Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

Anne Berest, Audrey Diwan, Caroline de Maigret, Sophie Mas · Capítulo 58 de 106

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Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

A festa

 

São 22h59.

 

Seus olhos estão vermelhos de tanto olhar para a tela. Você desliga o computador. Todos os seus colegas de trabalho já foram embora há muito tempo. Você gostaria que tivesse pelo menos uma testemunha, vivalma. Seriam pelo menos duas mãos para aplaudir os feitos do seu dia. Você passa pela porta, sobe na sua scooter. Quer ver gente, qualquer pessoa. Você vai encontrar uma amiga meio furona em uma festa aleatória. Mas e daí? Uma festa é uma festa. E nessa altura do campeonato, qualquer coisa serve. Você só quer estar com outras pessoas e ver no que dá.

 

Mas, quarenta minutos depois de chegar à festa, tanto sua taça de champanhe de plástico quanto você perderam o encanto. Você está plantada na frente de uma estante de livros e finge estar interessada.

 

— Então, tudo bem com você, Zelda? Que festa, hein?

 

Esse moreninho que veio te importunar parece estar achando a maior graça te ver deslocada. Você tenta se esquivar, desencorajá-lo:

 

— Você não tem ninguém mais com quem falar?

— Até que sim, mas ninguém tão divertido. Ver uma mulher bonita

assim sozinha em uma festa onde ela não conhece ninguém, mofando na frente dos livros, à meia-noite: não tem preço.

 

— Olha, você é um poeta quando quer conquistar alguém, hein?

 

— Quem disse que eu quero te conquistar?

 

O cara é mais esperto do que você pensava. Ele tem razão, e vocês dois sabem disso, mas você prefere revidar em vez de se dar por vencida. E você está sozinha, desesperadamente sozinha. A amiga que vinha te encontrar se perdeu no caminho. O que não é nada surpreendente. Em Paris, à meia-noite, é cada um por si.

 

Você chega à conclusão de que a melhor forma para ele te deixar em paz é ficar na sua, certamente. Começa a ouvir a conversa de duas garotas meio bêbadas, bem do seu lado.

 

— Espera aí, não entendi...

 

— Juro, ele falou: Eu vou te comer!

 

— Meu deus, eles ficaram todos loucos....

 

— É, mas sabe do pior? No fundo, eu gostei.

 

Você não tem tempo de refletir sobre a profundeza dessa poesia

boêmia. O cara, teimoso, percebe a deixa e tenta de novo.

 

— Você é chata assim mesmo ou isso é um privilégio meu?

 

Você está quase dando um fora mais incisivo nele quando vê o seu ex chegar. Sem dúvida, é o seu dia de sorte. E, de repente, você fica com vontade de engatar uma conversa, fingindo sincero interesse. Retoma.

 

— Você quer puxar papo ou me ofender?

 

Ele hesita por um momento, analisando-a.

 

— Eu só estou tentando conversar com uma mulher que eu achei

interessante.

 

— Ah, então você me achou interessante?

Ele fica desconcertado. Agora a vantagem é sua. Mas seu ex te cumprimenta de longe com um gesto vago (que babaca) enquanto a nova namorada dele te ignora solenemente e segue em frente (que puta). Ferida, você conclui que esse carinha do seu lado merece crédito no mínimo por disfarçar seu desconforto (um herói).

 

E eis que outro cara escolhe esse exato momento para ensaiar uma abordagem. Mas você o interrompe antes que ele consiga dizer qualquer coisa:

 

— Agora não!

 

Ele se afasta, com o rabinho entre as pernas, enquanto o cara moreno, ainda do seu lado, solta uma gargalhada. Ele não perdeu um segundo do fora que você acabou de dar.

 

— Você mulheres são muito engraçadas! Vocês lutam pelo feminismo,

pela igualdade entre os sexos, mas, quando é para dar o primeiro

passo, é sempre a mesma coisa.

 

Pronta para o round final, você decide acabar com aquilo de uma vez por todas.

 

— Olha, escuta, a gente não se conhece, então tchau, ok? Você não pode me culpar por todos os foras que já levou.

 

Ele olha fixamente para você. Com um brilho malicioso nos olhos.

 

— Não. Quem vai me escutar agora é você, garota. Eu vou explicar

como é isso para os homens. Talvez você se comporte diferente da

próxima vez que um cara ousar falar com você. Ele tem que:

 

1. Saber levar um fora sem levar isso para o lado pessoal.

2. Retomar a batalha, como se nada tivesse acontecido.

 

3. Encontrar um tema interessante para conversar, ainda que a sua presa

esteja olhando outro cara por cima dos seus ombros. Um cara com

quem ela já foi pra cama, com certeza, mas que hoje não está

interessado em tentar a sorte.

 

4. Continuar a falar com essa mulher sem se perguntar por que esse

cara não quer tentar a sorte hoje.

 

5. E continuar a ser um cavalheiro mesmo quando essa pessoa insulta

outro cara que tentou puxar assunto.

 

Você então olha para ele e reconhece que dessa vez ele jogou bem (e que talvez ele seja interessante, afinal). Ele continua:

 

— E se você insistir e conseguir deixar essa pessoa detestável

interessada em você, você vai ter que dar conta. Você tem a pressão:

vai precisar ficar de pau duro. Aquela vozinha que você conhece tão

bem acorda e diz: “Vai, é sua deixa, é agora ou nunca!” E a vozinha

não vai embora mesmo depois de você perceber que a coisa está

correndo bem. Ela grita ainda mais alto: “Não, não! Agora não,

aguenta um pouco mais, não, não, NÃO!” Você se segura, você luta,

e você termina sua missão, sem honra ou glória, esperando que a

mulher não fique de cara feia no final. É isso.

 

E de repente você compreende que esse cara merece uma salva de palmas. Ou talvez apenas duas mãos entusiastas, batendo ritmadamente. As mesmas que você merecia quando saiu sozinha do escritório mais cedo. Somos todos heróis incompreendidos, superando obstáculos arriscados sem nunca receber uma medalha por isso.

O moreninho olha para você. Você sorri. Você acende um cigarro para ganhar coragem; você dá uma tragada e sente seu coração derreter.

 

— Sério isso? Pensei que tivesse parado de fumar!

 

Você se vira e percebe que sua amiga chegou, finalmente. O moreninho sente que está sobrando, e se afasta dignamente. Você hesita um pouco, mas decide deixar sua amiga sozinha. Não, você não vai dormir sozinha hoje.