Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 61 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Sobreviver

 

Já começamos a estender o corpo humano, porém, por mais que nos aprimoremos, existe um empecilho difícil de evitar: nossos cérebros e corpos são formados de matéria física, vão se deteriorar e morrer. Chegará um momento em que toda a sua atividade neural cessará e a gloriosa experiência de estar consciente terá seu fim. Não importa quem você conheça ou o que faça: este é o destino de todos nós. Na realidade, é o destino de toda a vida, mas só o homem é tão extraordinariamente previdente, que sofre com este conhecimento.

Nem todos se contentam com o sofrer: alguns escolheram combater o espectro da morte. Confederações dispersas de pesquisadores estão interessadas na ideia de que uma melhor compreensão de nossa biologia pode abordar a questão da mortalidade. E se não tivermos de morrer no futuro?

Quando meu amigo e mentor Francis Crick foi cremado, passei algum tempo pensando que era uma pena que toda sua matéria neural tenha ardido nas chamas. Aquele cérebro continha todo o conhecimento, sabedoria e intelecto de um dos campeões peso-pesado da biologia do século XX. Todos os arquivos de sua vida – suas lembranças, a capacidade de insight, o senso de humor – estavam armazenados na estrutura física do cérebro e simplesmente porque seu coração parou, todos jogaram fora alegremente o disco rígido. Isso me fez pensar: poderiam as informações no cérebro dele ser preservadas de alguma forma? Se o cérebro fosse preservado, será que os pensamentos, a consciência e a personalidade de alguém um dia poderiam voltar à vida?

Nos últimos 50 anos, a Alcor Life Extension Foundation vem desenvolvendo uma tecnologia que, acredita a fundação, permitirá que as pessoas vivas hoje venham a desfrutar de um segundo ciclo de vida depois. A organização armazena atualmente 129 pessoas em congelamento profundo, interrompendo a decomposição biológica.

É assim que funciona a criopreservação: primeiro, a parte interessada determina que a fundação é beneficiária de seu seguro de vida. Depois, com a declaração legal de sua morte, a Alcor é alertada. Uma equipe local aparece para cuidar do corpo.

De imediato, a equipe transfere o corpo para um banho de gelo. Em um processo conhecido como perfusão crioprotetora, eles circulam 16 substâncias químicas diferentes para proteger as células enquanto o corpo é resfriado. Em seguida, o corpo é transferido o mais rápido possível à sala de operações da Alcor, para a última fase dos procedimentos. O corpo é resfriado por ventiladores controlados por computador, circulando gás nitrogênio numa temperatura extremamente baixa. O objetivo é resfriar todas as partes do corpo abaixo de -124ºC com a maior rapidez possível, a fim de evitar qualquer formação de gelo. O processo consome cerca de três horas, no fim das quais o corpo terá “vitrificado”, isto é, chegará a uma condição estável, sem gelo. O corpo é então ainda mais resfriado, a uma temperatura de -196ºC, nas duas semanas seguintes.

Nem todos os clientes escolheram ter o corpo todo congelado. Uma opção mais barata é simplesmente preservar a cabeça. A separação entre cabeça e corpo é realizada em uma mesa cirúrgica, onde o sangue e os fluidos são retirados e, como acontece com os clientes de corpo inteiro, substituídos por líquidos que fixam os tecidos.

No fim do procedimento, os clientes são baixados em fluido ultrarresfriado em gigantescos cilindros de aço inox chamados

dewars. É ali que permanecerão por um longo tempo; hoje, ninguém no planeta sabe como descongelar e reanimar com sucesso esses residentes congelados. Mas a questão não é esta. Há esperança de que um dia venha a existir tecnologia para cuidadosamente descongelar – e depois ressuscitar – as pessoas desta comunidade. Presume-se que as civilizações do futuro distante terão dominado a tecnologia para curar as doenças que devastaram esses corpos e os levaram a parar.

 

MORTE LEGAL E MORTE BIOLÓGICA

 

Uma pessoa é declarada legalmente morta quando seu cérebro está clinicamente morto ou quando o corpo experimentou a cessação irreversível da respiração e da circulação. Para que o cérebro seja declarado morto, toda atividade deve ter cessado no córtex, envolvido nas funções superiores. Depois da morte cerebral, as funções vitais ainda podem ser mantidas por doação de órgãos ou doação de corpo, um fato crítico para a Alcor. A morte biológica, por outro lado, acontece na ausência de intervenção e envolve a morte de células por todo o corpo: nos órgãos e no cérebro, e significa que os órgãos não são mais adequados para doação. Sem o oxigênio do sangue circulante, as células rapidamente começam a morrer. Para preservar o corpo e o cérebro em sua forma menos degradada, a morte celular deve ser detida, ou pelo menos desacelerada, o mais rápido possível. Além disso, a prioridade durante o resfriamento é evitar a formação de cristais de gelo, que podem destruir as delicadas estruturas das células.

 

Os membros da Alcor entendem que talvez jamais venha a existir a tecnologia para ressuscitá-los. Cada pessoa que mora

nos dewars da Alcor dá um salto de fé, torcendo e sonhando para que um dia se materialize a tecnologia que a descongele, ressuscite e lhe dê uma segunda chance na vida. O empreendimento é uma aposta de que o futuro desenvolverá a tecnologia necessária. Conversei com um integrante da comunidade (que espera, quando chegar a hora, sua eventual

entrada nos dewars) e ele admitiu que todo o conceito era um jogo. Porém, como ele observou, esse jogo pelo menos lhe dá uma chance maior do que zero de enganar a morte, chances melhores do que tem o resto de nós.

O doutor Max More, diretor das instalações, não usa a palavra “imortalidade”. Em vez disso, disse ele, a Alcor existe para dar às pessoas uma segunda chance na vida, com o potencial de viver milhares de anos ou mais. Até que chegue essa época, a Alcor é seu lugar de descanso final.