Cérebro: Uma Biografia
O cérebro em envelhecimento
Hoje vivemos por mais tempo do que em qualquer momento da história humana, e isso representa desafios para a manutenção da saúde cerebral. Doenças como Alzheimer e Parkinson atacam nosso tecido encefálico e, com ele, a essência de quem somos.
Mas há boas notícias: da mesma forma como o ambiente e o comportamento modelam o cérebro na juventude, ambos são igualmente importantes na velhice.
Por todos os Estados Unidos, mais de 1.100 freiras, padres e frades participaram de um projeto de pesquisa único – o Estudo das Ordens Religiosas – a fim de explorar os efeitos do envelhecimento sobre o cérebro. O objetivo do estudo, particularmente, é obter os fatores de risco para a doença de Alzheimer e incluiu participantes de no mínimo 65 anos, que não apresentavam sintomas nem nenhum sinal mensurável da doença.
Além de ser um grupo estável, que pode ser localizado facilmente todo ano para testes regulares, as ordens religiosas partilham de um estilo de vida semelhante, inclusive na nutrição e nos padrões de vida. Isso faz com que existam menos “fatores perturbadores” ou diferenças que podem surgir na população mais ampla, como hábitos alimentares, situação socioeconômica ou nível de instrução – que podem interferir nos resultados do estudo.
A coleta de dados começou em 1994. Até agora, o doutor David Bennett e sua equipe, da Universidade Rush, em Chicago, coletaram mais de 350 cérebros. Cada um deles é cuidadosamente preservado e examinado em busca de evidências microscópicas de doenças cerebrais relacionadas com o envelhecimento. Esta parte representa apenas metade do estudo: a outra envolve a coleta de dados detalhados sobre os participantes enquanto eles estão vivos. Todo ano, aqueles que participam do estudo passam por uma bateria de testes, que vão de avaliações psicológicas e cognitivas a exames médicos, físicos e genéticos.
No início da pesquisa, a equipe esperava descobrir uma ligação clara entre o declínio cognitivo e as três doenças que são as causas mais comuns da demência senil: Alzheimer, derrames e doença de Parkinson. Em vez disso, eles descobriram que ter o tecido cerebral devastado pelo Alzheimer não significa necessariamente ter problemas cognitivos. Algumas pessoas morriam com o cérebro inteiramente tomado pelo Alzheimer sem ter perda cognitiva. O que estava acontecendo?
A equipe voltou aos substanciais dados coletados em busca de pistas. Bennett descobriu que fatores psicológicos e vivenciais determinavam se haveria perda da cognição. Especificamente, exercícios cognitivos – isto é, atividades que mantêm o cérebro ativo, como fazer palavras cruzadas, ler, dirigir, aprender novas habilidades e ter responsabilidades – tiveram um caráter protetor. Assim como atividades sociais, redes e interações sociais e atividade física.
Por outro lado, eles descobriram que fatores psicológicos negativos como solidão, ansiedade, depressão e tendência a angústia psicológica tinham relação com um declínio cognitivo mais acelerado. Características positivas como ter um caráter consciente, um propósito na vida e se manter ocupado protegiam as pessoas.
Os participantes com tecido neural doente, mas sem sintomas cognitivos, formaram o que se conhece como “reserva cognitiva”. Conforme ocorria a degeneração de áreas do tecido cerebral, outras áreas foram bem exercitadas e compensaram ou assumiram essas funções. Quanto mais mantemos nosso cérebro apto do ponto de vista cognitivo, desafiando-o com tarefas difíceis e novas, inclusive a interação social, mais as redes neurais formam novas vias para ir de A para B.
Pense no cérebro como uma caixa de ferramentas. Se ela for boa, vai conter tudo que é necessário para você fazer o que precisa. Se tiver que soltar um parafuso, você poderá pegar uma chave sextavada. Se não tiver uma dessas, pode usar uma chave inglesa. Caso não encontre, um alicate pode servir. O conceito é o mesmo em um cérebro apto cognitivamente: mesmo que muitas vias entrem em declínio devido a uma doença, o cérebro pode recorrer a outras soluções.
O cérebro das freiras demonstra que é possível proteger nossos cérebros e ajudar a continuar sendo quem somos pelo maior tempo possível. Não podemos deter o processo de envelhecimento, mas talvez consigamos reduzir seu ritmo se praticarmos todas as habilidades da nossa caixa de ferramentas cognitivas.