Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

Anne Berest, Audrey Diwan, Caroline de Maigret, Sophie Mas · Capítulo 12 de 106

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Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

Mãe imperfeita

Mãe

 

imperfeita

 

S ejamos honestos: a parisiense é uma mulher egoísta. Uma mãe carinhosa, mas ainda assim incapaz de esquecer de si mesma. Quase não há em Paris a mater dolorosa, a mulher cuja vida gira em torno do sacrifício, cujo maior objetivo é passar os dias fazendo tortas para sua prole. A parisiense não deixa de existir no dia em que tem um filho. Ela não renuncia a seu modo de vida um pouco adolescente, suas noites entre amigos, suas festas, nem às manhãs em que se sente acabada. A verdade é que ela não renuncia a nada. Porque, por outro lado, ela também assume seu papel de mãe. Ela não abre mão de educar os filhos, de vê-los crescer, de transmitir seus princípios, sua cultura, sua filosofia. E o que acontece com a vida de uma mulher que não renuncia a nada? Bem, acontece o caos, muito caos. Um caos tão constante que quase se torna uma nova forma de ordem, de tão perene que é. E talvez esse seja o maior princípio do sistema educativo da mãe parisiense: seu filho não é um rei, e sim um satélite da sua vida. Ao mesmo tempo, ele é onipresente, pois o satélite vai aonde a mãe for e compartilha com ela todos os seus momentos preciosos. Ele pode acompanhá-la nos almoços, nas compras, ir parar em um show ou em um vernissage, cair no sono em um banquinho, sob o olhar meio carinhoso e meio culpado da mãe. Mas a criança também vai à escola, ao parque, faz aula de tênis, ginástica olímpica ou curso de inglês. Às vezes faz tudo isso. Esses momentos compartilhados, momentos de cumplicidade normalmente proibidos, tornam-se exceções regulares, deliciosas escapadas que bagunçarão um pouquinho a rotina da criança. Mas, verdade seja dita, no fundo isso não incomoda ninguém. No futuro, eles guardarão flashes de memória, pedaços de conversas ouvidos de relance, vestígios do mundo adulto que puderam brevemente conhecer, moldando uma imagem alegre do que o futuro lhes reserva. Esse amor à vida é, para a parisiense, a melhor forma de fazer com que as crianças queiram tornar-se adultas. E a melhor maneira para as mães nunca lamentarem as coisas que teriam perdido enquanto cuidavam dos filhos.