Cérebro: Uma Biografia
O som de uma decisão
Na mesa de cirurgia, um paciente chamado Jim é submetido a uma operação no cérebro para fazer cessar os tremores da mão. Fios longos e finos chamados eletrodos foram baixados no cérebro de Jim pelo neurocirurgião. Pela aplicação de uma pequena corrente elétrica através dos fios, os padrões de atividade nos neurônios de Jim podem ser ajustados, reduzindo seus tremores.
Os eletrodos criam uma oportunidade especial de entreouvir a atividade de neurônios isolados. Os neurônios conversam por meio de picos elétricos chamados potenciais de ação, mas esses sinais são mínimos e invisíveis. Assim, cirurgiões e pesquisadores costumam passar os sinais elétricos mínimos por um amplificador. Dessa forma, uma alteração minúscula na voltagem (um décimo de volt que dura um milésimo de segundo) é transformada em um estalo audível!
À medida que o eletrodo é baixado por diferentes regiões do cérebro, um ouvido treinado pode reconhecer os padrões de atividade dessas regiões. Alguns locais são caracterizados por
“pop! pop! pop!”, enquanto outros têm um som bem diferente: “pop!... poppop!... pop!”. É como se, de repente, ouvíssemos a conversa de algumas pessoas em algum lugar aleatório pelo planeta: como as pessoas que você está ouvindo terão trabalhos específicos em culturas diversas, elas vão levar conversas muito diferentes.
Estou na sala de cirurgia como pesquisador: enquanto meu colega realiza a operação, meu objetivo é compreender melhor como o cérebro toma decisões. Para isso, peço a Jim para realizar diferentes tarefas, como falar, ler, olhar, decidir, a fim de determinar o que está correlacionado com a atividade de seus neurônios. Como o cérebro não tem receptores para a dor, um paciente pode ficar acordado durante a cirurgia. Peço a Jim para olhar uma imagem simples enquanto estamos gravando.
Imagem 13: O que acontece em seu cérebro quando você vê a
velha? O que muda quando você vê a jovem?
Na figura, você pode ver uma jovem de chapéu, com a cara virada. Agora, tente encontrar outro jeito de interpretar a mesma imagem: uma velha com o rosto voltado para baixo e para a esquerda. Esta imagem pode ser vista de uma entre duas maneiras (o que é conhecido como biestabilidade perceptiva): os traços na página são coerentes com duas interpretações muito diferentes. Ao olhar fixamente a figura, você vê uma versão; finalmente, a outra; em seguida, a primeira de novo e assim por diante. Esta é a parte que importa: nada muda na página física. Então, se Jim afirma que a imagem virou, isso se deve a algo que mudou dentro de seu cérebro.
No momento em que ele vê a jovem, ou a velha, seu cérebro tomou uma decisão. Uma decisão não precisa ser consciente; neste caso, é uma decisão perceptiva do sistema visual de Jim, e a mecânica da alteração está interna e completamente escondida. Em tese, o cérebro deve conseguir ver a jovem e a velha ao mesmo tempo, porém, na realidade, o cérebro não faz isso. Por reflexo, ele apreende algo ambíguo e escolhe. Por fim, refaz a escolha e pode passar de uma a outra sem parar. Mas nosso cérebro está sempre reprimindo a ambiguidade nas escolhas.
Deste modo, quando o cérebro de Jim chega a uma interpretação da jovem, ou da velha, podemos ouvir as reações de um pequeno número de neurônios. Alguns saltam a uma taxa
mais alta de atividade (“ poppop! pop! pop!”), enquanto outros neurônios reduzem o ritmo (“ pop!... pop! pop!... pop!”). Nem sempre se trata de velocidade aumentada e reduzida: às vezes, os neurônios alteram o padrão de atividade de formas mais sutis, tornando-se sincronizados ou perdendo sincronia com outros neurônios mesmo enquanto mantêm o ritmo original.
Os neurônios que espionamos não são responsáveis, por si, pela alteração perceptiva. Na verdade, eles operam em harmonia com bilhões de outros neurônios, então as mudanças que podemos testemunhar são apenas o reflexo de um padrão cambiante que se estabelece pelas grandes extensões de território cerebral. Quando um padrão vence outro no cérebro de Jim, foi tomada uma decisão.
O seu cérebro toma milhares de decisões em cada dia da sua vida, ditando sua experiência do mundo. Decisões como que roupa vestir, a quem telefonar, como interpretar um comentário espontâneo, responder ou não a um e-mail ou quando sair são a base de cada ação e pensamento. Quem você é surge das batalhas que assolam todo o cérebro pelo domínio de seu crânio em cada momento da vida.
É impossível não ficar assombrado ao ouvir a atividade neural
de Jim: “ pop! pop! pop!”. Afinal, é assim que soa cada decisão na história da nossa espécie. Cada proposta de casamento, cada declaração de guerra, cada voo de imaginação, cada missão lançada ao desconhecido, ato de gentileza, mentira, inovação eufórica, cada momento decisivo. Tudo isso aconteceu bem ali, na escuridão do crânio, surgindo de padrões de atividade em redes de células biológicas.