Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

Anne Berest, Audrey Diwan, Caroline de Maigret, Sophie Mas · Capítulo 49 de 106

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Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo

No campo

 

A o descer do carro, ela se sente um pouco perdida. A parisiense conhece apenas um som, o dos saltos contra o asfalto, a cadência da sua vida. Esse ritmo é sua referência, o metrônomo dos seus dias. Assim que ela põe os pés no campo, com a sola do seu sapato afundando na grama macia, ela sabe que não está mais em casa.

 

Para falar a verdade, ela só gosta das pradarias verdes nas pinturas, nos quadros que ela sempre via na sala dos pais, e isso bastava. Mas agora, a cada passo, ela sente distenderem os fios elétricos que a conectam com seu mundo. Ele perde a rede de segurança. Internet, telefone. Ela sente calor, sente frio, passa por todas as estações, sem entender porque começa a transpirar. Passa então à sua zona de desconforto. Para ela, o campo é definido pelo que ele não possui. Porque, no fundo, ela ama o que é natural, e não a natureza. Se suas bochechas são rosadas, é apenas porque estão maquiadas. E se cheira a flores, é porque usa perfume de rosas. Sim, ela admite que seu charme é um pouco artificial. E daí?

 

Com um passo já menos tranquilo, ela se dirige em direção àquela construção que identifica como a casa da fazenda. Mas sem muita certeza. Sejamos francos, ela não tem mais certeza de nada. Ela se dá conta da vida em torno de si. Ouve o zumbido de um enxame de vespas acima de sua cabeça. A sinfonia aterrorizante da natureza indócil a remete à sua própria fragilidade. Uma mosca passeia tranquilamente por sua blusa. E, quando tira os sapatos, ela pisa em cima de urtigas. Essa parisiense que tanto valoriza o conceito de civilização acha quase revoltante o quão intrusiva é a natureza. Sim, ela está exagerando, mas essa é a última arma que tem para defender sua personagem.

 

Ela senta no banco, bem na frente da casa de campo, e fecha os olhos, deixando o vento acariciar seu rosto. Quando ela para um momento de reclamar mentalmente, é invadida por uma vertigem deliciosa. Ela aprecia a simplicidade dos seus minutos solitários. Chega inclusive a se deliciar com o grandioso espetáculo de uma árvore centenária, que não deixa nada a desejar quando comparada a certas catedrais. Mas isso ela nunca confessará. Defender o campo seria renegar a cidade, trocar de religião e correr o risco de ser excomungada, tornando-se para sempre uma pobre parisiense perdida em uma plantação de trigo.