Cérebro: Uma Biografia
As alegrias e tristezas da empatia
Vamos ao cinema a fim de fugir para mundos de amor, corações partidos, aventura e medo. Mas os heróis e vilões são apenas atores projetados em duas dimensões numa tela. Então, por que nos importaríamos com o que acontece com aqueles fantasmas fugazes? Por que os filmes nos fazem chorar, rir, tomar sustos?
Para entender por que você se importa com os atores, vamos começar pelo que acontece em seu cérebro quando você sente dor. Imagine que alguém crave em sua mão a agulha de uma seringa. No cérebro, não existe um lugar exclusivo onde a dor é processada. Em vez disso, o evento ativa várias áreas diferentes e todas operam em harmonia. Esta rede é resumida como a matriz da dor.
Aqui está a surpresa: a matriz da dor é fundamental para como nos ligamos aos outros. Se você vê alguém sendo apunhalado, grande parte de sua matriz da dor é ativada. Não aquelas áreas que dizem que você de fato foi atingido, mas as partes envolvidas na experiência emocional da dor. Em outras palavras, ver alguém sentindo dor e sentir dor são coisas que usam o mesmo mecanismo neural. Esta é a base da empatia.
Ter empatia pelo outro é literalmente sentir sua dor. Você ativa uma simulação convincente de como seria se estivesse naquela situação. É graças a nossa capacidade para isso que as histórias – como os filmes e romances – são tão cativantes e tão universais na cultura humana. Quer envolvam completos estranhos ou personagens inventadas, você vive sua agonia e seu êxtase. Transforma-se neles tranquilamente, vive a vida e observa da perspectiva deles. Quando vê outra pessoa sofrer, você pode tentar dizer a si mesmo que o problema é dela, não seu – mas os neurônios bem no fundo de seu cérebro não sabem a diferença.
Esse equipamento embutido para sentir a dor do outro faz parte do que nos torna tão aptos a nos colocar no lugar do outro e os outros, no nosso lugar, falando do ponto de vista neural. Mas por que temos esse equipamento, antes de mais nada? Da perspectiva evolutiva, a empatia é uma habilidade útil: com uma apreensão melhor do que alguém está sentindo, temos uma previsão melhor do que esse alguém fará em seguida.
Contudo, a precisão da empatia é limitada e, em muitos casos, simplesmente nos projetamos nos outros. Tome como exemplo Susan Smith, uma mulher da Carolina do Sul que, em 1994, despertou a empatia de uma nação quando contou à polícia que tinha sido assaltada por um homem que fugiu com seus filhos ainda no carro. Durante nove dias, ela apelou em rede nacional de televisão pelo resgate e pela volta dos meninos. Por todo o país, pessoas que ela desconhecia lhe ofereceram ajuda e apoio. Por fim, Susan Smith confessou o assassinato dos próprios filhos. Todos foram induzidos pela história que ela contou do roubo do carro porque o que ela tinha feito estava distante demais do reino das previsões normais. Embora os detalhes do caso agora sejam razoavelmente óbvios, na época era difícil vê-los – porque, em geral, interpretamos os outros da perspectiva de quem somos e do que somos capazes de fazer.
Não conseguimos deixar de simular os outros, nos conectar aos outros, preocupar-nos com eles, porque somos equipados para ser criaturas sociais. Isso suscita uma pergunta: nosso cérebro é dependente da interação social? O que aconteceria se o cérebro fosse privado de contato humano?
Em 2009, a ativista pela paz Sarah Shourd e seus dois companheiros estavam escalando as montanhas do norte do Iraque, uma região pacífica na época. Eles seguiam as recomendações de moradores para ver a cachoeira Ahmed Awa. Infelizmente, o local ficava na fronteira iraquiana com o Irã. Os três foram presos pela guarda de fronteira iraniana por suspeita de ser espiões americanos. Os dois homens foram colocados na mesma cela, mas Sarah foi separada deles, em confinamento solitário. Com a exceção de dois períodos de trinta minutos por dia, ela passou os 410 dias seguintes numa cela isolada.
Nas palavras de Sarah:
Nas primeiras semanas e meses de solitária, você é reduzido a um estado
animalesco. Quer dizer, você é um animal em uma jaula e passa a maior
parte de suas horas andando de um lado a outro. E o estado animalesco
por fim se transforma em um estado mais vegetal: sua mente começa a
ficar mais lenta e o raciocínio se torna repetitivo. Seu cérebro volta-se
para si mesmo e se transforma na fonte da pior dor e da pior tortura que
você já sofreu. Revivi cada momento de minha vida e por fim fiquei sem
lembranças. Você já as contou para você muitas vezes. E elas não duram
muito.
A privação social de Sarah causou uma dor psicológica profunda: sem interação, o cérebro sofre. O confinamento em solitária é ilegal em muitas jurisdições, precisamente porque os observadores há muito reconheceram os danos causados quando se retira um dos aspectos mais fundamentais da vida humana: a interação com os outros. Faminta de contato com o mundo, Sarah rapidamente entrou em um estado de alucinação:
O sol aparecia em certa hora do dia, oblíquo, por minha janela. E todas
as pequenas partículas de poeira em minha cela eram iluminadas pelo
sol. Eu via todas essas partículas de poeira como outros seres humanos
ocupando o planeta. E eles estavam no fluxo da vida, interagiam,
esbarravam uns nos outros. Faziam alguma coisa coletiva. Eu me via
isolada num canto, emparedada, fora do fluxo da vida.
Em setembro de 2010, depois de mais de um ano de cativeiro, Sarah foi libertada e pôde se reunir ao mundo. Não se livrou do trauma do acontecimento: ela sofria de depressão e facilmente entrava em pânico. No ano seguinte, casou-se com Shane Bauer, um dos outros montanhistas. Sarah conta que ela e Shane conseguiam acalmar um ao outro, mas nem sempre era fácil: os dois tinham cicatrizes emocionais.
O filósofo Martin Heidegger sugeriu que é difícil falar de uma pessoa “sendo” porque, em geral, nós “somos no mundo”. Este foi o jeito de ele destacar que o mundo a sua volta é grande parte de quem você é. Sua identidade não existe no vácuo.
Embora cientistas e médicos possam observar o que acontece com as pessoas em solitária, é difícil estudá-las diretamente. Porém, um experimento da neurocientista Naomi Eisenberger pode nos dar discernimento sobre o que acontece no cérebro em uma situação um pouco mais tratável: quando somos excluídos de um grupo.
Imagine jogar bola com outras duas pessoas e a certa altura você é excluído do jogo: os outros dois ficam jogando a bola entre eles, isolando você. O experimento de Eisenberger se baseia nessa hipótese simples. Ela pediu a voluntários que operassem um jogo simples de computador em que sua personagem animada jogava bola com outros dois participantes. Os voluntários foram levados a acreditar que os outros jogadores eram controlados por outros dois humanos, mas eles faziam parte de um programa de computador. No início, os outros jogaram com justiça, mas, depois de um tempo, excluíram o voluntário do jogo e simplesmente ficavam jogando entre eles.
Eisenberger fez com que os voluntários participassem do jogo enquanto se submetiam a uma varredura cerebral (a técnica se chama imageamento de ressonância magnética funcional, ou fMRI – ver o Capítulo 4). Ela descobriu uma coisa extraordinária: quando os voluntários eram excluídos do jogo, tornavam-se ativas as áreas envolvidas na matriz da dor. Não receber a bola podia parecer insignificante, mas, para o cérebro, a rejeição social é tão significativa que literalmente dói.
Imagem 22: A dor social, como aquela resultante da exclusão, ativa
as mesmas regiões da dor física no cérebro.
Por que a rejeição dói? Presume-se que esta seja uma pista de que o vínculo social tem importância evolutiva – em outras palavras, a dor é um mecanismo que nos conduz à interação e à aceitação pelos outros. Nosso mecanismo neural embutido nos leva ao vínculo com os outros. Ele nos impele a formar grupos.
Isto esclarece o mundo social que nos cerca: em toda parte, os seres humanos constantemente formam grupos. Nós nos vinculamos por meio de laços de família, amizade, trabalho, estilo, times esportivos, religião, cultura, pigmento da pele, língua, passatempos e afiliação política. É reconfortante para nós pertencer a um grupo, e este fato nos dá uma pista fundamental da história de nossa espécie.