Cérebro: Uma Biografia
Sua realidade, minha realidade
Como posso saber se minha realidade é igual à sua? Para a maioria de nós, é impossível saber, mas existe uma pequena fração da população cuja percepção da realidade é diferente da nossa de uma forma mensurável.
Pense em Hannah Bosley. Quando ela olha as letras do alfabeto, tem uma experiência interna de cor. Para Hannah, é uma verdade evidente que o J é roxo e o T é vermelho. As letras são associadas a cores de modo involuntário e automático e isso nunca muda. Seu nome parece-lhe um pôr do sol, que começa amarelo, fica vermelho e depois ganha cores semelhantes a nuvens. O nome “Iain”, por sua vez, parece-lhe um vômito, mas isso não a faz tratar mal pessoas que tenham esse nome.
Hannah não está sendo poética, nem metafórica – ela tem uma experiência receptiva conhecida como sinestesia. A sinestesia é um problema em que os sentidos (ou, em alguns casos, conceitos) são misturados. Existem muitos tipos diferentes de sinestesia. Algumas pessoas sentem o gosto das palavras. Outras veem os sons como cores ou escutam movimento visual. Cerca de 3% da população tem alguma forma de sinestesia.
Hannah é apenas uma entre os seis mil sinestésicos que estudei em meu laboratório. Na realidade, Hannah trabalhou em meu laboratório por dois anos. Estudo a sinestesia porque é um dos poucos problemas em que está claro que a experiência que outra pessoa tem da realidade é diferente da minha de uma forma mensurável, o que deixa evidente que o modo como percebemos o mundo não é universal.
A sinestesia é o resultado de uma linha cruzada entre áreas sensoriais do cérebro, como bairros vizinhos com fronteiras porosas. A sinestesia nos mostra que mesmo as mudanças microscópicas nos circuitos cerebrais podem levar a realidades diferentes.
Sempre que encontro alguém com esse tipo de experiência, é um lembrete de que nossa experiência íntima da realidade pode ser um tanto diferente de uma pessoa para outra e de um cérebro para outro.