Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 23 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Nosso modelo interno é de baixa resolução, mas pode ser atualizado

NOSSO MODELO INTERNO É DE BAIXA RESOLUÇÃO,

MAS PODE SER ATUALIZADO

 

Nosso modelo interno do mundo nos permite ter um senso rápido do ambiente. E esta é sua principal função – navegar pelo mundo. O que nem sempre fica evidente são os detalhes que o cérebro deixa de fora. Temos a ilusão de apreender o mundo ao redor com riqueza de detalhes, porém, como mostra uma experiência realizada nos anos 1960, não é bem assim.

O psicólogo russo Paul Yarbus elaborou um jeito de acompanhar os olhos das pessoas quando veem uma cena pela primeira vez.

Usando a tela O visitante inesperado, de Ilya Repin, Yarbus pediu aos participantes que a olhassem detalhadamente por três minutos e depois descrevessem o que viram sem que a tela estivesse diante deles.

Em uma reprise desse experimento, dei tempo aos participantes para olhar a pintura, de modo que seus cérebros formassem um modelo interno da cena. Mas qual era o grau de detalhes desse modelo? Quando fiz perguntas aos participantes, todos que tinham visto a pintura pensaram saber o que havia nela. Mas, quando pedi detalhes específicos, ficou evidente que seus cérebros deixaram de preencher a maior parte dos detalhes. Quantas pinturas havia nas paredes? Qual era a mobília na sala? Quantas crianças? O piso era de madeira ou tinha carpete? Qual era a expressão do visitante inesperado? A falta de respostas revelou que as pessoas tiveram apenas um senso muito apressado da cena. Elas ficaram surpresas quando descobriram, mesmo com um modelo interno de baixa resolução, que ainda tinham a impressão de que tinham visto tudo. Posteriormente, depois das perguntas, dei aos participantes a oportunidade de olhar novamente a tela em busca de parte das respostas. Os olhos deles buscaram as informações e as incorporaram em um modelo interno novo, atualizado.

Isso não é um defeito do cérebro. Ele não tenta produzir uma simulação perfeita do mundo. Na verdade, o modelo interno é uma aproximação desenhada às pressas: o seu cérebro sabe onde procurar detalhes e outros são acrescentados à medida que são necessários.

 

Imagem 8: Acompanhamos o movimento ocular de voluntários que

olhavam O visitante inesperado, uma pintura de Ilya Repin. Os riscos

brancos mostram o espaço percorrido pelo olhar deles. Apesar da

abrangência dos movimentos oculares, eles não retiveram quase nada

dos detalhes.

 

Então, por que o cérebro não nos dá o quadro completo? Porque o cérebro é custoso, consome muita energia. Vinte por cento das calorias que consumimos são usadas para alimentar o cérebro, que tenta operar com a maior eficiência energética possível, o que significa processar apenas a quantidade mínima de informações dos nossos sentidos de que precisamos para viver o mundo.

Os neurocientistas não foram os primeiros a descobrir que fixar o olhar em alguma coisa não é garantia de enxergá-la. Os mágicos já deduziram isso há muito tempo. Orientando nossa atenção, eles fazem truques à plena vista. Seus movimentos deveriam entregar o jogo, mas eles podem ter certeza de que o cérebro só processa pequenos fragmentos da cena visual.

Tudo isso ajuda a explicar a predominância de acidentes de trânsito em que os motoristas atingem pedestres em plena vista ou batem nos carros à frente. Em muitos desses casos, os olhos estão apontados para a direção certa, mas o cérebro não está vendo o que realmente há lá fora.