Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo
A parisiense no escritório
E la está espalhada pela cama. O despertador tocou já há alguns minutos. Não tem nenhum motivo específico que a faça desperdiçar esses preciosos minutos, ela simplesmente sente uma necessidade imperiosa de não se apressar. As pessoas vão acabar tendo que esperar por ela no trabalho, isso é certo. Ela pensa nisso durante o banho revigorante, e só então percebe que chegou tarde demais em casa ontem. Mas, assim que pisa na rua, ela é contagiada pelo ritmo da multidão. É tomada pela culpa, que a faz correr atrás do ônibus que acaba de sair do ponto sem ela. Durante todo o trajeto, ela se concentra para criar álibis verossímeis, riscando da lista os já utilizados nas semanas anteriores. À medida que o tempo passa, uma angústia palpável forma-se em seu ventre. De tal forma que quando ela finalmente chega, sem fôlego, na porta do trabalho, seus olhos estão transbordando de lágrimas sinceras. E ninguém ousa nem mesmo perguntar o que aconteceu que a deixou com essa expressão devastada tão cedo pela manhã. Cria-se, portanto, um ciclo vicioso. Os olhares de compaixão fazem com que ela sinta uma dor quase física na alma.
Sentada à mesa, ela trabalha sem estar de fato concentrada no que está fazendo. Passeando com os dedos no teclado, sua mente é invadida pela lembrança daquele cara que não voltou para casa com ela ontem à noite, aquele cara que ela nem chegou a beijar. Ela conclui que é possível que alguém se sinta órfã de uma fantasia, e abandonada por um completo desconhecido. Quando sua colega vem perguntar qualquer coisa sobre o trabalho, ela responde uma coisa errada, mas dá um jeito de emendar e não ser pega no tropeço. E quando outra colega, sentada na frente dela, comenta a gafe, ela se exalta, e surpreende a todos — a si mesma, inclusive — com um piti inesperado. Ninguém ousa abordá-la até o final do dia. De volta à terra, finalmente, em consequência do seu ataque histérico, ela se empenha com o afinco de uma mulher que quer provar para o mundo o valor que tem. Ela se concentra em uma negociação complexa e se recusa, por orgulho, a ceder. Quando ela sai da sala, com a cabeça erguida, tem a aparência orgulhosa de quem acaba de voltar de uma batalha... e pensa que deveria ir beber algo antes de voltar para casa. Afinal, ela merece.