Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo
O preto é uma cor luminosa
LADO A
Caso o armário seja composto apenas de peças pretas, não é porque ela está de luto. Ao contrário: o preto, para a parisiense, é cor de festa. A cor das noites que não acabam nunca, das mulheres que baixam a cortina recusando-se a aceitar que o sol já nasceu. O contorno negro e delgado de um corpo, fino e elegante, atravessando uma multidão de outros contornos negros, elegantes e delgados. Assim são as noites em Paris. Como se houvesse um acordo tácito entre todos os que andam pelas calçadas depois da meia-noite. Mesmo o branco pode manchar esse retrato da escuridão. Mas não pense que essa paisagem seja algo monótono. Paris soube definir esse estilo. Palavras enunciadas por um homem que parecia ter, ele próprio, inventado o preto, Yves Saint Laurent. Ele dizia: “Não existe um preto, e sim vários pretos.” Ele soube convencer as pessoas que esse estilo acromático era uma arte sutil. Tendo Deus inventado a luz, Saint Laurent parecia tê-la apagado com o mesmo sucesso.
LADO B
Temos que ir para além da superfície para entender o que significa de verdade esse implacável negro. Por detrás das poses, a parisiense esconde um medo, um pânico insano, o de não ser chique. Por isso o preto é prático, é cômodo. É uma aposta segura, mesmo para alguém que não tenha tino para a moda. O preto é um coringa confortável. Ele afina a cintura e disfarça a falta de gosto. É o seu seguro noturno, a promessa de se misturar na multidão fashion. É como se essa moda resumisse o instinto gregário da parisiense, seu lado ovelha... negra. Mas não pense que ela algum dia confessaria que veste um uniforme. E saiba que você não ganha nada apontando a verdade para ela. Caso o faça, irá apenas ver surgir uma nuvem negra na relação. Ela a olhará de cima a baixo, virará de costas, e sumirá na escuridão para sempre.