Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 41 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

O cérebro é uma máquina formada do conflito

O CÉREBRO É UMA MÁQUINA FORMADA DO

CONFLITO

 

Vamos dar uma olhada mais atenta no que está acontecendo nos bastidores durante uma decisão. Imagine que você está tomando

uma decisão simples, parado na loja de frozen yogurt, tentando escolher entre dois sabores de que gosta igualmente. Digamos que sejam hortelã e limão. Do lado de fora, não parece que você está fazendo grande coisa: simplesmente está empacado ali, olhando entre uma opção e outra. Mas, dentro de seu cérebro, uma simples decisão como essa desencadeia um furacão de atividade.

Sozinho, um neurônio não tem influência significativa, mas cada neurônio está conectado a milhares de outros. Estes, por sua vez, conectam-se com outros milhares e assim por diante, em uma rede cheia de voltas e entrelaçamentos. Todos liberam substâncias químicas que excitam ou deprimem outros neurônios.

Dentro desta teia, uma determinada constelação de neurônios representa o sabor hortelã. Esse padrão é formado de neurônios que se excitam mutuamente. Eles não estão necessariamente lado a lado, podem cobrir regiões distantes do cérebro envolvidas no olfato, paladar, visão e em seu histórico único de lembranças envolvendo hortelã. Cada um desses neurônios, sozinho, tem pouca relação com hortelã – na realidade, cada neurônio desempenha muitos papéis, em diferentes momentos, em coalizões que sempre se alteram. Porém, quando todos esses neurônios se tornam ativos coletivamente, nesse determinado arranjo... eles significam “hortelã” para o seu cérebro. Enquanto você está na frente da seleção de iogurtes, essa federação de neurônios se comunica avidamente como indivíduos dispersos conectados on-line.

Esses neurônios não estão agindo sozinhos em suas manobras eleitorais. Ao mesmo tempo, a possibilidade concorrente – o limão – é representada por seu próprio partido neural. Cada coalizão – hortelã e limão – tenta ganhar vantagem, intensificando a própria atividade e reprimindo a da outra. Lutam até que uma delas triunfa numa competição em que o vencedor leva tudo. A rede vencedora define o que você fará.

Diferentemente dos computadores, o cérebro encena o conflito entre possibilidades diversas e todas tentam superar as outras. E sempre existem múltiplas opções. Mesmo depois de ter escolhido hortelã ou limão, você se vê em um novo conflito: deve devorar a coisa toda? Parte de você quer a deliciosa fonte de energia e, ao mesmo tempo, a outra parte sabe que aquilo é puro açúcar – em vez de comer, você poderia correr. Limpar todo o pote de frozen yogurt é simplesmente uma questão de como se resolve esse corpo a corpo.

Como consequência dos conflitos contínuos no cérebro, podemos discutir com nós mesmos, xingar e nos persuadir a tomar certas decisões. Mas quem exatamente está falando com quem? Tudo é você – mas são diferentes partes de você.

 

O CÉREBRO DIVIDIDO:

DESMASCARANDO O CONFLITO

 

Em circunstâncias especiais, é particularmente fácil testemunhar o

conflito interno entre as diferentes partes do cérebro. Como um

tratamento para determinadas formas de epilepsia, alguns pacientes

se submetem a uma cirurgia de “cérebro dividido”, em que os dois

hemisférios do cérebro são desconectados. Normalmente, os dois

hemisférios são conectados por uma supervia de nervos chamada

corpo caloso, que permite que as metades direita e esquerda se

coordenem e trabalhem em harmonia. Se você sente frio, as duas

mãos cooperam: uma segura a bainha do casaco enquanto a outra

puxa o zíper.

Mas, quando o corpo caloso é seccionado, pode surgir um

problema clínico extraordinário e inquietante: a síndrome da mão

estranha. As duas mãos podem agir com intenções inteiramente

diferentes: o paciente começa a puxar para cima o zíper do casaco

com uma das mãos e a outra (a mão “estranha”) de repente segura o

zíper e o puxa para baixo. Ou o paciente estende uma das mãos para

pegar um biscoito e a outra mão entra em ação rapidamente, batendo

nela para impedi-la. O conflito normal que acontece no cérebro é

revelado quando os dois hemisférios agem de forma independente.

A síndrome da mão estranha normalmente desaparece nas

semanas depois da cirurgia, à medida que as duas metades do cérebro

tiram proveito das ligações restantes e voltam a se coordenar. Mas

serve como demonstração clara de que, mesmo quando pensamos

ser decididos, nossos atos são fruto de batalhas imensas que surgem e

desaparecem continuamente na escuridão do crânio.

 

Para desenredar parte dos principais sistemas concorrentes no cérebro, pense em um experimento de raciocínio conhecido como o “dilema do bonde”. Um bonde desce descontrolado pelos trilhos. Quatro trabalhadores estão fazendo reparos um pouco à frente, e você, um espectador, rapidamente percebe que todos serão mortos pelo bonde desenfreado. Então, você percebe uma alavanca próxima que pode desviar o bonde para outro trilho. Mas espere! Há uma pessoa trabalhando naquele trilho. Assim, se puxar a alavanca, um trabalhador será morto. Se não puxar, quatro morrerão. O que você faz?

Imagem 14: O dilema do bonde. Quando indagadas o que fariam nessa

 

hipótese, quase todas as pessoas puxam a alavanca. Afinal, é muito

melhor que morra uma só pessoa do que quatro, certo?

 

Agora pense numa segunda hipótese um pouco diferente. A situação começa com a mesma premissa: um bonde desce desenfreado pelos trilhos e quatro trabalhadores serão mortos. Mas, dessa vez, você está no deque de uma torre de caixa d’água que dá para os trilhos e percebe que há um grandalhão de pé ali com você, olhando para longe. Você se dá conta de que, se o empurrar, ele caíra em cheio no trilho, e o peso de seu corpo será suficiente para deter o bonde e salvar os quatro trabalhadores.

Imagem 15: O dilema do bonde, hipótese 2. Nessa situação, quase

ninguém se dispõe a empurrar o homem. Por que não? Quando indagadas, as pessoas dão respostas como “seria assassinato” e

“simplesmente seria errado”.

 

Você o empurra?

Mas espere. Não estão lhe pedindo para considerar a mesma equação nos dois casos? Trocar uma vida por quatro? Por que o resultado é tão diferente na segunda hipótese? A ética se voltou para este problema de muitos ângulos, mas o neuroimageamento tem conseguido dar uma resposta bem simples. Para o cérebro, a primeira hipótese é um simples problema de matemática. O dilema ativa regiões envolvidas na solução de problemas lógicos.

Imagem 16: Várias regiões do cérebro são mais empregadas na solução

de problemas lógicos.

 

Na segunda hipótese, você tem de interagir fisicamente com o homem e empurrá-lo para a morte. Isto recruta redes adicionais para a decisão: regiões do cérebro envolvidas na emoção.

Na segunda hipótese, somos apanhados em conflito entre dois sistemas que têm opiniões diferentes. Nossas redes racionais nos dizem que uma morte é melhor do que quatro, mas nossas redes emocionais estimulam um sentimento visceral de que é errado assassinar o espectador. Ficamos presos entre impulsos competitivos, com a consequência de que nossa decisão provavelmente será bem diferente daquela da primeira hipótese.

Imagem 17: Ao considerar empurrar um homem inocente para a morte,

 

as redes envolvidas nas emoções são mais comprometidas na tomada

de decisão, e isso pode alterar o resultado.

 

O dilema do bonde esclarece situações do mundo real. Pense na guerra moderna, que ficou muito mais parecida com o puxão na alavanca do que com empurrar o homem da torre. Quando uma pessoa aperta o botão para lançar um míssil de longo alcance, o ato envolve apenas as redes que participam da solução de problemas lógicos. Operar um drone pode ser parecido com um videogame; os ciberataques têm consequências a distância. Aqui, estão em operação as redes racionais, mas não necessariamente as emocionais. A natureza alheia da guerra a distância reduz o conflito íntimo, tornando mais fácil guerrear.

Uma pessoa sábia sugeriu que o botão para lançar mísseis nucleares fosse implantado no peito do melhor amigo do presidente. Desta forma, se ele decidisse lançar armas nucleares, teria de infligir violência física ao amigo, abrindo-o. Essa consideração recrutaria redes emocionais para a decisão. Quando diante de decisões de vida ou morte, a razão sem controle pode ser perigosa. Nossas emoções são um eleitorado poderoso, frequentemente criterioso, e seria negligência nossa excluí-lo da votação parlamentar. O mundo não seria melhor se todos nos comportássemos como robôs.

Embora a neurociência seja nova, essa intuição tem uma longa história. Os gregos antigos sugeriam que devíamos pensar na vida como carruagens. Somos carroceiros tentando segurar dois cavalos: o cavalo branco da razão e o cavalo preto da paixão. Cada cavalo tenta sair do eixo, puxando em direções contrárias. O seu trabalho é manter o controle de ambos, conduzindo-os pelo meio da estrada.

Na realidade, à moda neurocientífica, podemos desmascarar a importância das emoções vendo o que acontece quando alguém perde a capacidade de incluí-las na tomada de decisão.