Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 31 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

O cérebro inconsciente em ação

 

Imagine que estamos juntos em uma cafeteria. Enquanto conversamos, você nota que levanto minha xícara de café para tomar um gole. O ato é tão comum, que normalmente não merece atenção, a não ser que eu derrame um pouco na camisa. Mas sejamos justos: levar a xícara à boca não é algo fácil. O campo da robótica ainda luta para fazer este tipo de tarefa sem sobressaltos. Por quê? Porque esse simples ato é sustentado por trilhões de pulsos elétricos meticulosamente coordenados por meu cérebro.

Primeiro, meu sistema visual percorre a cena para localizar a xícara diante de mim, e meus anos de experiência ativam lembranças do café em outras situações. Meu córtex frontal transmite sinais em uma jornada ao córtex motor, que coordena com exatidão as contrações musculares – ao longo de meu tronco, braço, antebraço e mão – e assim posso segurar a xícara. Conforme toco a xícara, meus nervos transmitem de volta muitas informações sobre seu peso, sua posição no espaço, a temperatura, se a alça é escorregadia e assim por diante. À medida que essa informação sobe pela medula espinhal e entra no cérebro, os fluxos compensatórios de informações voltam, passando como o trânsito acelerado em uma rua de mão dupla. Essas informações surgem de uma coreografia complexa entre partes de meu cérebro com nomes como gânglio basal, cerebelo, córtex somatossensorial e muitos outros. Em frações de segundo, são feitos ajustes na força com que estou levantando e segurando a xícara. Por meio de cálculos e respostas intensas, ajusto meus músculos para manter a xícara nivelada enquanto suavemente a desloco em um arco longo para o alto. Faço ajustes mínimos por todo o caminho e, à medida que ela se aproxima de minha boca, eu a viro o suficiente para extrair parte do líquido sem me queimar.

 

A FLORESTA CEREBRAL

 

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A partir de 1887, o cientista espanhol Santiago Ramón y Cajal usou sua formação em fotografia para aplicar manchas químicas em cortes do tecido cerebral. Esta técnica permitia que fossem vistas as células do cérebro individualmente, em toda sua beleza ramificada. Começou a ficar evidente que o cérebro era um sistema de tal complexidade que não tínhamos equivalentes nem linguagem que o apreendesse.

Com o advento dos microscópios produzidos em massa e os

novos métodos de corar células, os cientistas começaram a descrever – pelo menos em termos gerais – os neurônios que compreendem nosso cérebro. Essas estruturas magníficas aparecem em uma variedade intrigante de formas, tamanhos e são

conectadas em uma densa e impenetrável floresta que os cientistas levarão ainda muitas décadas para desbravar.

 

Seriam necessárias dezenas dos supercomputadores mais rápidos do mundo para fazer par à potência computacional exigida nessa tarefa. Entretanto, não tenho percepção da tempestade de raios em meu cérebro. Embora minhas redes neurais estejam superocupadas, a consciência desperta vive algo bem diferente, algo mais parecido com o completo desligamento. O eu consciente está envolvido em nossa conversa, tanto que posso até dar forma ao fluxo de ar que sai da minha boca enquanto levanto a xícara, fazendo minha parte ao manter um diálogo complexo.

Tudo que penso é se vou levar o café à boca ou não. Se fizer isso de modo perfeito, provavelmente nem vou perceber que executei essa ação.

O mecanismo inconsciente de nosso cérebro funciona o tempo todo, mas com tal suavidade, que normalmente não temos consciência de suas operações. Assim, em geral, é mais fácil apreciá-lo apenas quando há alguma interrupção. Como seria se tivéssemos de pensar conscientemente em atos simples a que não costumamos dar atenção, como o ato aparentemente simples de andar? Para descobrir, fui conversar com um homem chamado Ian Waterman.

Aos 19 anos, Ian sofreu um tipo raro de dano nervoso como resultado de um episódio grave de gastroenterite. Ele perdeu os nervos sensoriais que falam com o cérebro sobre o tato, bem como a capacidade de localização dos próprios membros (conhecida como propriocepção). Assim, Ian não conseguia mais controlar automaticamente nenhum movimento do corpo. Os médicos disseram que ele ficaria confinado a uma cadeira de rodas pelo resto da vida, apesar de seus músculos estarem ótimos. Uma pessoa não pode simplesmente se movimentar sem saber onde está o próprio corpo. Embora raras vezes paremos para valorizar o fato, a resposta que recebemos do mundo e de nossos músculos possibilita os movimentos complexos que realizamos em cada momento do dia.

Ian não estava disposto a permitir que seu problema o confinasse a toda uma vida sem movimento. Então, ele se levanta e anda, mas toda sua vida de caminhante exige que ele pense em cada movimento realizado pelo corpo. Sem a consciência de onde estão braços e pernas, Ian precisa mover o corpo com uma determinação concentrada e consciente. Ele usa o sistema visual para monitorar a posição dos membros. Enquanto anda, baixa a cabeça para enxergar ao máximo os braços e pernas. Para manter o equilíbrio, compensa fazendo com que os braços se estendam ao lado. Como não consegue sentir os pés tocando o chão, Ian tem que prever a distância exata de cada passo e descer o pé com a perna esticada. Cada passo dele é calculado e ordenado por sua mente consciente.

 

PROPRIOCEPÇÃO

 

Mesmo de olhos fechados, você sabe onde estão seus braços e pernas: o braço esquerdo está erguido ou abaixado? As pernas estão esticadas ou dobradas? Suas costas estão retas ou curvadas? A capacidade de saber o estado dos músculos é chamada de propriocepção. Receptores nos músculos, tendões e articulações fornecem informações sobre os ângulos de suas juntas, bem como a tensão e a extensão dos músculos. Coletivamente, isso dá ao cérebro um quadro detalhado de como o corpo está posicionado e permite ajustes rápidos.

Você pode viver uma falha temporária de sua propriocepção se

um dia tentou andar depois de uma perna ter ficado dormente. A

pressão nos nervos sensoriais comprimidos impediu que os sinais corretos fossem enviados e recebidos. Sem uma sensação da posição de seus próprios membros, atos simples como cortar a comida, digitar ou caminhar são quase impossíveis.

 

Por ter perdido a capacidade de andar automaticamente, Ian é bastante consciente de que a coordenação que temos para caminhar, considerada simples pela maioria, é um milagre. Ele observa que todos ao redor se deslocam com fluidez e suavidade, sem consciência nenhuma do maravilhoso sistema que cuida desse processo.

Se ele se distrair por um instante ou deixar de pensar no próximo movimento, provavelmente vai cair. Todas as distrações precisam ser afastadas enquanto ele se concentra nos mínimos detalhes: a inclinação do chão, o balanço da perna.

Se você passa por pelo menos um ou dois minutos com Ian, se dá conta da complexidade excessiva dos fatos cotidianos de que nunca falamos: levantar-se, atravessar um quarto, abrir uma porta, estender o braço para um aperto de mãos. Apesar da aparência inicial, estes atos não são nada simples. Então, da próxima vez que você vir uma pessoa caminhando, correndo, equilibrando-se sobre um skate ou pedalando uma bicicleta, tire um minuto para se encantar não apenas com a beleza do corpo humano, mas com o poder do cérebro inconsciente que o orquestra de forma impecável. Os detalhes complexos dos nossos movimentos mais básicos são animados por trilhões de cálculos, todos em atividade numa escala espacial menor do que você consegue enxergar e numa complexidade que está além do que se pode compreender. Ainda não foram construídos robôs que cheguem perto do que um ser humano pode fazer. E, enquanto um supercomputador consome enormes quantidades de energia, nosso cérebro deduz o que fazer com uma eficiência desconcertante, usando aproximadamente a energia de uma lâmpada de 60 watts.