Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 68 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

O que é necessário para a consciência?

 

Embora os detalhes teóricos ainda não tenham sido elaborados, a mente parece emergir da interação dos bilhões de componentes do cérebro. Isso leva a uma pergunta fundamental: a mente pode emergir de qualquer coisa que tenha muitas partes em interação? Por exemplo, uma cidade pode ser consciente? Afinal, uma cidade é formada das interações entre os elementos. Pense em todos os sinais em movimento por uma cidade: cabos telefônicos, linhas de fibra ótica, esgotos carregando dejetos, cada aperto de mãos entre pessoas, cada sinal de trânsito e assim por diante. A escala de interação em uma cidade é equivalente à do cérebro humano. É claro que seria muito difícil saber se uma cidade seria consciente. Como uma cidade poderia nos dizer? Como perguntaríamos a ela?

Para responder a uma pergunta como esta precisamos de outra mais profunda: para uma rede experimentar a consciência, ela precisa de mais do que apenas algumas peças – ou, em vez disso, de uma estrutura muito particular para as interações?

O professor Giulio Tononi, da Universidade de Wisconsin, tenta responder exatamente a essa pergunta. Ele propôs uma definição quantitativa da consciência. Para Tononi, não basta que existam componentes em interação. Deve haver certa organização subjacente a esta interação.

Para pesquisar a consciência em ambiente de laboratório, Tononi usa a estimulação magnética transcraniana (EMT) a fim de comparar a atividade no cérebro desperto e quando em sono profundo (como vimos no Capítulo 1, a sua consciência desaparece). Pela introdução de uma descarga de corrente elétrica no córtex, ele e sua equipe podem então acompanhar como a atividade se espalha.

Quando um participante está desperto e consciente, um padrão complexo de atividade neural se espalha a partir do foco do pulso de EMT. Ondas prolongadas de atividade espalham-se a diferentes áreas corticais, revelando a ampla conectividade pela rede. Já quando a pessoa está em sono profundo, o mesmo pulso de EMT estimula apenas uma área muito local, e a atividade se encerra rapidamente. A rede perdeu grande parte da conectividade. O mesmo resultado é visto quando uma pessoa está em coma: a atividade se espalha muito pouco, mas, à medida que a pessoa emerge para a consciência com o passar das semanas, a atividade se espalha mais amplamente.

Tononi acredita que isso aconteça porque a comunicação é disseminada entre áreas corticais diferentes quando estamos despertos e conscientes. O estado inconsciente de sono, por sua vez, é caracterizado por uma falta de comunicação entre as áreas. Nesse contexto, Tononi sugere que um sistema consciente exige um equilíbrio perfeito de complexidade suficiente para representar muitos estados diferentes (isso se chama diferenciação) e conectividade suficiente para que partes distantes da rede estejam em estreita comunicação entre si (chama-se integração). No contexto de Tononi, o equilíbrio de diferenciação e integração pode ser quantificado e ele propõe que somente os sistemas na amplitude certa experimentam a consciência.

Caso se prove correta, essa teoria daria uma avaliação não invasiva do nível de consciência em pacientes comatosos. Ela também pode nos proporcionar os meios para sabermos se sistemas inanimados têm consciência. Então, a resposta para a pergunta “uma cidade seria consciente?” poderia ser “depende de o fluxo de informações ser organizado do jeito certo, com a quantidade perfeita de diferenciação e integração”.

A teoria de Tononi é compatível com a ideia de que a consciência humana pode escapar de sua origem biológica. Nesta visão, embora a consciência tenha evoluído por um determinado caminho que resultou no cérebro, ela não precisa ser formada de matéria orgânica. Pode tranquilamente ser feita de silício, supondo-se que as interações sejam organizadas da maneira correta.

 

CONSCIÊNCIA E NEUROCIÊNCIA

 

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Pense por um momento nesta experiência privada e subjetiva: o espetáculo que só acontece dentro da cabeça de alguém. Por exemplo, quando eu mordo um pêssego enquanto vejo o sol se pôr, você não pode saber a exata experiência que tenho intimamente, apenas supor com base nas suas experiências. Minha experiência consciente é minha, a sua é sua. Assim, como isso pode ser estudado pelo método científico?

Em décadas recentes, pesquisadores se dedicaram a esclarecer

os “correlatos neurais” da consciência, isto é, os padrões exatos de atividade cerebral presentes sempre que uma pessoa tem determinada experiência – e presentes apenas quando ela tem essa experiência.

Considere a imagem ambígua de um pato/coelho. Como a figura

da velha/jovem no Capítulo 4, a propriedade interessante dessa imagem é que você só consegue experimentar uma interpretação de cada vez, não as duas ao mesmo tempo. Assim, nos momentos em que você tem a experiência do coelho, qual é exatamente a marca de atividade no seu cérebro? Quando você muda para o pato, o que seu cérebro está fazendo de um jeito diferente? Nada na página mudou, então o fator de transformação deve ser os detalhes da atividade cerebral que produzem sua experiência consciente.