Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 49 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Metade de nós são os outros

 

Mais de sete bilhões de cérebros humanos transitam pelo planeta atualmente. Embora seja um hábito nosso nos sentirmos independentes, cada um de nossos cérebros opera em uma rica teia de interação com os outros, tanto que podemos muito bem olhar as realizações de nossa espécie como a proeza de um único megaorganismo em mudança constante.

Por tradição, os cérebros têm sido estudados isoladamente, mas essa abordagem deixa passar o fato de que uma enorme quantidade de circuitos cerebrais tem relação com outros cérebros. Somos criaturas profundamente sociais. Desde nossas famílias, amigos, colegas de trabalho e parceiros nos negócios, nossas sociedades são formadas de camadas de interações sociais complexas. Por todo lugar, vemos relações se formando e se rompendo, laços familiares, o uso obsessivo de redes sociais e a formação compulsiva de alianças.

Toda essa cola social é gerada por circuitos específicos no cérebro: vastas redes que monitoram os outros comunicam-se com eles, sentem sua dor, avaliam suas intenções e interpretam suas emoções. Nossas habilidades sociais têm raízes profundas em nosso circuito neural, e a compreensão deste circuito é a base de um novo campo de estudos chamado neurociência social.

Considere por um momento como são diferentes os seguintes itens: coelhos, trens, monstros, aviões e brinquedos infantis. Embora sejam diferentes, todos podem ser as personagens principais de filmes populares de animação, e não temos dificuldade para atribuir intenções a eles. O cérebro de um espectador precisa de muito poucas pistas para supor que essas personagens são como nós e, portanto, podemos rir e chorar de suas aventuras.

A tendência a atribuir intenção a personagens não humanos foi sublinhada em um filme de curta-metragem produzido em 1944 pelos psicólogos Fritz Heider e Marianne Simmel. Duas formas simples – um triângulo e um círculo – reúnem-se e rodam uma em volta da outra. Depois de um momento, um triângulo maior entra na cena discretamente. Ele esbarra no triângulo menor e o empurra. Lentamente, o círculo escapole para trás de uma estrutura retangular e fica atrás dela; enquanto isso, o triângulo maior afugenta o menor. O triângulo maior então chega à porta da estrutura, ameaçador. O triângulo abre a porta e vai atrás do círculo, que procura freneticamente (e sem sucesso) outras rotas de fuga. Quando a situação parece mais sombria, o triângulo menor volta. Ele abre a porta e o círculo corre ao seu encontro. Juntos, eles fecham a porta e prendem o triângulo maior ali. Encurralado, o triângulo maior bate nas paredes da estrutura. Do lado de fora, o triângulo pequeno e o círculo rodam em torno um do outro.

 

Imagem 20: As pessoas não resistem a impor uma narrativa para formas

em movimento.

 

Quando as pessoas assistem a este curta-metragem e são solicitadas a descrever o que viram, é de se esperar que descrevam formas simples em movimento. Afinal, são apenas um círculo e dois triângulos trocando de coordenadas.

Mas não é isso que os espectadores contam. Eles descrevem uma história de amor, uma briga, uma perseguição, uma vitória. Heider e Simmel usaram esta animação para demonstrar a rapidez com que percebemos a interação social a nossa volta. As formas em movimento atingem nossos olhos, mas vemos significado, motivos e emoção, tudo na forma de uma narrativa social. Impor uma história é algo inevitável de se fazer. Desde tempos imemoriais, as pessoas têm visto o voo dos pássaros, o movimento das estrelas, o balançar das árvores e têm inventado histórias sobre eles, interpretando-os como seres que têm uma intenção.

Esse tipo de narrativa não é apenas uma idiossincrasia, é uma pista importante do circuito cerebral. Ela mostra até que ponto o cérebro está preparado para a interação social. Afinal, nossa sobrevivência depende de avaliações rápidas de quem é amigo e inimigo. Navegamos pelo mundo social avaliando as intenções dos outros. Será que ela está tentando ser útil? Eu preciso me preocupar com ele? Eles estão pensando no que é melhor para mim?

Nosso cérebro faz avaliações sociais constantemente. Mas nós aprendemos essa habilidade com a experiência de vida ou nascemos com ela? Para descobrir, podemos investigar se os bebês a possuem. Reproduzindo uma experiência dos psicólogos Kiley Hamlim, Karen Wynn e Paul Bloom, da Universidade de Yale, convidei crianças de colo, uma de cada vez, para ver um espetáculo de marionetes.

Essas crianças tinham menos de um ano e começavam a explorar o mundo. Todas tinham pouca experiência de vida. Elas ficaram no colo das mães para assistir ao espetáculo. Quando a cortina se abre, um pato tem dificuldade para abrir uma caixa de brinquedos. O pato aperta a tampa, mas não consegue uma boa pegada. Dois ursos, com camisas de cores diferentes, o observam.

Depois de alguns instantes, um dos ursos vai ajudar o pato, juntando-se a ele para segurar a lateral da caixa e abrir a tampa. Eles se abraçam por um momento e a tampa volta a se fechar.

O pato tenta abrir a tampa de novo. O outro urso, olhando, joga seu peso na tampa, impedindo que o pato tenha sucesso.

Essa é a história do espetáculo. Em uma trama curta e silenciosa, um urso foi útil ao pato e o outro foi mau.

Quando as cortinas se fecham e reabrem, pego os dois ursos e levo para o bebê que está assistindo. Eu os levanto, indicando à criança para escolher um deles para brincar. O interessante, como descobriram os pesquisadores de Yale, é que quase todos os bebês escolhem o urso que foi gentil. As crianças não sabem andar nem falar, mas já têm os instrumentos para avaliar criticamente os outros.

Em geral, se supõe que a confiança é algo que aprendemos a avaliar com base em anos de experiência no mundo. Mas experimentos simples como esse demonstram que, mesmo quando somos bebês, estamos equipados com uma antena social para sentir nosso caminho pelo mundo. O cérebro tem instintos inatos para detectar quem é digno de confiança e quem não é.