Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

Anne Berest, Audrey Diwan, Caroline de Maigret, Sophie Mas · Capítulo 37 de 106

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Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

O dilema da academia

O DILEMA DA

 

ACADEMIA

 

E sta história começa com um debate interno. O que vamos chamar de “debate das 18h”. O dia de trabalho está acabando e o dilema toma forma. Será que ela deve mesmo se obrigar a ir à academia? Em um debate interno prévio, ela havia decidido começar a malhar. Tinha passado um tempo na casa da mãe. Mãe essa que havia sido tão linda. Uma década de sedentarismo bastou para arruinar o que a natureza lhe havia ofertado. E vendo-a, de costas, preparar um café, com o quadril largo e o bumbum mais perto do chão, ela se dizia que Deus, por ter inventado a menopausa, era certamente misógino. E assim, nesse dia, tomou uma importante decisão. Lutaria contra a herança genética e as leis da gravidade, matriculando-se na academia.

 

Foi com um passo inquieto, titubeante, que ela entrou na sala de ginástica vestida de forma magistralmente inadequada. Com um par de All Star antigo e uma calça de moletom nunca antes usada. Ela tinha dado seu nome, registrando-o para sempre na lista de mulheres que praticam esporte. Uma vez naquele lugar, ela se sentia menos segura, mas tentava não transparecer. Ela se recusou a pedir ajuda para programar a esteira e, portanto, começou a correr em um ritmo esquisito, jogando uma perna na frente da outra de forma bizarra, com os pés virados para fora, como uma bailarina. Mas o orgulho a impediu de desistir antes de completar os 15 minutos que havia programado. Sua respiração ofegante refletia perfeitamente os 30 anos de vida que haviam se passado, com todas as festas, cigarros, bebidas e noites viradas. Apesar das câimbras, ela segurou firme. Vinte e três minutos depois, ela saiu de cabeça erguida, jurando para si mesma que voltaria no dia seguinte. Um mês se passou. Desde então, todos os dias, às 18h, o debate vem à tona. Ela pensa nos quadris da mãe e no preço da mensalidade da academia. Mas não toma nenhuma atitude. Às 18h, ela é dominada pelo cansaço. Sente o apelo perigoso da mesa de um bar. E justo nesse momento, os amigos ligam, como que para testar sua força de vontade. Força de vontade essa que já não ia bem, ela admite, então que se dane. Ela escreve um bilhete mental: “Amanhã, vou à academia.” E amaldiçoa mais uma vez sua mãe por não cuidar mais de si mesma, evitando que ela sentisse essas angústias assassinas. Angústias que, entretanto, são rapidamente esquecidas. Às 19h, pedindo uma taça de vinho tinto, a ideia de praticar esportes é algo distante.