Cérebro: Uma Biografia
Para além da sobrevivência do mais apto
Quando pensamos na evolução humana, estamos todos familiarizados com o conceito de sobrevivência do mais apto, que traz à mente a imagem de um indivíduo forte e astuto que pode superar outros membros de sua espécie na luta, na competição e no acasalamento. Em outras palavras, é preciso ser um bom competidor para prosperar e sobreviver. Esse modelo tem força explanatória, mas torna difícil explicar alguns aspectos do nosso comportamento. Pense no altruísmo: por que a sobrevivência do mais apto explica o motivo de as pessoas se ajudarem? A seleção do indivíduo mais forte não parece abranger esse aspecto e, assim, os teóricos introduziram a ideia da “seleção por parentesco”. Isso significa que eu não me importo apenas comigo, mas também com outros com quem partilho material genético, como irmãos e primos. O biólogo da evolução J. S. Haldane brincou a respeito: “Eu pularia alegremente em um rio para salvar dois irmãos meus, ou oito primos.”
Entretanto, nem a seleção por parentesco é suficiente para explicar todos os aspectos do comportamento humano, porque as pessoas se reúnem e cooperam independentemente de parentesco. Essa observação leva à ideia da “seleção de grupo”. O conceito é este: se o grupo é composto inteiramente de pessoas que cooperam, todos se beneficiarão. Em média, você vai se sair melhor do que os outros que não são muito cooperativos com os vizinhos. Juntos, os integrantes de um grupo podem se ajudar mutuamente a sobreviver. Essas pessoas ficam mais seguras, mais produtivas e têm maior capacidade de superar os desafios. O impulso para criar vínculos com os outros
é chamado de eussocialidade (eu é a palavra grega para bom) e proporciona uma cola, independentemente de parentesco, que permite a formação de tribos, grupos e nações. Não é que a seleção individual não aconteça, ela apenas não fornece um quadro completo. Embora a espécie humana seja competitiva e individualista na maior parte do tempo, também é verdade que passamos uma parte considerável da vida cooperando pelo bem do grupo. Isso permitiu que as populações humanas prosperassem por todo o planeta e formassem sociedades e civilizações – feitos que os indivíduos, por mais aptos que fossem, jamais conseguiriam realizar de maneira isolada. O verdadeiro progresso só é possível com alianças que se tornam confederações e nossa eussocialidade é um dos fatores mais importantes na riqueza e complexidade do mundo moderno.
Assim, nosso impulso para nos unir em grupos produz uma vantagem para a sobrevivência, mas existe também um lado negro. Para cada pessoa que pertence a um grupo, deve existir pelo menos alguém do lado de fora.