Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 47 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Decisões e sociedade

 

Uma compreensão melhor da tomada de decisão abre a porta para uma política social melhor. Por exemplo, cada um de nós, a nossa própria maneira, luta contra o controle dos impulsos. Num extremo, podemos acabar escravos dos anseios imediatos de nossos impulsos. Deste ponto de vista, podemos ter uma compreensão mais sutil de esforços sociais como a guerra contra as drogas.

O vício em drogas é um antigo problema da sociedade, levando ao crime, a uma diminuição da produtividade, a doença mental, a transmissão de doenças e, mais recentemente, a uma população carcerária explosiva. Quase sete entre dez prisioneiros atende ao critério de abuso ou dependência de substâncias químicas. Em um estudo, 35,6% dos presidiários estavam sob a influência de drogas no momento em que cometeram o crime. O abuso de drogas se traduz em muitas dezenas de bilhões de dólares, principalmente com relação a crimes ligados às drogas.

A maioria dos países trata do problema do vício em drogas com sua criminalização. Algumas décadas atrás, 38 mil americanos estavam presos por crimes relacionados com entorpecentes. Atualmente, este número é de meio milhão. Pode parecer que a guerra contra as drogas é bem-sucedida, mas o encarceramento em massa não diminuiu o tráfico. Isso porque, em sua maioria, as pessoas atrás das grades não são chefes de cartel, nem chefões da Máfia, nem grandes traficantes – os prisioneiros foram trancafiados por posse de uma pequena quantidade de drogas, em geral, menos de dois gramas. São os usuários, os viciados. Ir para a prisão não resolve o problema deles – em geral, agrava.

Os Estados Unidos têm mais gente na prisão por crimes relacionados a drogas do que o número de presidiários na União Europeia. O problema é que o encarceramento cria um círculo caro e vicioso de recaídas e de volta ao presídio. Rompe os círculos sociais das pessoas e suas oportunidades de emprego e lhes dá novos círculos sociais e novas oportunidades de emprego – que costumam alimentar o vício.

Todo ano, os Estados Unidos gastam 20 bilhões de dólares na guerra contra as drogas; em todo o planeta, o total é de mais de 100 bilhões. Mas o investimento não deu certo. Desde que a guerra começou, o uso de drogas se expandiu. Por que esses gastos não tiveram sucesso? O problema no tráfico de drogas é que ele é como um balão de água: se você espremer em um lugar, ele aparece em outro. Em vez de atacar a oferta, a melhor estratégia é abordar a demanda. E a demanda de drogas está no cérebro do viciado.

Algumas pessoas argumentam que o vício em drogas gira em torno da pobreza e da pressão social. Esses fatores têm importância, mas, no cerne da questão, está a biologia do cérebro. Em experimentos laboratoriais, ratos que autoadministram drogas batem continuamente na alavanca de fornecimento e deixam de ingerir comida e bebida. Os ratos não estão fazendo isso por motivos financeiros ou de coerção social. Fazem porque as drogas mobilizam circuitos de recompensa fundamentais no cérebro. As drogas efetivamente dizem ao cérebro que essa decisão é melhor do que todas as outras que podem ser tomadas. Outras redes cerebrais podem entrar na batalha, representando todos os motivos para resistir à droga. Em um viciado, porém, a rede do desejo vence. A maioria dos viciados quer largar as drogas, mas se vê incapaz. Eles se tornam escravos dos impulsos.

Como o problema do vício em drogas está no cérebro, é plausível que as soluções também estejam ali. Uma abordagem é causar alteração no controle de impulsos. Isso pode ser feito aumentando a certeza e a celeridade da punição – por exemplo, exigindo que criminosos de drogas se submetam a um exame de drogas duas vezes por semana, com prisão automática e imediata se não passarem –, deixando de depender só da abstração distante. Do mesmo modo, alguns economistas propõem que a queda na criminalidade americana desde o início dos anos 1990 se deveu em parte à presença maior da polícia nas ruas. Na linguagem do cérebro, a visibilidade da polícia estimula as redes que pesam as consequências de longo prazo.

Em meu laboratório, trabalhamos em outra abordagem que pode ser eficaz. Damos resposta em tempo real durante imageamento do cérebro, permitindo que viciados em cocaína vejam a própria atividade cerebral e aprendam a regulá-la.

Uma de nossas participantes se chama Karen. Ela é vivaz e inteligente e, aos cinquenta anos, ainda tem uma energia juvenil. É viciada em crack há mais de duas décadas e descreve a droga como a ruína de sua vida. Se vir a droga diante de si, ela não tem alternativa senão tomá-la. Em experimentos contínuos em meu laboratório, colocamos Karen em varredura cerebral (ressonância magnética funcional, ou fMRI). Mostramos imagens de crack e pedimos a ela que as desejasse. Fazer isso é fácil para Karen e ativa determinadas regiões do cérebro que resumimos como a rede do desejo. Em seguida, pedimos que ela reprimisse o desejo, que pensasse no custo que o crack tinha para ela – em termos financeiros, de relacionamentos, de emprego. Isso ativou um conjunto diferente de áreas cerebrais, que resumimos como a rede de repressão. As redes de desejo e repressão sempre estão em batalha pela supremacia e aquela que vence em qualquer momento determina o que Karen faz quando lhe oferecem crack.

Usando técnicas computacionais rápidas na varredura, podemos medir qual rede está vencendo: o pensamento de curto prazo da rede de desejo ou o pensamento de longo prazo da rede de controle de impulso ou rede de repressão. Damos a Karen a resposta visual em tempo real na forma de um velocímetro, para que ela possa ver como corre a batalha. Quando seu desejo está vencendo, o ponteiro fica na zona vermelha; quando consegue reprimir, o ponteiro se desloca para a área azul. Ela então pode usar diferentes abordagens para descobrir o que pode causar mudança nessas redes.

Pela prática repetida, Karen passa a ter uma compreensão melhor do que precisa fazer para mover o ponteiro. Ela pode ou não estar conscientemente ciente de como faz isso, mas, pela prática repetida, pode fortalecer os circuitos neurais que lhe permitem exercer a repressão. Essa técnica ainda é nova, mas a esperança é que Karen passe a ter ferramentas cognitivas para recusar o crack quando a droga lhe for oferecida novamente e supere seus anseios imediatos, se quiser. O treinamento não obriga Karen a se comportar de nenhum jeito determinado, simplesmente lhe dá as habilidades cognitivas para ter mais controle sobre as decisões, em vez de ser uma escrava dos impulsos.

O vício em drogas é um problema para milhões de pessoas. Mas as prisões não são lugar para resolver o problema. Equipados com uma compreensão de como o cérebro humano de fato toma decisões, podemos desenvolver novas abordagens além da punição. À medida que passamos a apreciar melhor as operações dentro do nosso cérebro, podemos alinhar melhor o comportamento com nossas melhores intenções.

De forma mais geral, ter familiaridade com a tomada de decisão pode melhorar aspectos de nosso sistema de justiça criminal bem além do vício, levando a políticas que sejam mais humanas e menos dispendiosas. Como isso funcionaria? Começaria por uma ênfase na reabilitação em vez do encarceramento em massa. Pode parecer ilusório, mas existem lugares que já são pioneiros em tal abordagem, com muito sucesso. Um deles é o Centro de Tratamento Juvenil Mendota em Madison, no Wisconsin.

Muitos dos garotos que estão em Mendota, que têm de 12 a 17 anos, cometeram crimes que podiam determinar uma vida na prisão. Aqui, determinam a admissão deles. Para muitos desses jovens, esta é sua última chance. O programa teve início no começo da década de 1990, a fim de proporcionar uma nova abordagem ao trabalho com jovens de quem o sistema havia desistido. O programa dá uma atenção especial ao cérebro jovem e em desenvolvimento dos participantes. Como vimos no Capítulo 1, sem um córtex pré-frontal inteiramente desenvolvido, em geral as decisões são tomadas por impulso, sem consideração significativa das consequências futuras. Em Mendota, este ponto de vista inspira uma abordagem à reabilitação. Para ajudar os garotos a aprimorar o autocontrole, o programa fornece um sistema de tutoria, aconselhamento e recompensas. Uma técnica importante é treiná-los para parar e pensar no resultado futuro de qualquer decisão que possam tomar, estimulando-os a fazer simulações do que pode acontecer, e assim fortalecer conexões neurais que podem vencer a recompensa imediata dos impulsos.

O fraco controle dos impulsos é uma característica marcante da maioria dos criminosos no sistema carcerário. Muitos dos que estão do lado errado da lei em geral sabem a diferença entre o certo e o errado e entendem a ameaça do castigo, mas são paralisados por um controle fraco dos impulsos. Eles veem uma idosa com uma bolsa cara e não param para pensar em outras opções além de aproveitar a oportunidade. A tentação do agora supera qualquer consideração do futuro.

Enquanto nosso estilo atual de punição se assenta na vontade pessoal e na culpa, Mendota é um experimento de alternativas. Apesar de as sociedades possuírem impulsos de punição profundamente arraigados, podemos imaginar um sistema de justiça criminal diferente, com uma relação mais íntima com a neurociência das decisões. Tal sistema judiciário não deixaria ninguém escapar impunemente, mas se dedicaria mais a como lidar com os infratores de olho em seu futuro em vez de descartá-los devido a seu passado. Aqueles que rompem os contratos sociais precisam sair das ruas pela segurança da sociedade – contudo, o que acontece na prisão não precisa ser baseado apenas na sede de sangue, mas também em uma reabilitação significativa, fundamentada em evidências.

A tomada de decisão está no cerne de tudo: de quem somos, do que fazemos, como percebemos o mundo a nossa volta. Sem a capacidade de pesar alternativas, seríamos reféns de nossos impulsos mais fundamentais. Não conseguiríamos viver o agora de modo sensato, nem planejar a vida futura. Embora você tenha uma identidade única, não é de mente única, mas sim um conjunto de muitos impulsos concorrentes. Se compreendermos como a batalha de escolhas acontece no cérebro, podemos aprender a tomar decisões melhores para nós e para nossa sociedade.