Cérebro: Uma Biografia
A consciência exige matéria física?
Da mesma forma como um programa de computador pode rodar em equipamentos diferentes, o programa da mente também pode rodar em outras plataformas. Pense na possibilidade desta maneira: e se não existisse nada de especial nos neurônios biológicos em si e, em vez disso, a pessoa se tornasse quem é apenas pelo modo como eles se comunicam? Esta perspectiva é conhecida como hipótese computacional do cérebro. A ideia é que os neurônios, as sinapses e outros materiais biológicos não são ingredientes fundamentais: o fundamental são as computações que eles estejam implementando. É possível que o que importe não seja o que o cérebro fisicamente é, mas o que ele faz.
CÉREBROS DE RATO
O rato tem uma fama horrível por grande parte da história humana, mas
para a neurociência moderna ele (e o camundongo) tem um papel
fundamental em muitas áreas de pesquisa. Os ratos têm cérebros maiores
do que os camundongos, mas ambos têm semelhanças importantes com o
cérebro humano – em particular, a organização do córtex cerebral, a
camada mais externa que é tão importante para o raciocínio abstrato.
Esta camada é dobrada sobre si, permitindo que seja mais compactada
no crânio. Se você abrisse o córtex adulto médio, cobriria 2.500 cm2 (uma
toalha de mesa pequena). O cérebro do rato, por sua vez, é
completamente liso. Apesar destas diferenças evidentes na aparência e no
tamanho, existem semelhanças fundamentais entre os dois no nível celular.
Ao microscópio, é quase impossível saber a diferença entre um neurônio
de rato e outro humano. Os dois cérebros formam redes de um jeito muito
parecido e passam pelas mesmas fases de desenvolvimento. Os ratos
podem ser treinados para cumprir tarefas cognitivas – de distinguir entre
odores a encontrar a saída de um labirinto –, e isso permite aos
pesquisadores correlacionar as particularidades de sua atividade neural com
tarefas específicas.
Imagem 27
Se isso se mostrar verdadeiro, então, em teoria, você pode rodar o cérebro em qualquer substrato. Se as computações correrem do jeito certo, todos os seus pensamentos, emoções e complexidades devem surgir como um produto das comunicações complexas dentro do novo material. Em tese, você pode trocar células por circuitos ou oxigênio por eletricidade: o meio não importa, desde que todas as peças estejam ligadas e interagindo da maneira correta. Assim, talvez possamos “rodar” uma simulação plenamente funcional de você sem um cérebro biológico. De acordo com a hipótese computacional, uma simulação dessas seria de fato você.
A hipótese computacional do cérebro limita-se a uma hipótese que ainda não sabemos se é válida. Afinal, pode haver algo de especial e inédito no sistema biológico e, neste caso, ficamos presos à biologia com que nascemos. Porém, se a hipótese computacional estiver correta, a mente pode viver em um computador.
Se for possível simular a mente de alguém, seremos levados a uma pergunta diferente: precisamos copiar o jeito biológico tradicional de fazer isso? Ou seria possível criar um tipo diferente de inteligência, de nossa própria invenção, a partir do zero?