Cérebro: Uma Biografia
Sincronizando os sentidos
Assim, vimos que nossa percepção requer que o cérebro compare diferentes fluxos de dados sensoriais. Mas existe algo que transforma esse tipo de comparação em um desafio sério: a questão do tempo. Todos os fluxos de dados sensoriais – visão, audição, tato e assim por diante – são processados pelo cérebro em velocidades diferentes.
Pense em corredores numa pista. Parece que eles partem dos blocos de largada no instante em que a arma dispara. Mas, na realidade, não é instantâneo: se você os observar em câmera lenta, verá a lacuna considerável entre o disparo e o início do movimento de cada um: quase dois décimos de segundo (na verdade, se eles arrancam dos blocos antes desse tempo, são desclassificados por “queimar a largada”). Os atletas treinam para tornar essa lacuna a menor possível, mas a biologia impõe limites fundamentais: o cérebro precisa registrar o som, enviar sinais ao córtex motor e, depois, medula espinhal abaixo, até os músculos do corpo. Em um esporte em que milésimos de segundo podem representar a diferença entre a vitória e a derrota, esta reação parece surpreendentemente lenta.
O atraso pode ser encurtado se usarmos, digamos, um flash em vez de uma pistola para dar a largada? Afinal, a luz viaja mais rapidamente do que o som. Isso não permitiria que eles partissem dos blocos de largada com mais rapidez?
Reuni alguns corredores para colocar isso à prova. Na primeira fotografia, demos a largada com um clarão; na foto de baixo, a largada foi dada pelo disparo da pistola.
Respondemos com mais lentidão à luz. A princípio, pode parecer absurdo, dada a velocidade da luz. Porém, para compreender o que está acontecendo, precisamos olhar por dentro a velocidade do processamento de informações. Os dados visuais passam por um processamento mais complexo do que os dados auditivos. Os sinais que transmitem a informação do clarão demoram mais a percorrer o sistema visual do que os sinais do disparo no sistema auditivo. Reagimos à luz em 190 milissegundos, mas a um disparo em apenas 160 milissegundos. Por isso se usa uma pistola para dar a largada em uma corrida.
Contudo, é neste ponto que as coisas ficam estranhas. Vimos agora que o cérebro processa o som com mais rapidez do que a visão. Entretanto, olhe com atenção o que acontece quando você bate palmas diante de si. Experimente. Tudo parece sincronizado. Como pode ser assim, uma vez que o som é processado com mais rapidez? Isso significa que a sua percepção da realidade é o resultado de engenhosos truques de edição: o cérebro esconde a diferença nos tempos de chegada. Como? O que passa como realidade é, na verdade, uma versão atrasada. O seu cérebro coleta todas as informações dos sentidos antes de decidir pela história do que está acontecendo.
Imagem 6: Os corredores podem sair dos blocos com mais rapidez com um disparo (imagem inferior) do que com um clarão (imagem superior).
Essas dificuldades de tempo não se restringem à audição e à visão: cada tipo de informação sensorial requer um tempo diferente para ser processada. Para complicar ainda mais as coisas, mesmo em um único sentido existem diferenças de tempo. Por exemplo, os sinais levam mais tempo para alcançar o seu cérebro a partir do dedão do pé do que do seu nariz. Mas nada disso fica evidente para a sua percepção: você coleta todos os sinais primeiro, então tudo parece sincronizado. A estranha consequência desses acontecimentos é que você vive no passado. Quando pensa que o momento acontece, ele já passou. Para sincronizar as informações que chegam dos sentidos, o custo é que nossa consciência desperta fica atrasada em relação ao mundo físico. Esse é o abismo intransponível entre um evento e a sua experiência consciente dele.