Cérebro: Uma Biografia
Como ter um corpo melhor
Como sentimos o mundo é apenas metade da história. A outra metade é como interagimos com ele. Da mesma forma com que começamos a modificar nossas identidades sensoriais, será que a flexibilidade do cérebro pode ser alavancada de modo a modificar como procuramos e tocamos o mundo?
Conheça Jan Scheuermann. Devido a uma rara doença genética chamada distúrbio espinocerebelar, deterioraram-se os nervos da medula espinhal que ligam seu cérebro aos músculos. Ela consegue sentir o próprio corpo, mas não consegue mexê-lo. Como a própria Jan descreve: “Meu cérebro diz ‘levante-se’ a meu braço, mas o braço diz ‘não estou ouvindo’.” A paralisia total fez dela uma candidata ideal para um novo estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh.
Os pesquisadores implantaram dois eletrodos em seu córtex motor esquerdo, a última parada dos sinais cerebrais antes de mergulharem na medula espinhal para controlar os músculos do braço. As tempestades elétricas no córtex de Jan são monitoradas, traduzidas em um computador para que a intenção seja compreendida, e o resultado é usado para controlar o braço robótico mais avançado do mundo.
Quando quer mexer o braço robótico, Jan simplesmente pensa em mexê-lo. Enquanto move o braço, Jan tende a se dirigir a ele na terceira pessoa: “Levante-se. Abaixe-se, mais, mais. Fique reto. Segure. Solte.” E o braço faz o que ela quer. Embora ela dê as ordens em voz alta, não tem necessidade disso. Existe uma ligação física direta entre o cérebro e o braço. Jan conta que seu cérebro não esqueceu como se mexe um braço, embora não o tenha movido nem uma vez em dez anos. “É como andar de bicicleta”, diz ela.
A proficiência de Jan aponta para um futuro em que usaremos a tecnologia para aprimorar e estender nossos corpos, não só para substituir membros ou órgãos, mas para melhorá-los: elevando-os da fragilidade humana para algo mais durável. O braço robótico de Jan é apenas a primeira sugestão de uma era biônica futura em que conseguiremos controlar equipamentos muito mais fortes e de maior durabilidade do que a pele, os músculos e os ossos quebradiços com que nascemos. Entre outras coisas, abre novas possibilidades para a viagem no espaço, algo para o qual nossos corpos delicados são mal equipados.
Além da substituição de membros, a tecnologia avançada de interface cérebro-máquina sugere possibilidades mais exóticas. Imagine ampliar seu corpo e se tornar algo irreconhecível. Comece por esta ideia: e se você pudesse usar os sinais do cérebro para controlar remotamente um aparelho do outro lado do ambiente? Imagine responder a e-mails enquanto usa seu córtex motor para operar um aspirador de pó controlado pelo pensamento. À primeira vista, o conceito parece inviável, mas lembre-se de que os cérebros são ótimos para realizar tarefas de fundo, sem exigir muita largura de banda consciente. Pense na facilidade com que você dirige um carro enquanto conversa com um carona e mexe no controle do rádio.
Com a tecnologia sem fio e a interface cérebro-máquina correta, não há motivos para que você não consiga controlar remotamente grandes dispositivos como um guindaste ou uma empilhadeira com os seus pensamentos, da mesma maneira com que pode, mesmo estando distraído, cavar usando uma colher de pedreiro ou tocar violão. Sua capacidade de fazer bem essas coisas pode ser aprimorada por resposta sensorial, que pode ser visual (você vê como a máquina se move), ou mesmo enviando dados ao córtex somatossensorial (você sente como a máquina se move). O controle desses membros exigiria prática e, no início, seria desajeitado, como um bebê que precisa se debater por alguns meses para aprender a controlar braços e pernas. Com o tempo, essas máquinas efetivamente se tornariam um membro a mais – que pode ser extraordinariamente forte, hidráulico ou não. Elas virão a parecer o que seus braços e pernas lhe parecem agora. Seriam apenas outro membro, simples extensões de nós.
Não conhecemos um limite teórico para os tipos de sinais que o cérebro pode aprender a incorporar. Talvez seja possível ter quase qualquer corpo físico e qualquer tipo de interação com o mundo que desejarmos. Não há motivos para que uma extensão de você não possa cuidar de tarefas do outro lado do planeta, ou minerar rochas na Lua enquanto você desfruta de um sanduíche aqui na Terra.
O corpo com que chegamos é, na realidade, apenas o ponto de partida para a humanidade. No futuro distante, não estaremos apenas estendendo nossos corpos físicos, mas fundamentalmente nosso senso de identidade. À medida que apreendermos novas experiências sensoriais e controlarmos novos tipos de corpos, isto nos mudará profundamente como indivíduos: nossa fisicalidade arma o palco para como sentimos, como pensamos e quem somos. Sem as limitações dos sentidos padrão e do corpo padrão, nós nos tornaremos pessoas diferentes. Nossos tataranetos talvez venham a se esforçar para entender quem éramos e o que era importante para nós. Neste momento da história, talvez tenhamos mais em comum com nossos ancestrais da Idade da Pedra do que com nossos descendentes no futuro próximo.