Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

Anne Berest, Audrey Diwan, Caroline de Maigret, Sophie Mas · Capítulo 11 de 106

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Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

A melancolia

A

 

MELANCOLIA

 

Você é parisiense, ou seja, é melancólica. É tomada por um sentimento embalado pela cidade onde vive. Você conhece essa tristeza sem motivo, essa esperança sem porquê. Todas as lembranças perdidas e os perfumes que voltam à memória. Resquícios dos seres amados que já se foram. E da passagem do tempo.

 

Isso nunca dura muito, mas esse estado de espírito tão particular afasta você por alguns instantes do resto do mundo. E lhe empresta esse ar ausente e absorto.

 

Você está sentada sozinha no restaurante. Não marcou com ninguém, apenas consigo mesma. Com seu livro sobre a mesa, você fixa o olhar no horizonte, sem focar nada, sem ouvir os risos ao seu redor.

 

Através da janela do táxi, você observa o desfile silencioso dos quarteirões e das pessoas felizes e apressadas. A sua respiração desacelera. Você pede para o taxista aumentar o volume da música, para acompanhar seus pensamentos.

 

É bem cedo. Você anda no sentido contrário da multidão que entra no metrô. Está despenteada, mas as suas joias ainda reluzem as emoções da véspera. O seu coração se parte durante o caminho de volta, e você não dirá para ninguém o porquê.

 

Alguém fala com você, mas você não se lembrará de nada do que foi dito. Porque, de longe, sentiu esse cheiro de vela queimada, que transportou você para um bairro perdido na sua infância.

 

No verão, especialmente, você fica muito sensível quando amanhece. E então seu coração incha, como se abarcasse todas as memórias do mundo dentro de si. Você não quer falar com ninguém, e se tranca no seu quarto até o sol voltar a se pôr.