Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 26 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Acreditando no que nosso cérebro nos diz

 

Todos nós sabemos o que é sonhar à noite, ter pensamentos estranhos e espontâneos que nos levam a certas viagens. Às vezes, temos de passar por momentos perturbadores. A boa notícia é que podemos fazer algumas separações ao acordar: isso foi um sonho, esta é minha vida quando estou acordado.

Imagine como seria se esses estados da realidade fossem mais entrelaçados e fosse mais complicado ou impossível distinguir um do outro. Para cerca de 1% da população, essa distinção pode ser difícil e a realidade pode ser sufocante e assustadora.

Elyn Sacks é professora de direito na Universidade do Sul da Califórnia. Ela é inteligente, gentil e, desde os 16 anos, esporadicamente experimenta episódios esquizofrênicos. A esquizofrenia é um distúrbio de sua função cerebral que a faz ouvir vozes, ver coisas que os outros não veem ou acreditar que os outros leem seus pensamentos. Felizmente, graças à medicação e a sessões semanais de terapia, Elyn vem conseguindo dar aulas na faculdade de direito por mais de 25 anos.

Nós conversamos na universidade e ela me deu exemplos de episódios esquizofrênicos que teve no passado. “Parecia que as casas se comunicavam comigo: ‘Você é especial. Você é especialmente má. Arrependa-se. Pare. Ande.’ Eu não ouvia aquilo como palavras, mas como pensamentos colocados na minha cabeça. Mas sabia que eram os pensamentos das casas, não os meus.” Em um incidente, Elyn acreditou que explosivos tinham sido colocados em seu cérebro e iriam ferir outros além dela. Em outra ocasião, achou que seu cérebro ia vazar pelas orelhas e afogar as pessoas.

Agora, depois de escapar desses delírios, ela ri e se pergunta o que foi tudo aquilo.

Foram desequilíbrios químicos no cérebro de Elyn que mudaram sutilmente o padrão dos sinais. Um padrão diferente pode levar alguém a ficar preso em uma realidade na qual acontecem coisas estranhas e impossíveis. Quando Elyn ficava presa em um episódio esquizofrênico, nunca achava que havia algo estranho. Por quê? Porque ela acreditava na narrativa contada pela essência de sua química cerebral.

Certa vez, li um antigo texto médico em que a esquizofrenia era descrita como uma invasão do estado onírico no estado de vigília. Embora eu não encontre esse tipo de descrição com frequência, é um jeito perspicaz de compreender como seria a experiência vista de dentro. Da próxima vez que você vir alguém em uma esquina falando sozinho e agindo de acordo com uma narrativa, lembre-se de como seria se você não conseguisse distinguir entre os estados de vigília e sono.

A experiência de Elyn é um atalho para compreendermos nossa própria realidade. Quando estamos no meio de um sonho, ele parece real. Quando interpretamos mal algo que vimos por um instante, é complicado nos livrar da sensação de que sabemos qual é a realidade do que vimos. Quando nos lembramos de algo que, na verdade, nunca aconteceu, é difícil aceitar que aquilo é falso. Embora seja impossível quantificar, o acúmulo dessas falsas realidades deixa marcas em nossas crenças e em nossos atos de formas que talvez jamais possamos entender.

Estivesse no meio de um delírio ou alinhada com a realidade dos demais, Elyn acreditava que o que vivia realmente estava acontecendo. Para ela, como para todos nós, a realidade é uma narrativa exibida dentro do auditório lacrado do crânio.