Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 4 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Desbaste da infância: encontrando a estátua no bloco de mármore

DESBASTE DA INFÂNCIA: ENCONTRANDO

A ESTÁTUA NO BLOCO DE MÁRMORE

 

Qual é o segredo por trás da flexibilidade de cérebros jovens? Não se trata de novas células em crescimento – na realidade, o número de células encefálicas é o mesmo na infância e na idade adulta. O segredo está em como estas células são conectadas.

No nascimento, os neurônios de um bebê são discrepantes e desconectados e, nos primeiros dois anos de vida, começam a se conectar com extrema rapidez à medida que recebem informação sensorial. Cerca de 2 milhões de conexões novas, ou sinapses, são formadas a cada segundo no cérebro de um bebê. Aos dois anos, uma criança tem mais de 100 trilhões de sinapses, número que dobra na idade adulta.

Este é o auge, e os neurônios têm muito mais conexões do que o necessário. A essa altura, a produção de novas conexões é suplantada por uma estratégia de “desbaste” neural. À medida que você amadurece, 50% de suas sinapses serão cortadas.

 

CIRCUITO VIVO

 

Muitos animais nascem geneticamente pré-programados, ou com um

“circuito rígido” para determinados instintos e comportamentos. Os

genes norteiam a construção de seus corpos e cérebros de formas

específicas, definindo o que eles serão e como vão se comportar. O

reflexo de uma mosca para escapar na presença de uma sombra que

passa; o instinto pré-programado de um sabiá para voar para o sul no

inverno; o desejo de hibernar de um urso; o impulso de um cachorro

de proteger seu dono: todos são exemplos de instintos e

comportamentos de circuito rígido. O circuito rígido permite que

estas criaturas se locomovam como os pais desde o nascimento e, Por exemplo, o idioma a que você é exposto na infância (digamos que seja o inglês, não o japonês) refina sua capacidade de ouvir os sons específicos de sua língua e piora a capacidade de ouvir os sons de outros idiomas. Isso significa que um bebê que nasce no Japão e outro que nasce nos EUA podem ouvir e reagir a todos os sons em ambas as línguas. Com o passar do tempo, o bebê criado no Japão perderá a capacidade de distinguir, digamos, entre os sons do R e do L, que não são diferenciados no japonês. Somos esculpidos pelo mundo em que por acaso vivemos.

em alguns casos, se alimentem sozinhas e sobrevivam de forma

independente.

Na espécie humana, a situação é um tanto diferente. O cérebro

humano chega ao mundo com certo nível de estruturação genética

(por exemplo, para respirar, chorar, sugar, se afeiçoar a rostos e ter a

capacidade de aprender os detalhes de sua língua natal). Porém, se

comparado com o resto do reino animal, o cérebro humano é

extraordinariamente incompleto na hora do nascimento. O diagrama

detalhado dos circuitos do cérebro humano não é pré-programado.

Em vez disso, os genes dão orientações muito genéricas para os

projetos das redes neurais e a experiência no mundo sintoniza os

demais circuitos, permitindo que o cérebro se adapte às

circunstâncias locais.

A capacidade do cérebro humano de se moldar ao mundo em que

nasceu permitiu que nossa espécie dominasse todo o ecossistema do

planeta e começasse nosso movimento para o sistema solar.

 

Quais sinapses ficam e quais são perdidas? Quando uma sinapse de sucesso participa de um circuito, ela é fortalecida; já as sinapses enfraquecem quando não são úteis, e por fim são eliminadas. Como trilhas numa floresta, você perde as ligações que não utiliza.

Em certo sentido, o processo de se tornar quem é você é definido pela reafirmação das possibilidades que já estavam presentes. Você se torna quem é não pelo que cresce em seu cérebro, mas pelo que é eliminado.

Por toda nossa infância, nosso ambiente refina o cérebro, tomando uma selva de possibilidades e dando-lhe forma para que corresponda àquilo a que fomos expostos. Nosso cérebro forma menos conexões, porém mais fortes.

 

* * *

 

Imagem 1: No cérebro de um recém-nascido, os neurônios são

relativamente desconectados uns dos outros. Nos primeiros dois ou três

anos, as ramificações crescem e as células ficam cada vez mais

conectadas. Depois disso, as conexões são desbastadas, tendo seu

número reduzido e fortalecido na idade adulta.