Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

Anne Berest, Audrey Diwan, Caroline de Maigret, Sophie Mas · Capítulo 24 de 106

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Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

A parisiense ao volante

 

Q uando dirige, a única regra que a parisiense respeita não faz parte do código de trânsito. Para ela, o importante é que vença o melhor. Ela pode dar uma fechada em um cara só para restabelecer a igualdade entre os sexos e mostrar que ela também sabe falar grosso.

Sentada ao volante, ela é fluente na linguagem de sinais, e frequentemente ergue o dedo do meio para manifestar seu descontentamento.

 

Ela não suporta perder tempo procurando vaga e larga o carro em qualquer lugar, como se pudesse contar com um manobrista imaginário para vir buscá-lo. Ainda assim, sente-se perseguida pelo Estado, que insiste em cobrar o que deve em multas de trânsito.

 

Quando é parada em uma blitz, começa a chorar. Antes mesmo de mostrar os documentos.

Quase sempre o policial a libera, apesar das irregularidades. Ele é o único tipo de homem que ainda se comove com lágrimas, aparentemente.

 

Às vezes, ela é parada por uma policial. E aí as lágrimas são inúteis. Então ela grita. E perde pontos na carteira. Ela remói seu azar de ter sido parada por uma mulher, mas não sente remorso por ter transitado na faixa exclusiva para ônibus.

 

Ela adora encontrar pequenos atalhos para evitar engarrafamentos. Isso quase sempre a atrasa ainda mais, mas mesmo assim faz com que ela sinta que domina a cidade.

 

Os ciclistas a irritam. Eles fazem com que ela se sinta duplamente culpada: por estar poluindo a cidade e por não fazer exercício.

 

Ela já transou em um carro muito, muito pequeno. Ela sabe que, no calor do momento, o joelho fica cheio de manchas roxas por causa do freio de mão. Mas isso não seria motivo para não repetir a dose.

 

Quando está atrasada, ela se maquia enquanto dirige. O retrovisor não deixa de ser um espelho, afinal.

 

De repente, ela tem vontade de cantar aos berros canções antigas e cafonas que ela só ouve escondida, no carro, e em nenhum outro lugar.

 

O painel é uma extensão da sua bolsa — uma notória zona que abriga de tudo um pouco: livro policial, nota fiscal velha, caixa de chicletes, carregador de celular, uma rosa murcha que ganhou uns dias antes. Todos juntos compõem um diário ou uma obra surrealista a quem interessar.

Ela adora dirigir no limite da reserva do tanque como se estivesse brincando de roleta-russa: conseguirá ou não chegar ao próximo posto até que o combustível acabe?