Cérebro: Uma Biografia
O sentimento do livre-arbítrio
Sentimos que temos autonomia – isto é, que tomamos nossas decisões livremente. Mas, em algumas circunstâncias, é possível demonstrar que este senso de autonomia é ilusório. O professor Alvaro Pascual-Leone, de Harvard, convocou participantes ao seu laboratório para um experimento simples.
Eles se sentaram com as mãos estendidas diante de uma tela de computador. Quando a tela ficasse vermelha, eles tomariam uma decisão íntima sobre qual mão iriam mover – mas, na realidade, não a mexeriam. Depois, a luz ficava amarela e, quando enfim ficava verde, a pessoa ativava o movimento pré-escolhido, erguendo ou a mão direita ou a esquerda.
Em seguida, os pesquisadores introduziram um truque. Eles usaram estimulação magnética transcraniana (EMT), que descarrega um pulso magnético e excita a área do cérebro abaixo dele, para estimular o córtex motor e dar início ao movimento na mão esquerda ou direita. Agora, durante a luz amarela, eles emitiam o pulso EMT (ou, na condição controle, apenas o som do pulso).
A intervenção EMT fez com que os participantes preferissem uma das mãos em detrimento de outra – por exemplo, um estímulo no córtex motor esquerdo aumentava a probabilidade de os participantes erguerem a mão direita. Mas a parte interessante foi que os participantes relataram a sensação de ter vontade de mexer a mão que era manipulada por EMT. Em outras palavras, internamente, eles podiam decidir mover a mão esquerda durante a luz vermelha, mas, depois do estímulo durante a luz amarela, sentiam que, na realidade, queriam mexer a mão direita o tempo todo. Embora a EMT induzisse o movimento na mão, muitos participantes sentiam que tomavam decisões por seu livre-arbítrio. Pascual-Leone conta que os participantes disseram com frequência que pretendiam mudar sua decisão. Qualquer que fosse a ação que o cérebro executasse, eles assumiam o crédito por ela como se fosse livremente escolhida. A mente consciente se sobressai por contar para si a narrativa de que está no controle.
Experimentos como esse expõem a natureza problemática de confiar em nossa intuição quanto à liberdade das decisões. No momento, a neurociência não tem os experimentos perfeitos para excluir inteiramente o livre-arbítrio – este é um tema complexo e nossa ciência talvez seja jovem demais para o abordar em sua totalidade. Mas vamos alimentar por um instante a perspectiva de que não existe livre-arbítrio. Quando você chega àquela bifurcação da estrada, a sua decisão é predeterminada. Diante disso, uma vida que é previsível não parece valer a pena.
A boa notícia é que, graças à imensa complexidade do cérebro, na realidade, nada é previsível. Imagine um tanque com fileiras de bolas de pingue-pongue no fundo, cada uma delas delicadamente posicionada em uma ratoeira armada e preparada. Se você largasse mais uma bola de pingue-pongue do alto, deveria ser relativamente simples fazer uma previsão matemática de onde elas cairiam. Mas assim que essa bola bate no fundo do tanque, tem início uma reação em cadeia imprevisível. Ela estimula outras bolas a voarem de suas ratoeiras, estas estimulam outras bolas, e a situação rapidamente explode em complexidade. Qualquer erro na previsão inicial, por menor que seja, é ampliado à medida que as bolas se chocam e ricocheteiam nas laterais, caindo em outras bolas. Logo é inteiramente impossível fazer qualquer previsão sobre onde as bolas estarão.
Nosso cérebro é como esse tanque de bolas de pingue-pongue, porém imensamente mais complexo. Talvez você consiga encaixar algumas centenas de bolas em um tanque, mas o seu crânio abriga trilhões de vezes mais interações do que o tanque e ricocheteia continuamente em cada segundo de sua vida. É dessas inumeráveis trocas de energia que surgem seus pensamentos, sentimentos e decisões.
E isso é só o começo da imprevisibilidade. Cada cérebro é integrado a um mundo de outros cérebros. Pelo espaço de uma mesa de jantar, da extensão de uma sala de aula ou do alcance da internet, todos os neurônios humanos do planeta se influenciam mutuamente, criando um sistema de complexidade inimaginável. Isso significa que, embora os neurônios obedeçam a regras físicas simples, na prática será sempre impossível prever exatamente o que qualquer indivíduo fará.
Essa complexidade titânica nos dá discernimento suficiente para entender uma realidade simples: nossa vida é conduzida por forças que estão muito além de nossa capacidade de consciência ou controle.