Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 70 de 71

Páginas do PDF

Cérebro: Uma Biografia

Já estamos vivendo em uma simulação?

 

Talvez o que você escolhesse para sua simulação fosse algo muito parecido com a vida atual na Terra e essa simples ideia tem levado vários filósofos a se perguntar se já não estaríamos vivendo em uma simulação. Embora a ideia pareça fantástica, já sabemos com que facilidade podemos ser enganados a aceitar nossa realidade: toda noite adormecemos, temos sonhos estranhos e, enquanto estamos neles, acreditamos plenamente nesses mundos.

 

TRANSFERÊNCIA: AINDA É VOCÊ?

 

Se os algoritmos biológicos são a parte importante do que nos torna quem somos, e não a matéria física, então existe uma possibilidade de um dia podermos copiar nossos cérebros, fazermos uma transferência e viver para sempre em silício. Mas há uma questão importante aqui: seria você, de fato? Não exatamente. A cópia transferida tem todas as suas lembranças e acredita que é você, bem ali, fora do computador, em seu corpo. E a parte estranha é esta: se você morrer e ligarmos a simulação um segundo mais tarde, seria uma transferência. Não seria diferente do teletransporte em Jornada nas estrelas, quando uma pessoa é desintegrada e uma nova versão é reconstituída um instante depois. A transferência talvez não seja tão diferente do que lhe acontece toda noite quando vai dormir: você experimenta uma pequena morte da sua consciência e a pessoa que desperta no travesseiro na manhã seguinte herda todas as suas lembranças e acredita que é você.

As questões sobre nossa realidade não são novas. Há 2.300 anos, o filósofo chinês Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Ao acordar, refletiu a respeito desta pergunta: como eu saberia que era Chuang Tzu sonhando que é uma borboleta – ou se, em vez disso, agora sou uma borboleta sonhando que sou um homem chamado Chuang Tzu?

O filósofo francês René Descartes se debateu com uma versão diferente desse mesmo problema. Ele se perguntou como poderíamos saber se o que experimentamos é a verdadeira realidade. Para tornar o problema claro, ele imaginou um experimento de raciocínio: como saberei que não sou um cérebro em uma cuba? Talvez alguém esteja estimulando este cérebro do jeito exato para me fazer acreditar que estou aqui, tocando o chão, vendo essas pessoas e ouvindo esses sons. Descartes concluiu que não há meio de saber. Mas também percebeu algo mais: existe algum “eu” no centro tentando entender tudo isso. Seja eu um cérebro numa cuba ou não, estou ponderando o problema. Estou pensando nele, logo existo.