Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo
Primeiro encontro no Café de Flore
Primeiro
encontro no
Café de Flore
Ela levanta o cardápio com as duas mãos. Como sempre, a mesma ideia assoma em sua mente: isso não é um cardápio, e sim um mapa. Uma expedição íntima, caótica, complicada, pela selva das suas neuroses alimentares. E, entretanto, ela sabe que terá que achar seu caminho sem tropeçar, sem deixar de sorrir e, sobretudo, sem transparecer todas as dúvidas que cruzam seu pensamento.
Salmão defumado
Não, péssima escolha. Ela vai comer todas as panquequinhas e o creme que as acompanha; o salmão é só uma desculpa. Essa gulodice poderia acabar recheando seus quadris, ela precisa se cuidar.
Será que o homem sentado em frente a ela se dá conta da dificuldade que é ser uma mulher nessa cidade? Provavelmente não. Ela tenta não chegar a conclusões precipitadas. Continua a passear pela coluna das entradas, onde se sente em casa.
Salada de ervilhas frescas
O problema do primeiro encontro é a dimensão que toma o menor dos gestos. Ele a observa como se estivesse em um filme, registrando cada movimento para a eternidade, o modo como ela perdeu o celular naquela bolsa enorme que trouxe, a maneira como ela mesma se perde dentro da bolsa para procurá-lo, e aquela mensagem que ela teve absolutamente que ouvir na frente dele. Ele a analisa o tempo todo. Desordenada, um pouco nervosa, compulsivamente sociável. Talvez ele tenha percebido a dificuldade que ela está tendo para escolher um prato. Mas ela não quer que ele perceba de primeira a guerra que ela trava em silêncio. Mais para a frente, talvez, ele descubra que ela se pesa todas as manhãs. Por enquanto, ele precisa pensar que sua cintura fina é simplesmente um presente de Deus. Seria melhor, portanto, pedir um prato de verdade, interpretar o velho papel da pessoa que desfruta todos os prazeres da vida.
Confit de pato quente Seu dedo, um pouco nervoso, desce algumas linhas naquele maldito cardápio. Ela não encontra uma escolha digna e fica com raiva de si mesma. Porque aqui, na varanda, os minutos passam, as pessoas esbarram nela, o garçom se aproxima. Ela sabe que vai ter que chegar a uma conclusão muito em breve. Por fim, decide enfrentar o perigo arriscando corajosamente. Ela vai pedir um prato surpreendente.
Welsh rarebit
É uma aventureira, e o demonstra orgulhosamente. Ela instaura uma diferença clara entre ela e as outras mulheres. Expõe sua audácia sem disfarces, sobre a mesa, como um troféu. Pronuncia aquele nome com a descontração de quem já o fez centenas de vezes. E espera que o garçom não repreenda sua pronúncia, entregando a pequena encenação. O homem na frente dela a encara, surpreso. Ela saboreia o impacto que causou. Claro, ela não faz ideia do que acaba de pedir. No cardápio, em letras miúdas, está escrito: “especialidade à base de queijo cheddar, cerveja e torradas”. Ela sorri mentalmente: intragável. Mas não importa, ela vai falar bastante para que ele nem perceba que ela mal vai tocar no prato. O garçom se vira em direção ao homem.
Ele diz: “A mesma coisa, por favor.”
E toda a narrativa desmorona, de repente. Ah, não, um submisso, um seguidor, que tédio. Ela arregala os olhos e se dá conta de que a conversa que estão tendo há mais de meia hora também é, por sua vez, repleta de banalidades. Ela já sabe, comerá duas garfadas e inventará uma desculpa para sair mais cedo. E não o verá nunca mais. Adieu.