Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

Anne Berest, Audrey Diwan, Caroline de Maigret, Sophie Mas · Capítulo 50 de 106

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Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

A melhor versão de si mesma

A MELHOR VERSÃO DE SI

 

MESMA

 

A partir de certa idade, “cada um tem o rosto que merece”. Coco Chanel não media suas palavras — sua crueldade era conhecida por todos. Mas o imaginário coletivo parisiense não deixa de concordar com ela. Na rua, nos cafés, nos ônibus, o rosto das pessoas conta uma história, como uma bola de cristal onde se pode ler o passado. Amores realizados ou perdidos, nascimentos, esperanças e vitórias, sucessos misturados com acidentes de percurso.

 

Essas experiências, e a forma como elas nos afetam, tornam-se nossa identidade. Tudo à vista para quem quiser ver.

 

Ou temos sorte e nascemos de um jeito que a gente acha bonito. Ou não.

 

E a vida quase sempre corrige as injustiças. Aquelas meninas lindas, princesinhas do colégio, que tinham tudo de bandeja e se acomodaram com todo esse conforto são eclipsadas por belezas que surgem de onde menos se espera. Por aquelas que transformam suas diferenças em trunfo, em marca registrada. E que, como o bom vinho, envelhecem bem.

 

E essas mulheres entenderam que algumas coisas são imutáveis: não adianta nadar contra a corrente, o importante é acompanhar o fluxo.

É melhor aparentar a idade que se tem do que não aparentar idade nenhuma. Todo mundo já descobriu que cirurgia plástica demais acaba paradoxalmente tendo o efeito inverso. É verdade, algumas mulheres dominam como ninguém a arte do botox, mas na maior parte das vezes, sejamos honestas: em vez das rugas, o que se vê é a face do medo.

 

As mulheres parisienses não querem se passar por quem não são. Porque, na verdade, mais do que parecer jovem — o que é uma ilusão — o que elas querem é tornarem-se a melhor versão de si mesmas, por dentro e por fora, em qualquer idade.

 

Elas preservam uma convicção das mais importantes: “Aproveite o rosto que você tem hoje. É o que vai querer ter daqui a dez anos.”

 

rrume tempo para conversar com a senhorinha que mora ao seu lado, arrume tempo para ler um livro, para caminhar para o trabalho nos dias de sol em vez de ir de metrô, arrume tempo para viajar com os amigos no final A de semana. Arrume tempo para se conhecer, para se ouvir, arrume tempo para mudar, arrume tempo para descansar, arrume tempo para dizer sim, para dizer não, arrume tempo para ouvir o silêncio, arrume tempo para cuidar do corpo, arrume tempo para comer bem, arrume tempo para se perguntar quem você é, o que você quer.

 

Para telefonar para sua avó no dia do aniversário dela, e para enxaguar o cabelo com água fria como ela te ensinou. Para dar atenção a seus filhos, respirar profundamente, para fazer um suco de laranja no café da manhã. Arrume tempo para ir ao museu, para passear na floresta e escutar o barulho dos bichinhos no mato. No verão, faça um jardim de temperos com uma criança, leia uma história para ela. Arrume tempo.

 

Arrume tempo para ter tempo, porque ninguém vai fazer isso por você.

 

E brinque no banho, como fazia quando era criança.