Cérebro: Uma Biografia
Desbaste da infância: encontrando a estátua no bloco de mármore
DESBASTE DA INFÂNCIA: ENCONTRANDO
A ESTÁTUA NO BLOCO DE MÁRMORE
Qual é o segredo por trás da flexibilidade de cérebros jovens? Não se trata de novas células em crescimento – na realidade, o número de células encefálicas é o mesmo na infância e na idade adulta. O segredo está em como estas células são conectadas.
No nascimento, os neurônios de um bebê são discrepantes e desconectados e, nos primeiros dois anos de vida, começam a se conectar com extrema rapidez à medida que recebem informação sensorial. Cerca de 2 milhões de conexões novas, ou sinapses, são formadas a cada segundo no cérebro de um bebê. Aos dois anos, uma criança tem mais de 100 trilhões de sinapses, número que dobra na idade adulta.
Este é o auge, e os neurônios têm muito mais conexões do que o necessário. A essa altura, a produção de novas conexões é suplantada por uma estratégia de “desbaste” neural. À medida que você amadurece, 50% de suas sinapses serão cortadas.
CIRCUITO VIVO
Muitos animais nascem geneticamente pré-programados, ou com um
“circuito rígido” para determinados instintos e comportamentos. Os
genes norteiam a construção de seus corpos e cérebros de formas
específicas, definindo o que eles serão e como vão se comportar. O
reflexo de uma mosca para escapar na presença de uma sombra que
passa; o instinto pré-programado de um sabiá para voar para o sul no
inverno; o desejo de hibernar de um urso; o impulso de um cachorro
de proteger seu dono: todos são exemplos de instintos e
comportamentos de circuito rígido. O circuito rígido permite que
estas criaturas se locomovam como os pais desde o nascimento e, Por exemplo, o idioma a que você é exposto na infância (digamos que seja o inglês, não o japonês) refina sua capacidade de ouvir os sons específicos de sua língua e piora a capacidade de ouvir os sons de outros idiomas. Isso significa que um bebê que nasce no Japão e outro que nasce nos EUA podem ouvir e reagir a todos os sons em ambas as línguas. Com o passar do tempo, o bebê criado no Japão perderá a capacidade de distinguir, digamos, entre os sons do R e do L, que não são diferenciados no japonês. Somos esculpidos pelo mundo em que por acaso vivemos.
em alguns casos, se alimentem sozinhas e sobrevivam de forma
independente.
Na espécie humana, a situação é um tanto diferente. O cérebro
humano chega ao mundo com certo nível de estruturação genética
(por exemplo, para respirar, chorar, sugar, se afeiçoar a rostos e ter a
capacidade de aprender os detalhes de sua língua natal). Porém, se
comparado com o resto do reino animal, o cérebro humano é
extraordinariamente incompleto na hora do nascimento. O diagrama
detalhado dos circuitos do cérebro humano não é pré-programado.
Em vez disso, os genes dão orientações muito genéricas para os
projetos das redes neurais e a experiência no mundo sintoniza os
demais circuitos, permitindo que o cérebro se adapte às
circunstâncias locais.
A capacidade do cérebro humano de se moldar ao mundo em que
nasceu permitiu que nossa espécie dominasse todo o ecossistema do
planeta e começasse nosso movimento para o sistema solar.
Quais sinapses ficam e quais são perdidas? Quando uma sinapse de sucesso participa de um circuito, ela é fortalecida; já as sinapses enfraquecem quando não são úteis, e por fim são eliminadas. Como trilhas numa floresta, você perde as ligações que não utiliza.
Em certo sentido, o processo de se tornar quem é você é definido pela reafirmação das possibilidades que já estavam presentes. Você se torna quem é não pelo que cresce em seu cérebro, mas pelo que é eliminado.
Por toda nossa infância, nosso ambiente refina o cérebro, tomando uma selva de possibilidades e dando-lhe forma para que corresponda àquilo a que fomos expostos. Nosso cérebro forma menos conexões, porém mais fortes.
* * *
Imagem 1: No cérebro de um recém-nascido, os neurônios são
relativamente desconectados uns dos outros. Nos primeiros dois ou três
anos, as ramificações crescem e as células ficam cada vez mais
conectadas. Depois disso, as conexões são desbastadas, tendo seu
número reduzido e fortalecido na idade adulta.