Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 54 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Alguns mais iguais do que outros

 

O colapso do funcionamento social normal pode ser estudado no laboratório? Eu criei um experimento para descobrir a resposta.

A primeira pergunta era simples: será que o seu senso básico de empatia para com alguém muda dependendo de esse alguém pertencer ou não ao seu grupo íntimo?

Colocamos os participantes no escâner. Eles veem seis mãos na tela. Como uma roda da fortuna em um programa de TV, o computador escolhe aleatoriamente uma das mãos. Essa mão então se expande no meio da tela e você a vê ser tocada por um cotonete ou perfurada pela agulha de uma seringa. Esses dois atos geram a mesma atividade no sistema visual, porém têm reações muito diferentes no resto do cérebro.

Como vimos anteriormente, assistir a outra pessoa sentindo dor ativa nossa própria matriz da dor. Essa é a base da empatia. Assim, agora podemos elevar o nível de nossas perguntas sobre a empatia. Depois que determinamos esta condição básica, fazemos uma alteração muito simples: as mesmas seis mãos aparecem na tela, mas agora cada uma delas tem um rótulo com uma palavra, dizendo cristão, judeu, ateu, muçulmano, hindu ou cientologista. Quando era escolhida ao acaso, a mão se expandia no meio da tela e depois era tocada pelo cotonete ou furada pela agulha de seringa. Nossa questão experimental era esta: o seu cérebro se importaria tanto quando visse alguém de fora de seu grupo sendo machucado?

Encontramos muita variabilidade individual, mas, em média, o cérebro das pessoas mostrava uma reação empática maior quando elas viam alguém de seu grupo sentindo dor, e uma resposta menor quando era um membro de fora do grupo. O resultado é especialmente digno de nota, uma vez que eram simplesmente rótulos com uma só palavra: é preciso muito pouco para determinar a participação num grupo.

Uma categorização básica é suficiente para alterar a resposta pré-consciente do cérebro a outra pessoa com dor. Podemos ter opiniões sobre a tendência à discórdia na religião, mas há uma questão mais profunda a ser observada aqui: em nosso estudo, até os ateus mostraram uma reação maior à dor na mão rotulada de “ateu” e uma reação menos empática com as outras etiquetas. Assim o resultado não gira fundamentalmente em torno da religião e sim do grupo a que você pertence.

Vemos que as pessoas podem sentir uma empatia menor por quem não pertence a seu grupo. Mas, para entender algo como a violência ou o genocídio, ainda precisamos ir mais longe, até a desumanização.

Lasana Harris, da Universidade de Leiden, na Holanda, tem feito uma série de experimentos que nos aproximam mais da compreensão de como isso acontece. Harris procura alterações na rede social do cérebro, em particular no córtex pré-frontal medial (CPFM). Essa região se torna ativa quando você interage com outras pessoas ou pensa nelas – mas não é ativa quando estamos lidando com objetos inanimados, como uma xícara de café.

Harris mostra aos voluntários fotografias de pessoas de diferentes grupos sociais, por exemplo, sem-teto ou viciados em drogas. E descobriu que o CPFM é menos ativo quando os participantes observam um sem-teto. É como se a pessoa mais parecesse um objeto.

Imagem 23: O córtex pré-frontal medial está envolvido no pensamento

em outras pessoas – na maioria das outras pessoas, pelo menos.

 

Como afirma Harris, quando alguém desativa os sistemas que veem um sem-teto como outro ser humano, não é necessário experimentar as pressões desagradáveis de se sentir mal por não lhe dar dinheiro. Em outras palavras, o sem-teto tornou-se desumanizado: o cérebro o vê mais como objeto e menos como gente. Não é de surpreender que seja menos provável uma pessoa tratá-lo com consideração. Como explica Harris: “Se você não diagnostica corretamente as pessoas como seres humanos, talvez as regras morais que são reservadas para a pessoa humana não se apliquem.”

A desumanização é um componente fundamental do genocídio. Os nazistas viam os judeus como inferiores a humanos, e os sérvios da antiga Iugoslávia viam os muçulmanos da mesma maneira.

Quando estive em Sarajevo, andei pela rua principal da cidade. Durante a guerra, ela ficou conhecida como Rua dos Atiradores porque civis, homens, mulheres e crianças, foram mortos por atiradores agachados nos morros que a cercam e nos prédios vizinhos. A rua se tornou um dos símbolos mais fortes dos horrores da guerra. Como uma rua normal de uma cidade chega a esse ponto?

Essa guerra, como todas as outras, foi estimulada por uma forma eficaz de manipulação neural que tem sido praticada há séculos: a propaganda. Durante a guerra iugoslava, a principal rede de notícias, a Rádio Televisão da Sérvia, era controlada pelo governo e apresentava matérias distorcidas como se fossem fatos, consistentemente. A rede inventou relatos de ataques com motivação étnica, perpetrados por muçulmanos bósnios e croatas contra o povo sérvio. Demonizaram de modo contínuo os bósnios e croatas e usaram linguagem negativa nas descrições de muçulmanos. No auge da bizarrice, a rede exibiu uma reportagem sem nenhum fundamento dizendo que os muçulmanos alimentavam leões famintos do zoológico de Sarajevo com crianças sérvias.

O genocídio só é possível quando acontece a desumanização em escala maciça, e o instrumento perfeito para esse trabalho é a propaganda, que se encaixa bem nas redes neurais que compreendem os outros e diminui a sintonia da empatia que sentimos por eles.

Vimos que nosso cérebro pode ser manipulado por um viés político para desumanizar os outros, o que pode então levar ao lado mais sombrio dos atos humanos. Mas é possível programar nosso cérebro para evitar que isso aconteça? Uma possível solução está em um experimento dos anos 1960 realizado não num laboratório científico, mas em uma escola.

Era o ano de 1968, um dia depois do assassinato do líder dos direitos civis Martin Luther King. Jane Elliott, professora em uma cidade pequena do Iowa, decidiu demonstrar aos alunos do que se tratava o preconceito. Jane perguntou se eles entenderiam a sensação de ser julgado pela cor da pele. Os alunos, em sua maioria, achavam que sim. Mas ela não estava assim tão certa, então lançou o que se destinava a se tornar um experimento famoso. Anunciou que aqueles alunos que tinham olhos azuis eram “as melhores pessoas desta turma”.

Jane Elliott: Os alunos de olhos castanhos não terão o direito de usar o bebedouro. Terão de usar copos de papel. Também não vão brincar no pátio com quem tem olhos azuis, porque não são tão bons quanto eles. Hoje, os alunos de olhos castanhos desta turma vão usar coleira, porque assim saberemos de longe de que cor são os seus olhos. Na página 127... Está todo mundo pronto? Todo mundo, menos Laurie. Pronta, Laurie?

Criança: Ela tem olhos castanhos.

Jane: Ela tem olhos castanhos. Você vai começar a notar hoje que passamos muito tempo esperando as pessoas de olhos castanhos.

Um instante depois, Jane procura pela vareta, e dois meninos se manifestam. Rex aponta a ela onde está a vareta e Raymond se oferece, prestativo: “Olha, srta. Elliott, é melhor deixar isso na sua mesa para usar se as pessoas castanhas [sic], digo, as pessoas de olhos castanhos começarem a criar confusão.”

Recentemente, eu conversei com esses dois meninos, agora adultos: Rex Kozac e Ray Hansen. Ambos têm olhos azuis. Perguntei se eles se lembravam de como tinham se comportado naquele dia. Ray afirmou: “Fui horrivelmente mau com meus amigos. Eu estava a ponto de implicar com meus amigos de olhos castanhos só para aparecer.” Ele se lembrou de que, na época, seu cabelo era muito louro e seus olhos, muito azuis. “E eu era o nazista perfeito. Procurava maneiras de ser cruel com meus amigos, que, minutos ou horas antes, eram muito próximos de mim.”

No dia seguinte, Jane inverteu o experimento. Ela anunciou à turma:

 

Quem tem olhos castanhos pode tirar a coleira e colocar numa pessoa de

olhos azuis. Quem tem olhos castanhos terá cinco minutos a mais de recreio.

Vocês, de olhos azuis, não têm permissão de usar os brinquedos do pátio em

hora nenhuma nem podem brincar com as pessoas de olhos castanhos. Os

alunos de olhos castanhos são melhores do que os de olhos azuis.

 

Rex descreveu como foi a inversão: “É uma coisa que pega o seu mundo e o destrói como você nunca viu.” Quando Ray estava no grupo inferior, teve uma sensação tão profunda de perda de personalidade e de identidade, que quase não conseguia se mover.

Uma das coisas mais importantes que aprendemos como seres humanos é assumir uma perspectiva. Em geral, as crianças não costumam fazer isso. Quando se é obrigado a entender como é se colocar no lugar do outro, novas vias cognitivas são abertas. Depois do exercício na turma da srta. Elliott, Rex ficou mais atento contra declarações racistas e se lembra de dizer ao pai que aquilo “não era certo”. Rex se lembra desse momento com ternura: ele sentiu que se autoafirmava e que tinha começado a se transformar como pessoa.

O brilhantismo do exercício olhos azuis/olhos castanhos foi o fato de Jane Elliott ter alterado os grupos que eram predominantes. Isso permitiu que as crianças aprendessem uma lição maior: os sistemas de regras podem ser arbitrários. As crianças aprenderam que as verdades do mundo não são fixas e, além disso, não são necessariamente verdades. O exercício deu às crianças o poder de enxergar além das distorções de programas políticos e formar suas próprias opiniões – certamente uma habilidade que queremos para todas as nossas crianças.

A educação tem um papel fundamental na prevenção do genocídio. Só compreendendo o impulso neural para formar grupos internos e de excluídos – e os truques padrão pelos quais a propaganda se aproveita desse impulso – podemos ter esperança de interromper as vias de desumanização que terminam em atrocidade em massa.

Nesta era de hiperlinks digitais, é mais importante do que nunca entender as ligações entre os seres humanos. O cérebro humano é fundamentalmente equipado para interagir: somos uma espécie magnificamente social. Embora nossos impulsos sociais às vezes possam ser manipulados, eles também se colocam em cheio no centro da história de sucesso humana.

Você pode supor que termina nos limites de sua pele, mas há um sentido em que não é possível marcar onde você termina e os outros começam. Os seus neurônios e os neurônios de todos no planeta interagem em um superorganismo gigantesco e cambiante. O que demarcamos como você é simplesmente uma rede em outra rede maior. Se quisermos um futuro brilhante para nossa espécie, precisamos continuar a pesquisar como interagem os cérebros humanos – os perigos, bem como as oportunidades. Porque não há meios de evitar a verdade gravada nos circuitos dos nossos cérebros: nós precisamos uns dos outros.