Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo
A parisiense vista por um parisiense
A parisiense
vista por um
parisiense
“Quem seria a melhor pessoa para descrever uma parisiense?”
É uma pergunta que eu me fazia há muito tempo, antes de ter esta epifania: ele, óbvio.
Este cara aqui na minha frente, na cozinha. O homem com quem compartilho minha vida.
Surpreso com minha pergunta, ele murmura algumas frases.
Olho para ele, um pouco irritada.
Será que ele não conseguiria pensar em nada mais original do que aqueles clichês sem graça sobre nossa beleza estonteante e nosso mar de perfumes?
— Ah, você está falando sério? Você quer que eu elabore? — pergunta, antes de se debruçar sobre a pia e começar. E não parar mais. Um pouco como se recitasse uma oração que soubesse de cor e que pudesse dizer de olhos fechados.
— Em primeiro lugar — disse —, a parisiense nunca está contente. A prova: eu falo que você é a mulher mais linda do mundo e isso nunca é suficiente.
“A parisiense pensa que é um modelo a ser seguido. Inunda o mundo com seus conselhos de vida em seus blogues ou livros. Além disso, ela adora que lhe peçam conselhos. Normal. Ela já fez de tudo na vida. Já viu de tudo. Entendeu tudo.
“Por exemplo, a parisiense deseja sempre se passar pelo seu médico — ela é um gênio. Dentista — não há nenhum à altura da arcada dentária dela. Ginecologista — o dela é o mesmo da Catherine Deneuve, claro. A parisiense, não satisfeita em ser esnobe, é tão esnobe que não sente nenhuma vergonha em gritar isso aos quatro ventos. E qual é o problema? A parisiense é arrogante.
“Ela se interessa por arte, por cultura, por política. Ela se cultiva da mesma forma que cultiva rabanetes na varanda: com amor. Com o regador em punhos, ela explica que o último filme que ganhou a Palma de Ouro é um desastre. Ela, claro, não assistiu. Não importa. A parisiense não precisa se aprofundar em um assunto. Ela já sabe qual deve ser a opinião dela — o contrário da sua.
“A parisiense está sempre atrasada. Ela tem coisas importantes para fazer, ao contrário de você. Ela nunca se maquia para um encontro romântico. Claro. Ela é naturalmente linda. Não precisa disso. Por outro lado, é capaz de passar batom antes de ir à padaria no domingo: e se ela cruzar com um conhecido?
“Ela é paranoica, quase megalomaníaca. Se o esforço que ela faz para encontrar algo do que reclamar fosse usado para resolver equações, receberia o prêmio Nobel de matemática todos os anos.
“Cuidado se ela disser que o seu namorado novo é ‘muito original’. Para ela, ‘original’ não é elogio.
“Se ela atravessa a rua fora da faixa? Ela se justifica dizendo que tem uma natureza rebelde. Aquelas pessoas na fila do sinal a deixam agoniada.
“Ela nem sempre diz ‘obrigada’, nem sempre diz ‘bom dia’, mas detesta a falta de educação dos garçons parisienses.
“Ela fala sem titubear uns palavrões que não se ouve nem no bar mais baixo nível. Mas fica horrorizada quando as pessoas dizem Bon appétit. Cafonice é pior do que falta de educação.
“Ela nunca tira os óculos escuros, mesmo nos dias de chuva, mas desdenha das celebridades que acham que são invisíveis por detrás daquelas lentes...
“Se eu tivesse que definir a parisiense em uma só palavra, essa parisiense que eu conheço tão bem, a palavra seria maluca.”