Cérebro: Uma Biografia
Transferindo a consciência
Se o software do cérebro é o elemento fundamental para a mente, e não os detalhes do hardware, então, em tese, podíamos nos livrar do substrato de nossos corpos. Com computadores de potência suficiente simulando as interações do cérebro, seria possível fazer uma transferência. Existiríamos digitalmente rodando a nós mesmos como uma simulação, escapando do sistema biológico do qual surgimos, tornando-nos seres não biológicos. Seria o salto mais importante na história de nossa espécie, que nos lançaria na era do transumanismo.
Imagine como seria deixar o corpo para trás e entrar numa nova existência em um mundo simulado. Sua existência digital poderia parecer a vida que você quisesse. Programadores poderiam criar qualquer mundo virtual para você – mundos em que você pode voar, viver debaixo da água ou sentir os ventos de um planeta diferente. Seria possível rodar nossos cérebros virtuais como quiséssemos, de modo rápido ou lento, então nossa mente poderia cobrir imensos períodos de tempo ou transformar segundos de tempo de computação em bilhões de anos de experiência.
Um obstáculo técnico para uma transferência de sucesso é que o cérebro simulado deve ser capaz de se modificar. Precisaríamos não só de componentes físicos, mas também da física de suas interações contínuas – por exemplo, a atividade de fatores de transcrição que viajam ao núcleo e provocam a expressão genética, as mudanças dinâmicas na localização e na força das sinapses e assim por diante. Se suas experiências simuladas não mudassem a estrutura do cérebro simulado, você seria incapaz de formar novas lembranças e não sentiria o passar do tempo. Nessas circunstâncias, a imortalidade teria algum sentido?
Se a transferência se mostrar possível, abriria a capacidade de alcançar outros sistemas solares. Há pelo menos 100 bilhões de outras galáxias em nosso cosmo, cada uma delas contendo 100 bilhões de estrelas. Já localizamos milhares de exoplanetas orbitando essas estrelas, alguns com condições muito semelhantes à da Terra. A dificuldade está na impossibilidade de nosso corpo carnal atual conseguir chegar a esses exoplanetas – simplesmente não há jeito previsível de percorrermos essas distâncias no espaço e no tempo. Porém, como podemos interromper uma simulação, lançá-la no espaço e reiniciá-la mil anos depois, quando chegarmos ao planeta, pareceria à sua consciência que você estava na Terra, almoçou e instantaneamente se viu em um planeta novo. Uma transferência seria o equivalente a alcançar o sonho da física de encontrar um buraco de minhoca, permitindo-nos ir de uma parte do universo a outra em um instante subjetivo.