Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo
As Simones
T odas as parisienses têm uma Simone guardada em sua memória. A cidade se divide em três categorias distintas: as Simone Veil, as Simone de Beauvoir e as Simone Signoret. Elas conversam, vão umas às casas das outras, e às vezes chegam até a ser amigas. Mas, no fundo, elas consideram que não pertencem à mesma família e preferem aquelas com quem compartilham essa ligação sanguínea secreta. Consideram-se, no entanto, como primas distantes, e essa lógica de tribo é mais um esnobismo do que uma verdadeira batalha entre clãs. Entenda.
AS SIMONE VEIL
Essa mulher é, antes de tudo, uma sobrevivente. Ela conheceu os campos de concentração de Drancy, de Auschwitz-Birkenau e de Bergen-Belsen, e escapou deles com vida. Mas seu nome entrou para a história no dia em que o aborto foi descriminalizado. Simone Veil, na época ministra da Saúde, lutou para conceder às mulheres o direito de escolha. Essa luta lhe rendeu graves ameaças da extrema direita que, é claro, não a intimidaram.
Simone Veil é o arquétipo da mulher inteligente que luta por suas semelhantes. Feminista, iconoclasta, inabalável, ela é o totem das jovens politizadas, conscientes das dores do mundo. Várias mulheres francesas, com formação superior, compunham sua massa de seguidoras que passavam os finais de semana em manifestações acaloradas, esporte nacional da França. É comum que esse engajamento seja para algumas, antes de mais nada, uma forma de se definir, de ter um estilo. Da mesma forma que uma adolescente decide tornar-se gótica.
O MANTRA: “Minha reivindicação enquanto mulher é que minha diferença seja levada em
consideração, que eu não seja nunca forçada a me adaptar ao modelo masculino.”
O MANTRA: “Ela não buscava o prazer do outro. Ela desfrutava de forma egoísta o prazer de dar
prazer.”
AS SIMONE DE BEAUVOIR
Ela encarna, antes de tudo, essa maneira tipicamente francesa de amar, essa forma de ser uma “mulher de (alguém)” sem nunca desaparecer por detrás da silhueta do homem que ela escolheu. Ainda que tenha compartilhado a vida com Jean-Paul Sartre, ela deixou uma marca inesquecível na França. A de uma escritora famosa e reverenciada. Ela é também, por sua vez, feminista, traço bastante comum na mulher francesa. Mas é preciso lembrar que ela cresceu com um pai que, durante toda a sua infância, repetia, como um grande elogio: “Você tem o cérebro de um homem, minha filha.” Ainda que esquerdista, comunista ferrenha, dentro dela escondia-se uma mulher apaixonada, sempre com medo de se entregar aos sentimentos. A obra que ela escreveu sobre os últimos anos de vida do seu companheiro, A cerimônia do adeus, choca pela crueza dos detalhes. Ela é o modelo das sedutoras amazonas, que gostavam de agradar sem demonstrar o quanto se interessavam por esse tipo de coisa.
O MANTRA: “O segredo para ser feliz no amor não é ser cega, e sim saber fechar os olhos quando
necessário.”
AS SIMONE SIGNORET
É a heroína que se sacrifica, que, assim como a Pequena Sereia, daria tudo o que tem — suas pernas, sua voz — para o homem que escolheu. Para essa Simone, esse homem era um dos maiores atores franceses de todos os tempos, Yves Montand. Juntos, representam tudo o que houve de mais glamoroso nos anos 1950. Ela, atriz, escritora, com olhar profundo, lábios carmim. Ele, um sedutor de origem italiana, com um sorriso de deixar as pernas bambas. Ela ganhou o Oscar de melhor atriz pelo filme Almas em leilão, em 1960. Mas sua carreira nos Estados Unidos sofreu um revés dramático. No mesmo ano, seu marido atuou em Adorável pecadora, e todos ficaram sabendo, ela inclusive, do caso que ele teve com Marilyn Monroe. Ainda assim, Signoret não abandonou o homem que a fazia sofrer, ela aguentou firme, sofreu em silêncio. Silêncio esse que foi rompido apenas muitos anos mais tarde. Depois de Yves voltar para ela, após a morte de Marilyn. Eis o que ela dirá sobre essa mulher: “Eu me arrependo apenas de nunca ter lhe dito que eu não tinha raiva dela.” Todas as grandes sentimentais do país um dia já quiseram ser um pouco mais como essa Simone, mártir do amor, cuja história é coroada com um final feliz: eles repousam juntos, para toda a eternidade, no cemitério Père Lachaise, em Paris.