neurônios estão envolvidos em trocas complexas: pense nisso como milhares de conversas individuais tidas pela multidão que está presente em uma partida esportiva.

 

O PROBLEMA MENTE-CORPO

 

A vigília consciente é um dos enigmas mais desconcertantes da neurociência moderna. Qual é a relação entre nossa experiência

mental e nosso cérebro físico?

O filósofo René Descartes supunha que existe uma alma

imaterial separada do cérebro. Ele especulava que o estímulo sensorial nutre a glândula pineal, que serve como passagem para o espírito imaterial (provavelmente, ele escolheu a glândula pineal simplesmente porque ela fica na linha mediana do cérebro, enquanto a maioria dos outros atributos cerebrais é duplicada, um em cada hemisfério).

É fácil imaginar uma alma imaterial, porém, é difícil conciliá-la

com a evidência neurocientífica. Descartes jamais pôde andar pela ala de neurologia de um hospital. Se o tivesse feito, teria visto que, quando o cérebro muda, também muda a personalidade da pessoa. Alguns danos cerebrais tornam as pessoas deprimidas. Outras alterações as deixam maníacas. Outras ainda regulam a religiosidade, o senso de humor, o apetite por jogos de azar. Outras tornam a pessoa indecisa, delirante ou agressiva. Vem daí a dificuldade, no contexto, de que o mental possa ser separado do físico.

Como veremos, a neurociência moderna tenta obter a relação

da atividade neural detalhada com estados específicos de consciência. É provável que uma compreensão completa da consciência venha a exigir novas descobertas e teorias, pois nosso campo ainda é muito jovem.

 

Quando você vai dormir, seu corpo parece se desativar. Assim, é natural presumir que o “estádio” existente nos seus neurônios se cale. Mas, em 1953, descobriu-se que essa suposição era incorreta: o cérebro é tão ativo à noite como durante o dia. Durante o sono, os neurônios simplesmente se coordenam de forma diferente, entrando em um estado mais sincronizado e ritmado. É como se a multidão do estádio fizesse uma ola de modo contínuo.

Como você pode imaginar, a complexidade da discussão em um estádio é muito mais rica quando ocorrem milhares de conversas isoladas. Por outro lado, quando a multidão está entretida em fazer uma ola, aos berros, o momento é menos intelectual.

Assim, são os ritmos detalhados de sua carga neuronal que ditam quem você é em qualquer momento. Durante o dia, o “eu” consciente surge dessa complexidade neural integrada. À noite, quando a interação dos neurônios se altera um pouco, você desaparece. Seus entes queridos precisam esperar até a manhã seguinte, quando seus neurônios deixam a ola morrer e voltam ao ritmo complexo. É só neste momento que você retorna.

Assim, quem você é depende do que seus neurônios estão fazendo, minuto após minuto.