Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 30 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Consciência

 

É de manhã. As ruas do seu bairro estão tranquilas enquanto o sol aponta no horizonte. Em quartos por toda a cidade, um por um, acontece um evento impressionante: a consciência humana vibra e ganha vida. O objeto mais complexo de nosso planeta torna-se consciente de que existe.

Há pouco tempo, você estava em sono profundo. O material biológico do seu cérebro era o mesmo de agora, mas os padrões de atividade se alteraram um pouco; assim, neste momento, você está desfrutando de experiências. Você lê rabiscos em uma página e extrai significado deles. Talvez sinta o sol na pele e a brisa no cabelo. Você pode pensar na posição da sua língua ou na sensação do sapato no pé esquerdo. Acordado, você agora está consciente de uma identidade, uma vida, de necessidades, desejos, planos. Agora que o dia começou, você está pronto para refletir sobre seus relacionamentos e objetivos e nortear seus atos de acordo com isso.

Mas quanto controle a sua consciência desperta exerce sobre as operações diárias?

Pense em como você está lendo estas frases. Ao passar os olhos por esta página, você está praticamente inconsciente dos saltos rápidos e vigorosos dados por seus olhos. Eles não estão se movendo suavemente pela página, mas disparam de um ponto fixo a outro. No meio de um salto, seus olhos movem-se rápido demais para ler. Eles só apreendem o texto quando você para e firma uma posição, em geral por aproximadamente 20 milissegundos de cada vez. Não estamos conscientes destes saltos, paradas e começos porque seu cérebro trabalha duro para estabilizar sua percepção do mundo externo.

O ato de ler fica ainda mais estranho quando se pensa no seguinte: enquanto você lê estas palavras, seu significado flui desta sequência de símbolos diretamente para o cérebro. Para ter uma ideia da complexidade envolvida nisto, tente ler esta mesma informação em outro alfabeto:

 

Se você não sabe ler em bengali, bielorrusso ou coreano, esses caracteres lhe parecem meros rabiscos estranhos. Mas, depois de dominar a leitura de uma escrita (como esta), o ato dá a ilusão de ser espontâneo: não temos mais consciência de realizar a árdua tarefa de decifrar rabiscos. Seu cérebro faz o trabalho nos bastidores.

Então, quem está no controle? Você é o capitão do seu próprio navio ou suas decisões e atos estão mais relacionadas com o enorme maquinário neural que opera fora de vista? Será que a qualidade da sua vida cotidiana tem a ver com sua capacidade de tomar boas decisões ou com a densa selva de neurônios e o zumbido constante de transmissões químicas inumeráveis?

Neste capítulo, descobriremos que o seu “eu” consciente é apenas a menor parte da sua atividade cerebral. Seus atos, crenças e tendências são impelidos por redes no cérebro às quais você não tem acesso consciente.