O Circo dos Fantasmas
Capítulo 8
QUITANDA era o que se lia nas placas do lado de fora.
Couve-flor. Alface. Aipo. Espinafre. Feijão. E repolhos, pilhas de repolhos grandes e
verdes. Verduras da quitanda: talvez boas e firmes na parte de cima, empapadas e fétidas
na parte de baixo, todas empilhadas em grandes cestos ao lado de barris contendo
grandes cenouras e cebolas do lado de fora das lojas de esquina: as quitandas. Aqueles
estabelecimentos em particular com suas verduras expostas do lado de fora pontilhavam
certas áreas da parte baixa de Manhattan. Dentro das quitandas, entre as miudezas e a
carne de porco, havia também lanches mais elaborados, especialmente para os clientes
mais especiais. E as pessoas que viviam nessas áreas da cidade iam até lá, escolhiam
repolhos, feijão e espinafre; compravam farinha barata e açúcar e sal importados. Os
clientes não comentavam, principalmente as mulheres (exceto talvez pelo piscar de olhos
sagaz ou um meneio de cabeça), sobre o odor de uísque que vinha de trás da cortina
escura nos fundos da loja, ou do cheiro pungente de fumaça de cigarro. Tampouco
comentavam sobre as vozes masculinas — murmúrios na maior parte do tempo, mas que,
em algumas ocasiões, se elevavam, que também vinham de trás das cortinas escuras. Isso,
porém, não era problema dos clientes. Comprar mercadorias na quitanda, isso sim, era
competência deles.
QUITANDA era o que se lia nas placas do lado de fora.
Começaram a mencionar atrás das cortinas das quitandas em Lower East Side entre os
vapores de uísque e a fumaça de cigarro, uma abominação que arrepiaria os pelos de
todos os verdadeiros americanos: um policial inglês, trabalhando nas docas de Nova York
— e causando problemas. Teriam de lidar com ele.
***
É estranho o preço que, às vezes, se paga pelo amor. Talvez, no início, esse preço não seja
claro.
O detetive-inspetor Arthur Rivers, da Scotland Yard, começou a trabalhar para a força
policial de Nova York porque se apaixonara por uma mulher que se tornara tão malvista que não era mais seguro para ela aparecer em público em Londres. Como o empresário
Silas P. Swift, certamente, reconhecia uma grande publicidade quando a via, rapidamente a
convidou para trabalhar no INCRÍVEL CIRCO DO SR. SILAS P. SWIFT na América.
Cordelia Preston, mesmerista e agora artista circense, foi absolvida de um assassinato que
não cometeu por um júri em Londres, em um caso no qual Arthur Rivers trabalhou para
a promotoria. Durante as poucas semanas daquele terrível julgamento, conheceu a
coragem e a força dela, sua paixão louca e insensata e sua dor inimaginável. O julgamento
foi uma farsa, inflamado pela imprensa sensacionalista, principalmente porque o nobre
assassinado era casado com a prima da Rainha Vitória. Quando Arthur Rivers pediu
Cordelia Preston em casamento, temia por sua segurança: ele substituíra o vidro de uma
janela de sua casa em Bloomsbury, Londres, porque, do lado de fora daquela casa, as
pessoas que haviam lido sobre aquela mulher abominável e imoral nos jornais vinham,
observavam, apontavam o dedo, gritavam e atiravam esterco, repolhos e pedras nas janelas
e um homem andava de um lado para o outro em frente à casa com uma grande placa
onde se lia ARREPENDA-SE! Quando lhe pedira em casamento, enquanto uma multidão
gritava ofensas do lado de fora, ela o olhara como se estivesse completamente louco.
Talvez, estivesse louco mesmo.
A primeira esposa de Arthur Rivers falecera. Ele tinha duas filhas, Milly e Faith, e ele e
sua cunhada solteira com seus lábios sempre apertados (ele tentava não perceber aquela
característica, uma vez que lhe era grato pela ajuda prestada), Agnes, criaram as duas
meninas da melhor forma que puderam. Arthur Rivers amava as filhas, mas quando fora
nomeado um dos primeiros detetives da nova divisão de polícia da Scotland Yard, a maior
parte da responsabilidade ficara com a tia Agnes. Não era culpa das meninas que a mãe
tivesse morrido e que a tia tivesse se tornado uma influência tão grande sobre elas nos
anos de formação. Agnes lhes ensinara a tocar cânticos religiosos no piano que ele
comprara com otimismo: esperara uma abordagem mais popular, mas aquele era o
temperamento dela. Entretanto, quando Agnes as encorajou a espetar lindas borboletas
do pequeno jardim em Marylebone com alfinetes afiados e emoldurá-las para enfeitar a
parede da sala (sendo essa uma atividade bastante adequada para jovens damas
respeitáveis, assegurara ela), o pai teve certeza de que estava perdido. Na hora certa, ambas
as filhas conheceram jovens agradáveis, casaram-se e deixaram a casa de Marylebone. Ele
se tornou um avô orgulhoso — chamaram o menino de Arthur também. E a cunhada
presumiu que continuaria cuidando do detetive policial. Talvez (embora ele jamais tenha
cogitado isso), ela esperasse por algo mais. Sejam lá quais fossem seus desejos mais
íntimos, os lábios apertados da cunhada apertaram-se ainda mais quando compreendeu
que Arthur não continuaria morando em Marylebone: ele estava prestes a viajar para a
América com uma assassina infame!
— Cordelia Preston nunca foi condenada por assassinato, Agnes.
— Os jornais publicaram tudo sobre o assunto.
— Os jornais não necessariamente são um guia para a verdade, Agnes. Já lhe disse isso
muitas vezes. Você e as meninas devem conhecê-la e julgarem por si mesmas. E o que quer que aconteça, Agnes, você sabe que o meu lar será sempre o seu lar.
O encontro, porém, não foi dos melhores. Tanto as filhas quanto a tia,
compreensivelmente talvez, foram implacáveis em sua oposição a Arthur ir a qualquer
lugar que não fosse a casa deles em Marylebone; haviam lido tantas manchetes
difamatórias, infames e vergonhosas sobre aquela mulher indecorosa e sedutora (por pelo
menos uma semana as pessoas em Londres não leram sobre mais nada) que recebê-la em
sua respeitável casa era insuportável, e elas temiam que os vizinhos a vissem, mesmo que
de relance. Para tornar a situação ainda mais desconcertante, nenhuma das três conseguia
afastar o olhar daquela anti-heroína porque ela tinha olhos negros e profundos e tez tão
límpida e pálida que as inquietava; além disso, uma mecha de cabelo branco assustadora
brilhava por entre os fios negros. Elas não conseguiram tirar os olhos dela porque,
embora já não fosse jovem, e embora fosse indecorosa, era linda.
Desde que Arthur Rivers partira para a nova vida, Agnes escrevia regularmente cartas
lastimosas para o cunhado. Ele era um avô, seu lugar era em Londres, Agnes não estava
bem: ele devia a ela estar em Londres, foi avô de mais uma criança e de mais outra. Será
que aquelas pobres crianças teriam de crescer sem conhecê-lo? Será que não devia nada a
elas? Ele também respondia com regularidade e costumava incluir algum dinheiro e, às
vezes, desenhos de barcos que mandava para o neto, o pequeno Arthur. E contou à sua
família londrina sobre aquela cidade grande e nova: Nova York.
Arthur Rivers e Cordelia Preston se casaram de forma discreta assim que chegaram; a
filha de Cordelia, Gwenlliam (um antigo nome galês), servira de testemunha (embora por
requisitos de publicidade a noiva tenha mantido o nome “Srta. Cordelia Preston”). Mas
Arthur sabia (todos os membros da sua estranha segunda família sabiam, exceto talvez
pela própria Cordelia Preston) que o amor dele lhe dava forças nos momentos difíceis,
quando as lembranças do passado dela ameaçavam devastá-la. Ninguém sabia exatamente
quais eram os sentimentos de Cordelia em relação a Arthur Rivers, nem mesmo ele. O
amor trouxera tanta desgraça para a vida dela que, às vezes, ele pensava que ela jamais
consideraria sentir aquilo outra vez. Amava Cordelia Preston: viu uma vez mais sua força
e estoicismo quando ela entrou para o circo de Silas P. Swift. Em algumas ocasiões,
porém, quando ela e sua melhor amiga, Rillie Spoons, riam sobre algo do passado
perigoso que viveram, era naqueles momentos que Arthur vislumbrava a exuberância e a
alegria da liberdade selvagem, vistosa e confiante que também deviam fazer parte de sua
personalidade. Em algumas noites, chorava silenciosamente em seus braços e ele sempre a
abraçava apertado: era tudo o que podia fazer e ela nada dizia. Ele também não falava
sobre o seu passado. Não contava sobre as cartas de Agnes vindas de Londres; ele as
pegava no grande posto dos Correios e as mantinha trancadas em sua mesa na delegacia.
Às vezes, porém, sentia como se centenas de pequenos cacos de vidro cobrissem o
espaço entre eles.
Só possuía uma parte do coração dela. Ele amava Cordelia Preston, mas em seu
coração agora carregava algumas farpas solitárias e sombras naquela terra estranha.
Logo que o detetive-inspetor Arthur Rivers chegou a Nova York as pessoas lhe faziam a
inevitável pergunta:
— O que o senhor acha deste nosso maravilhoso país, a nossa América?
Ele sempre respondia:
— Inacreditável!
As pessoas sempre interpretavam sua resposta como um elogio e ele deixava passar.
Era verdade que estava cheio de espanto e curiosidade sobre aquela cidade grande, nova e
excitante com seus altos postes de telégrafo, o maravilhoso reservatório de água, a ruidosa
e brilhante Broadway sempre cheia de gente, de lojas novas resplandecentes e nova-
iorquinos barulhentos e agitados, sempre apressados, correndo e se acotovelando; o
entusiasmo e o barulho, a ebulição e os sítios de construção, as vendas, o riso, os gritos e
as manchetes de jornal.
Entretanto, em Londres, o policial inglês entendia as coisas. Compreendia a estrutura
social de seu país e reconhecia como tudo funcionava. Principalmente na força policial.
Sabia — é claro que sim — das pequenas desonras e contravenções cometidas por
policiais londrinos do outro lado do oceano e, na verdade, sobre a corrupção dentro do
pequeno mundo da Scotland Yard. Sempre havia maus policiais, mas costumava trabalhar
com os confiáveis. E, em geral, havia mestres confiáveis. Mas ali, naquela cidade perigosa e
violenta, naquela Nova York, o ancoradouro era mais escorregadio porque não
compreendia muito bem o labirinto subjacente do policiamento de Nova York e não sabia
ao certo quem era pago por quem para prestar qual serviço específico.
Um dos capitães da polícia, um sujeito agradável e direto, que ficou muito satisfeito
quando recebera mensagens de Londres sobre um de seus detetives estar chegando a Nova
York (pois notícias da Scotland Yard e de suas atividades já haviam chegado à América), foi
bastante franco quando Arthur levantou (da forma mais delicada possível) a questão da
corrupção.
— Não tenho como impedir isso — respondeu o capitão. — Faz parte da natureza
dessa nova democracia.
O inglês meneou a cabeça, como se quisesse clarear os pensamentos. Era policial há
muitos anos e entendia que as coisas funcionavam de forma diferente em Nova York, tanto
na força policial quanto na população, mas nunca vira tamanha corrupção cívica
escancarada — e nunca antes testemunhara um homem arrancar o nariz do outro com
uma dentada e cuspir de volta na cara do outro.
E nunca vira nada como o porto de Nova York.
Na extremidade inferior da ilha de Manhattan, com o rio Hudson de um lado e o East
de outro, Nova York operava o que provavelmente era o mais próspero e bárbaro porto
marítimo do mundo. Estaleiros, cervejarias, fundições, fábricas, matadouros, tudo isso às
margens do rio East. Centenas e centenas de embarcações importando mercadorias e
pessoas para o novo mundo clamavam e lutavam por espaço nos píeres do rio; centenas
de outros navios partiam em direção ao velho mundo repletos de algodão cru e grãos.
Marinheiros assoviavam “Blow the Man Down” quando desembarcavam com seu pagamento no bolso em busca de diversão. Barcos vindos da América do Sul esbarravam
em navios africanos, trazendo carregamentos de frutas e temperos exóticos; embarcações
mexicanas e árabes lutavam com marinheiros europeus para atracarem e, em algumas
ocasiões, vislumbravam-se lâminas de facas sob a luz do sol — e toda a atividade marítima
contínua, caótica e febril significava que havia uma renda enorme e crescente entrando na
cidade de Nova York: dinheiro, muito dinheiro — no ano anterior os impostos portuários
haviam chegado a vinte milhões de dólares, uma soma inimaginável.
Não demorou muito para que o detetive percebesse que grande parte desses impostos
ia direto para os bolsos dos oficiais da cidade: os conselheiros municipais. Os homens
eleitos para administrar a cidade naquela nova democracia. E não demorou muito para
que o detetive percebesse que os conselheiros municipais, acima de todos, desejavam
continuar em seus gabinetes uma vez que chegavam lá. Para ser direto, estava claro que
transações financeiras, digamos, não convencionais, se espalhavam pela cidade.
Ele viu esses Pais da Cidade, ricos e democratas, os conselheiros municipais,
marchando, orgulhosos, nas paradas cívicas pela Broadway acompanhados por uma
banda de música e balançando bandeiras americanas, com suas listras brancas e
vermelhas e quadrado azul estrelado, cantando vigorosos:
Hail Columbia, happy land!
Hail ye heroes, heav’n-born band
Who fought and bled in freedom’s cause
Who fought and bled in freedom’s cause…*
Então, não demorou muito para o detetive ver aqueles mesmos Pais da Cidade
exigindo abertamente o pagamento de um quinhão para liberarem contratos de
construção, concessão para o transporte por barcas, licenças para venda de bebida
alcóolica e aluguel e licença para abertura de tavernas e venda de terras. Também
esperavam receber pagamentos dos funcionários públicos da cidade a quem davam
emprego — inclusive de policiais. Dessa forma, o inspetor Rivers descobrira, para seu
espanto que, em Nova York, muitos pagavam para se tornarem policiais — porque sabiam
que logo receberiam muito mais dinheiro além de seus salários: todo bordel, toda pensão
barata e todo salão suspeito e estabelecimento ilegal e empresários esperançosos em Nova
York pagavam abertamente um quinhão para os policiais para poderem continuar com
seus negócios.
Os Pais da Cidade eram conhecidos por darem tanto quanto recebiam: grandes somas
de dinheiro também eram pagas por eles em segredo para as pessoas de quem precisavam
para se manterem no poder. Todo tipo de gente recebia um quinhão de pagamento deles,
inclusive os receptores de imigrantes (aquelas pessoas solidárias com sotaque irlandês
que aguardavam os viajantes nas docas).
— Sejam bem-vindos! — gritavam os receptores que se deparavam com novos
imigrantes esperançosos, em geral, doentes e desnorteados ao desembarcarem. — Bem-
vindos à América! Sigam-me, amigos, a Santíssima Mãe sorri para vocês! — E levavam os
recém-chegados, de forma gentil e carinhosa, para receberem alimento e abrigo.
Arthur logo compreendeu, porém, que aqueles receptores sorridentes recebiam
dinheiro de cada pessoa que desembarcava, em geral, desesperada, que levava para os
refeitórios e albergues baratos — e o nome de cada um dos recém-chegados era anotado
de forma cuidadosa em grandes cadernos. Viajantes exaustos e gratos, vários deles vindos
da Irlanda, vindos de tão longe, fugindo da fome e da desgraça, em busca de uma nova
vida em um novo país, é claro que prometiam votar em seus benfeitores quando fosse
necessário. E era por aquele motivo que seus nomes eram escritos de forma tão
cuidadosa nos grandes cadernos — para o caso de esquecerem tal promessa.
— É assim que o american way of life funciona, Art — repetiu o capitão quando o
inglês voltou a lhe perguntar. — Olhe para a nossa prosperidade! Olhe para o porto! Olhe
para a Broadway, uma das ruas mais bonitas e visadas do mundo! Tudo parte da nossa
democracia.
— Democracia? É claro, sir, em qualquer sociedade civilizada a polícia, entre todas as
pessoas, deveria ser nomeada de forma imparcial a fim de manter as leis da cidade e
recebendo um salário para isso.
— A América é uma nova sociedade, Art — respondeu o americano. — Estamos
tentando novas formas de fazer as coisas. Lembre-se: cada homem em Nova York tem
direito ao voto, cada um deles. — (É claro que isso não incluía os negros.) — E cada
imigrante também pode se registrar para votar. E se não gostarem do que está
acontecendo podem tirar os chefes da cidade do poder e esses chefes sabem disso. Creio
que não seja como em seu país! O seu conterrâneo, Sr. Charles Dickens, veio aqui há
alguns anos e se preocupou, assim como percebo que você se preocupa, Art, sobre todos
poderem governar, não apenas as pessoas inteligentes de certas classes. Ao que me parece,
esse argumento depende da sua definição de inteligente.
O inglês baixou a cabeça. Estava em Nova York agora, não em Londres.
— Entendo o que quer dizer, sir.
— Art, por favor, não me chame de sir. Quantas vezes preciso lembrar-lhe? — (Outra
coisa com a qual Arthur Rivers tinha de se acostumar: o uso imediato e casual do
primeiro nome das pessoas assim que se conheciam. Nunca ninguém chamara Arthur
Rivers de Art.) — Meu nome é Washington Jackson e todos me chamam de Wash.
Arthur Rivers gaguejou ao tentar esse novo nome.
— Bem, sir... Wash — (Wash?) — Entendo que este é um novo país com uma nova
forma de fazer as coisas. Mas sou um policial, profissão que sempre acreditei ser
honrada. Além de dinheiro ser aceito como suborno, vejo aqui confrontos violentos e
cruéis acontecendo todas as noites entre violentas gangues rivais. A violência aqui é pior
do que a das partes mais perigosas de Londres. E a polícia, os supostos guardiões da paz,
se demonstrarem qualquer interesse que seja, não estão sendo, de forma alguma, imparciais! No meu país, a polícia precisa ser a figura impessoal da autoridade. Aqui, ela
toma partido!
— Mas, Art, nossos policiais são membros de suas comunidades. É assim que o
trabalho da polícia funciona aqui. Eles são escolhidos por suas comunidades de origem,
onde às vezes são obrigados a usar os próprios punhos. Surpreende o fato de protegerem
sua gente tal como sua família! — Washington Jackson era um homem muito agradável;
falava de forma gentil, porém firme. — Ouça, Arthur, pelo menos quarenta barcos
descarregam passageiros em nossa costa simultaneamente. Centenas de milhares de
imigrantes já chegaram aqui, principalmente irlandeses e, chegam cada vez mais todos os
dias, pois a entrada não é recusada a ninguém. A América precisa de gente, mas essa
entrada ininterrupta de estrangeiros trouxe enormes problemas para a cidade, os quais
você acredita serem tratados de forma não convencional. Ainda assim, um dia, alguns dos
imigrantes que chegaram hoje, os inteligentes, os empreendedores e os afortunados, terão
a chance de talvez dirigirem a força policial da cidade também! Você acha que essa chance
existe para todos os homens de Londres? Acho que você precisa conhecer um pouco
mais sobre os diferentes problemas que a nossa cidade enfrenta antes de nos criticar, Art.
Equilibre toda a liberdade e a esperança com um levante popular não controlado! Agora,
vamos aos negócios. Espero que fique em Nova York. Quero muito que trabalhe conosco.
Arthur compreendeu que precisava dar uma resposta.
— Estou interessado em entender como as outras forças policiais funcionam.
— Muito bem! Então, vamos ensinar a você! — E repetiu: — Quero que trabalhe
conosco, Art, mas precisa saber algumas coisas sobre o submundo de Nova York antes de
decidir, embora eu espere que não volte correndo para Londres aterrorizado!
— Tento não fugir das situações, Wash — respondeu Arthur Rivers, secamente.
— Então, temos sorte de conhecê-lo. — Washington Jackson analisou o honrado
inglês. — Eu poderia levá-lo a Five Points, um lugar sem esperança, o fim da linha, onde a
ralé irlandesa vive em prédios que estão afundando no pântano. As gangues cruéis de lá,
os Pangarés Terríveis, os Coelhos Mortos, todos têm muita experiência em chutar a cara
das pessoas com suas botas cravejadas de pregos ou em arrancar seus olhos. Mas vou
poupá-lo de ir a Five Points. Tenho outros planos para você e não faltará oportunidade de
presenciar chutes na cara e olhos arrancados nas docas. É ali que quero você, Art, nas
docas.
O detetive não demonstrou nenhuma emoção ao ouvir seu destino.
— Mas antes, passaremos por Bowery — informou Wash. — Porque esse lugar é tão
violento quanto Five Points, mas em Bowery ainda existe esperança, canto e riso. Saiba
que eles não gostam de ingleses, mas nós o protegeremos! Diferente de Five Points,
muitos membros de gangues em Bowery possuem empregos. Empregos simples, como
garis e açougueiros, mas empregos ainda assim. E eles podem chutar a sua cara ou
esfaqueá-lo pelas costas e jogar pimenta em seus olhos, mas ainda sabem se divertir.
Então, vamos.
Ele enviou a ordem. Um grande grupo de homens diferentes se reuniu no pátio de
Ele enviou a ordem. Um grande grupo de homens diferentes se reuniu no pátio de
baixo. O inspetor Rivers pareceu confuso quando olhou pela janela.
— Não usamos uniformes aqui, Art, como bem pode ver.
— Por quê, sir?
— Wash! Me chame de Wash! Os uniformes lembram as pessoas de coisas que
desejam esquecer. Como pessoas dando ordens. Desculpe-me a franqueza, Art: o
uniforme faz as pessoas se lembrarem dos ingleses. E não são apenas as pessoas comuns,
os próprios homens não querem usar. Chegamos a tentar, mas temo que as pessoas... —
O capitão deu um sorriso irônico. — ... zombaram e riram nas ruas e, depois disso, os
policiais foram categóricos ao se recusarem a usá-los. Então, usamos uma estrela de cobre
em nossos casacos para fins de identificação apenas. Ou seja, não usaremos uniformes
nesse nosso curto passeio, mas iremos armados com cassetetes, pois lhe garanto de que
não seria seguro de outra forma. — Ele pegou seu grosso cassetete de madeira de
alfarroba, como informou a Arthur. — Olhe bem, Art: firme, durável e... — Bateu com ele
na parede ao lado. — ... produz um som alto e inconfundível, principalmente quando
batido em uma parede de pedra. Então, é bom sempre carregá-lo com você nas ruas e
batê-lo no pavimento ou nas paredes e outros policiais virão correndo. — E, na verdade,
depois de um breve momento apareceu um policial correndo em direção a eles. Wash
explicou que estava apenas fazendo uma demonstração e todos riram e o policial voltou
de onde viera. — E não devemos ficar muito tempo em qualquer um desses lugares.
Tenho certeza de que ficará grato por isso. Porcos. Creio que essa tenha sido a palavra que
o Sr. Charles Dickens usou para chamar as pessoas que moravam nessas áreas. Ele visitou
Five Points e descreveu o local como um chiqueiro habitado por pessoas que viviam
como verdadeiros porcos. Veja só, sou levado a crer que o nariz dele ficou desconcertado
por não ter recebido a “deferência merecida” na América. Não fazemos deferência aqui. —
O capitão Washington Jackson pegou algo embaixo da mesa. — Na verdade, Arthur,
também tenho um revólver. Eu o carrego comigo de forma discreta, pois não é oficial,
mas como vamos para as docas, onde machados e porretes cheios de pregos são a norma,
ficarei mais tranquilo com o meu revólver. Então, vamos!
O contingente policial sem uniforme e carregando seus cassetetes saiu para a luz do
dia e seguiu em direção a Bowery. Os policiais ouviram sons altos e violentos antes sequer
de chegarem: gritos, brigas, música, berros, carroças barulhentas, explosões, gargalhadas
e acessos de raiva.
Parecia óbvio que havia muitas opções de entretenimento em Bowery: Arthur
observou grandes teatros que já tinham visto dias melhores, pequenos salões anunciando
melodramas, musicais e dança. Tapumes traziam anúncios: MACBETH!, exclamou um
cartaz ilustrado com um desenho grosseiro de uma mulher seminua segurando uma
adaga. MENESTRÉIS NEGROS! (nenhum artista negro), exclamou outro. JARDIM DA
CERVEJA!, dizia um terceiro, oferecendo tanta cerveja quanto uma pessoa conseguisse
consumir direto da mangueira por três centavos. E, acima dos muitos prédios, baixos ou altos, a bandeira americana tremulava orgulhosamente com suas listras vermelhas e
brancas e o quadrado azul com estrelas brancas: a bandeira da nova democracia.
Em todas as barulhentas vielas, havia porões imundos transformados em tavernas e
clubes construídos sob construções pútridas de onde vinham sons de vozes e violinos.
Mulheres de aparência perigosa se reuniam em volta de uma casa de penhores; algumas
pareciam estar (para surpresa do inspetor Rivers) lixando as unhas para lhes conferir um
formato pontiagudo enquanto gritavam convites obscenos para os policiais, que
respondiam de forma afável. Uma banda tocava tambores e cornetas em jardins
malcuidados, as pessoas cantavam músicas anti-inglesas com bastante satisfação:
I met with Napoleon Bonaparte and he took me by the hand
And he said “How’s poor old Ireland, and how does she stand?”
“She’s the most distressful country that ever yet was seen
For they’re hanging men and women for the wearing of the green.”**
Em Bowery, então, havia música, como Wash prometera. E energia. Um grande grupo de
homens jovens vestidos de forma estranha — quase almofadinhas afetados — caminhava e
falava alto, cheios de vida e atrevimento: calças listradas, camisas de cores fortes, cabelos
lambidos. Alguns deles usavam cartolas extraordinárias, bastante gastas, e levantaram os
chapéus para o contingente policial.
— Exibindo seus pequenos distintivos de cobre, cavalheiros? — debocharam antes de
explodirem em gargalhadas.
— Esses são alguns dos Irlandeses de Bowery — explicou Washington Jackson em voz
baixa. — Uma das maiores gangues locais, eles costumam chutar, esfaquear e jogar
pimenta nas pessoas. Durões, violentos e jovens: assaltantes, ladrões, falsários. Também
costumam agir como bombeiros voluntários. Assim como muitos grupos, possuem o
próprio equipamento contra incêndio e são conhecidos por matarem uns aos outros para
chegarem ao hidrante primeiro! Mandam um corredor na frente para se sentar sobre ele e
lutar com os outros enquanto levam o equipamento particular até o fogo! Em Bowery,
eles preferem deixar as casas queimarem até o chão do que perderem a corrida para
apagar o fogo. Na verdade, eles mesmos devem começar esses incêndios só para se
divertirem.
— São todos irlandeses aqui em Bowery?
— Não, embora os chamemos de Irlandeses de Bowery como um todo, mas assim
como em muitas gangues, há outros imigrantes: franceses, italianos, alemães, todos
misturados com os irlandeses, sendo que nas gangues de Bowery, em particular, há ainda
os americanos nativos.
O inspetor Rivers pareceu espantado.
— Nativos?
— Por americanos nativos — explicou Washington Jackson, rindo — você, como
inglês, deve estar pensando que estou falando dos índios, que desapareceram, mas não.
Este termo é usado aqui, de forma orgulhosa, para se referir aos nascidos na América.
Eles se veem como verdadeiros americanos e se referem a si mesmos, sem nenhum
resquício do senso de superioridade que vocês ingleses veem no uso de tal palavra, de
americanos nativos. Eu mesmo tenho orgulho de dizer que sou um americano nativo.
Arthur Rivers digeriu a informação.
— Então, o que une todos esses diferentes garotos de Bowery sem que acabem se
matando entre si?
O capitão deu de ombros.
— Juventude, energia. Quem consegue beber mais cerveja, gritar mais alto, arrancar a
cabeça de ratos com os dentes, desafiar a morte e todas essas coisas heroicas! Todos eles
têm facas e porretes e coturnos. Alguns também carregam revólveres. Mas, aqui em
Bowery, preferem resolver os problemas primeiro com os punhos. E, então, nas noites
de sábado, como todos os jovens com um bocado de energia e um pouco de dinheiro,
vestem as melhores roupas e se encontram com garotas e dançam os novos ritmos nos
salões de Baile. A valsa pode ser condenada em Astor Place, com toda aquela coisa de
segurar as garotas e passar a mão nelas de maneira imoral, mas está no auge em Bowery!
Na multidão perto de um dos teatros, onde jovens vestidas de forma alegre carregavam
cestas e cumprimentavam os garotos com suas cartolas, alguém, de repente, gritou, mas se
era de animação ou de terror, ninguém soube dizer.
— Esta é a Bowery, Art: brutal, violenta e cheia de vida. Agora, o verdadeiro motivo
desta excursão: seguiremos para as docas. — O capitão deu as ordens para os homens e
eles partiram novamente, desta vez, em direção ao rio East. Alguns deles piscaram para as
mulheres de Bowery como se talvez as conhecessem de forma mais íntima enquanto
assoviavam a balada irlandesa “The Wearing of the Green”, e marchavam. Arthur Rivers já
trabalhara em muitas ruas violentas em Londres, mas sentiu que realmente estava em uma
terra estranha enquanto os sons de Bowery ecoavam atrás deles.
— Meu Deus! — foi tudo que disse quando chegaram à Cherry Street.
— Esta costumava ser uma das partes mais elegantes de Nova York — observou o
capitão em tom ameno. — Mas, agora, Water Street, Cherry Street, Pearl Street e todas as
demais ruas no entorno das docas do rio East talvez sejam as mais perigosas de todas.
Entretanto, esta rua em que estamos, a Cherry Street, recebeu esse nome devido às lindas
flores de cerejeiras e era aqui que George Washington vivia quando se tornou presidente.
— O rosto de Arthur, vendo casebres sombrios e tavernas ainda mais escuras, enquanto
sentia os odores fétidos e ouvia os sons suspeitos, demonstrou dúvida. — Asseguro a
você, Art, havia mansões aqui não há muito tempo. Mansões bonitas e flores de cerejeira.
Então, mais e mais imigrantes começaram a chegar e os antigos nova-iorquinos se
mudaram para o norte. — Então, o tom amistoso do americano se alterou. — Esta área da cidade também abriga as cargas lançadas ao mar — informou ele. — Como Five Points.
Mas de uma classe diferente.
Então, acrescentou algo, falando bem devagar, como um aviso:
— Ouça bem, Art: tenha mais cuidado nesta região do que em qualquer outro lugar,
pois aqui existe uma energia sombria e perigosa, além da decadência. Permita-me
apresentar-lhe ao território de Nova York agora dominado não mais por George
Washington, mas por piratas do rio: os Anjos do Pântano, os Caudas Curtas. No
entanto, tenha ainda mais cuidado com os Garotos do Alvorecer que, em minha opinião,
são a gangue mais violenta da cidade. Os Garotos do Alvorecer — repetiu ele. — Alguns
deles não passam de meninos. Sempre à espreita na área do rio bem antes do amanhecer
com seus remos silenciosos e cavilhas bem lubrificadas, como fantasmas assassinos e
furtivos. — E talvez o capitão tenha suspirado. — Pelo menos, em Bowery, eles brigam às
claras e riem do lado de fora dos salões de música. Pelo menos, em Five Points, não há
nada o que esperar. Mas, nesta área, próxima às docas, é onde as transações mais
obscuras ocorrem, de dia ou à noite, em algum lugar sob os grandes prédios dos
cortiços, com passagens subterrâneas secretas que levam ao rio. Hoje evitaremos os
antros de jogatina nos porões onde grandes ratos famintos são jogados para lutarem
contra cães esfomeados, mas sabemos que muitas mercadorias importadas são
escondidas bem aqui, nesta área. E marujos que desembarcam podem encontrar
alojamento e garotas aqui, mas costumam nunca mais voltar para seus navios.
O grande contingente de policiais, agora apreensivos, seguiu adiante com as mãos nos
cassetetes. Nada de assovios naquele momento, enquanto cruzavam a Cherry Street,
passando por espeluncas, bordéis, casas de penhores e quitandas, mantendo os olhos
atentos para evitarem as latas que, segundo Wash contou a Arthur, eram atiradas das
janelas mais altas sobre os intrusos.
Quase sem acreditar, Arthur leu numa placa quebrada: PARADISE BUILDINGS.*** As
portas e janelas despedaçadas ou destruídas estavam soltas feito pipas, presas e velhas. Do
lado de dentro, podia ver escadas e corredores deteriorados e cômodos sombrios e
lotados. Do lado de fora, degraus quebrados levavam às galerias subterrâneas. E, em
todos os lugares, se ouvia um barulho inquietante, contínuo, incontido e violento:
crianças gritando, gente berrando e algo semelhante a uma risada maligna.
— Agora faremos uma breve visita às galerias de Paradise Buildings, Art — sugeriu
Wash. — Para que nunca esqueça! Há uma tubulação que corre em algum lugar sob esses
prédios.
Arthur sentiu-se inquieto: pensou nos cães e ratos famintos. Desceram por degraus
úmidos, cobertos de lodo. Agora um lampião da polícia iluminava os porões fétidos e
enlameados. De repente, viram, iluminadas pelo lampião, diversas fileiras de banheiros;
muitos deles estavam sendo usados e os ocupantes não ficaram nada satisfeitos com o
contingente policial que chegava sem ser convidado: xingamentos ecoaram e um monte de
bosta foi atirado aos pés de Wash. Um líquido desconhecido escorria pelas paredes e o
fedor que pairava no ar era de revirar o estômago. O que mais havia nessas galerias, perguntou-se Arthur, tentando enxergar na escuridão asquerosa: alçapões, passagens
secretas, armários ocultos cheios de ratos? Túneis? Cadáveres? Pessoas? Ao saírem
daquele buraco do inferno, um grande número de pessoas havia formado grupos em
frente aos prédios da Paradise Buildings: mulheres com expressões neutras, crianças
imundas, muitos jovens de aparência ameaçadora, usando brincos nas orelhas. Os
malditos e violentos encaravam de forma sombria e silenciosa os policiais.
Arthur Rivers também os encarou.
— E estes também têm direito ao voto?
— Todo homem que se registra tem direito ao voto. Já expliquei. Em uma democracia,
você não pode escolher quem pode e quem não pode votar.
Não houve qualquer sugestão para entrarem; o capitão deu um sinal e o contingente
seguiu adiante.
— Como eu disse, suspeitamos que muitos marinheiros estrangeiros tenham
encontrado seu fim nos canos lá de baixo: roubados e assassinados e jogados no rio East.
Oh, e uma das suas conterrâneas é bastante conhecida nesta área.
— Como uma Dama da Noite?
O capitão soltou uma gargalhada.
— Pode-se dizer que sim. Ela trabalha em um bar famoso. Deve ter pelo menos um
metro e oitenta e tem um estilo inconfundível: sua saia é presa por um suspensório
masculino e ela carrega mais facas do que um açougueiro. Gallus Mag é como a chamam.
Alguém me disse que gallus é a palavra que os escoceses usam para suspensório, mas
tenho para mim que o verdadeiro significado é bruxa velha e louca. Pode escolher.
Foi como se suas palavras tivessem conjurado uma aparição. Na esquina, uma
multidão de repente saiu de uma taverna aos gritos, no final de um beco. Sucedia uma
briga violenta e, no meio das pessoas, mesmo a vários metros de distância, dava para ver
— e ouvir — uma mulher alta e descabelada se jogar sobre um homem enquanto gritava
impropérios. Talvez sob a fraca luz do sol que passava por entre os prédios tenha
brilhado a lâmina de uma faca enquanto caía. Quando os policiais relutantes — segurando
firme os cassetetes — chegaram à taverna, a multidão já havia dispersado. Entretanto, uma
trilha de sangue levava para um beco estreito e escuro. O beco os levava de volta para
Paradise Buildings.
A polícia se aproximou da passagem coberta de sangue com cuidado: parecia estar
vazia.
O capitão de polícia empunhou seu revólver e fez um sinal para que todos os homens
erguessem os cassetetes. Assim, entraram pela porta da taverna escura e proibida: HOLE
IN THE WALL****, dizia uma placa desbotada. Quando os olhos do policial inglês se
acostumaram à escuridão, não havia sinal de nenhuma mulher inglesa alta usando uma
saia presa por suspensórios masculinos. Mas poderia jurar que vira, em uma prateleira
atrás do bar, um recipiente de vidro cheio de orelhas humanas.
O que nenhum dos policiais viu foi uma figura alta observando silenciosamente sua
partida de uma pequena janela suja, bem no alto de um dos prédios de Paradise Buildings. Ela percebeu que havia um homem novo entre eles e pensava ter ouvido um
sotaque inglês: o que a merda de um inglês está fazendo aqui com esse bando de policiais?
Então, aquela foi a excursão educativa e escoltada que fez assim que chegou a Nova York,
por amor. Da janela da sala do capitão no Departamento de Polícia atrás da Prefeitura
dava para ver plátanos, que, a julgar pelo que haviam visto, pareciam uma miragem. No
caminho de volta, passaram pelo parque da cidade, onde crianças bem-vestidas brincavam
ao lado de um chafariz. Em sua sala, após a excursão, Washington Jackson ofereceu um
charuto a Arthur Rivers, assim como um emprego.
— Agora você conheceu outra parte de nossa cidade democrática — disse ele, irônico,
enquanto acendia os charutos de ambos. — Mas tive um bom motivo para essa pequena
saída. Eu ficaria muito grato de ter sua ajuda e ouvir seus conselhos sobre algo. Sabemos
que Paradise Buildings, Cherry Street, Water Street e locais como a taverna Hole in the
Wall são os lugares de onde os piratas do rio, os contrabandistas e engambeladores de
marinheiros operam seus negócios.
— Será que realmente vi um vidro cheio de orelhas humanas?
— Viu sim. A sua conterrânea é conhecida por mantê-las em um vidro com álcool, do
mesmo modo que os homens marcam a coronha dos seus revólveres. Dizem que ela
arranca as orelhas com os dentes, mas não sei se isso é verdade ou não. Gallus Mag é uma
força que se deve levar em conta: louca como o chapeleiro e costuma se comunicar
usando frases de Shakespeare. — Apesar do vidro de orelhas, Arthur riu, incrédulo. —
Porém — suspirou Wash. — Não devemos achá-la engraçada. Ela pode falar um monte de
baboseiras ou o que quer que seja que aquelas bruxas recitem em Macbeth. E talvez ela
seja apenas uma louca violenta: não sabemos, mas suspeitamos que aquela velha bruxa
tenha muito mais poder lá nas docas do que parece.
— Por que não prendê-la? É apenas uma mulher.
— Uma vez, fomos àquele bar, quarenta homens. Depois de uma briga
particularmente violenta, orelhas perdidas e homens mortos, não se via sinal de uma
inglesa alta cuja saia é presa por suspensórios escoceses. E foi depois dessa excursão que
nos demos conta de que, embora alguns de nós já a tenha visto, ela nunca está lá quando
nós estamos.
— Talvez ela seja uma dessas figuras míticas das quais as pessoas adoram falar: uma
louca que arranca a orelha dos homens com os dentes, mas que não existe!
— Você certamente a viu hoje, Art, bem no meio da luta. Também a ouviu. E o que
restou quando chegamos até lá? Uma trilha de sangue levando a um beco. E, como
sempre, nada de Gallus Mag. — Washington Jackson deu uma longa tragada no charuto
antes de continuar. — Porém, o que quero dizer sobre Water Street e Cherry Street é o
seguinte: até mesmo os Pais da Cidade, que, como você já entendeu, são bastante
permissivos, não podem aceitar essa violência extrema e a perda de renda provocada pelos
gatunos noturnos que saqueiam até os navios nas docas antes de eles serem descarregados. Recebemos importações valiosas: tabaco, álcool, barras de ouro e prata,
medicamentos, fardos de tecido de algodão dos moinhos ingleses. Sal, temperos, quadros
antigos, joias, açúcar, seda, ópio e muito mais. Os Garotos do Alvorecer estão se
tornando extremamente arrogantes. Muitas dessas valiosas mercadorias estão sendo
roubadas. Os engambeladores das docas sequestram muitos marinheiros estrangeiros e
os jogam em outros navios; isso se não os roubarem e matarem primeiro. Essas notícias
estão correndo depressa à medida que o porto ganha mais fama. Não podemos permitir
que uma má reputação interfira ainda mais nos negócios de Nova York.
— A polícia não pode fazer nada?
— Você já tentou policiar marinheiros, Art, quando chegam a um porto novo
dispostos a se divertir e com os bolsos cheios de dinheiro? Estamos interessados em
lidar com a pilhagem de mercadorias que chegam nos navios quando aportam e não com
marujos bêbados. Temos de descobrir um jeito de lidar com isso.
— Sou um detetive, Wash. Não imagino como minhas habilidades poderiam ser
usadas no rio East.
— Mas você poderia observar os padrões de pilhagem. Isso talvez seja trabalho para
um detetive?
Arthur Rivers deu um longo suspiro: percebeu logo como seria.
— Não existe nenhum tipo de força policial para o rio?
— Não, não existe. Mas... — O americano bateu a cinza em um grande cinzeiro de latão
com o formato do rosto de George Washington. — Eu gostaria de colocar à sua
disposição meia dúzia de homens e ver o que você consegue fazer.
Arthur, na verdade, riu.
— Meia dúzia de homens no rio East para policiar as docas de dia e de noite? —
perguntou, descrente. — O rio East tem quantos ancoradouros? Cinquenta? Há centenas
de navios lá!
— Mas como eu disse, você poderia observar os padrões. As ações são organizadas?
São aleatórias? Isso é o início. E as gangues não o conhecerão por um tempo, o que lhe
protegerá. Mas temos de mostrar resultados. As gangues, todas as gangues de Five Points,
Bowery, Paradise Buildings e Hole in the Wall terão de saber que nem mesmo seus
amigos na prefeitura podem permitir a violência no rio e nas docas. Pois é dali que vem o
sustento financeiro da cidade. E não se deve interferir nesses negócios.
Arthur meneou a cabeça. Queria dizer: tudo isso explodirá um dia . Em vez disso,
respondeu:
— O seu chefe, o homem que administra tudo isso. Qual é a opinião dele?
O capitão tragou o charuto. A princípio, Arthur achou que ele não fosse responder. A
fumaça pairou no ar. Do lado de fora, podia ouvir ao longe o som de vozes de crianças
enquanto brincavam na água do novo reservatório que jorrava no chafariz. Um vidro
cheio de orelhas humanas não muito longe dali parecia um pesadelo horrível.
Era verdade, como o americano lhe contara, que os primeiros nova-iorquinos haviam
dançado com o próprio George Washington em bailes elegantes, nas belas casas de Cherry Street, em uma época em que as janelas e as portas não balançavam de forma
precária e desesperada pelas dobradiças. Mas, agora, Washington Jackson sabia, atrás das
cortinas nas notórias quitandas, naquela mesma área havia outra dança, completamente
diferente: o dinheiro trocava de mãos entre vários parceiros, por serviços diversos
prestados naquela ainda nova e próspera cidade — Nova York.
— A democracia é um negócio confuso, Arthur Rivers — suspirou o capitão de
polícia, dando mais uma tragada em seu charuto e observando a fumaça azulada e pesada
se elevar no ar.
Pois havia pessoas importantes e poderosas naquela dança de suborno e corrupção.
Conselheiros municipais — e sim, policiais do alto escalão — se associavam a alguns dos
homens que viviam em becos escuros, poluídos e em declínio do lado de fora das
quitandas ou em moradias fétidas e imundas nas margens do rio. Os líderes das gangues
poderiam recrutar um exército de homens se necessário, cuidar de certos negócios ou
fazer algum protesto. Os líderes das gangues eram pagos por esses serviços e ajudavam a
manter a renda imensa e cada vez maior desta violenta cidade portuária nas mãos dos
conselheiros municipais eleitos democraticamente. Aqueles homens com tantos favores a
conceder.
Assim, quando finalmente respondeu, enquanto as crianças brincavam no parque
com a água fria e límpida, o capitão pareceu escolher as palavras com muito cuidado.
— O chefe de polícia de Nova York quer uma polícia para o rio. Ele ficará feliz com
sua ajuda. Mas não conte muito com um verdadeiro apoio por parte dele. — Washington
Jackson tragou o charuto. — Digamos que há muita coisa acontecendo entre os diversos
círculos de poder de Nova York que você, como estrangeiro, nunca entenderá. Para ser
chefe de polícia desta grande cidade, um homem precisa responder a muitas facções
díspares. Ele já foi descrito por alguns como um pedaço estragado e podre de gordura e
mesquinhez.
Então, o capitão Washington Jackson, da força policial de Nova York, apagou o
charuto na cara de George Washington.
***
Nos dias e noites e nas semanas e meses em que o detetive inglês trabalhou nas docas do
rio East, ele mal teve qualquer apoio confiável. Trabalhou por muitas horas, usando
apenas seu instinto de detetive e uns dois homens leais e sinceros em quem sabia que
podia confiar: muitos membros da força policial, incluindo homens da sua pequena
equipe, se ressentiam dele e de seus métodos ingleses e — em particular — de sua recusa
em receber dinheiro por fora. (Arthur Rivers faria bom uso do dinheiro extra: tinha
muitas pessoas que dependiam dele, mas jamais pensaria em pegar aquele “dinheiro
fácil”.) Por um longo tempo, parecia que não fazia a menor diferença naquele lugar enorme, selvagem, difícil e perigoso, onde o nevoeiro noturno descia, que também era
um local excitante com tesouros valiosos e comercializáveis, de grande interesse para
muitas pessoas por diversos motivos.
Ainda assim, depois de muitos meses e bem devagar, obteve algum sucesso. Apenas com
o conhecimento de policiais de sua confiança, Arthur criou um sistema em que os navios
com cargas mais valiosas mandavam um aviso com antecedência de modo que uma guarda
adequada pudesse estar a postos até que a carga fosse descarregada e seguisse seu
caminho, entrando na próspera cidade ou seguindo para o oeste para atravessar a
América em constante expansão. Entendeu que os Garotos do Alvorecer usavam um bar
antigo em Slaughterhouse Point como quartel-general. Descobriu moradores de Water
Street insatisfeitos e que poderiam ser persuadidos a dar informações. Ficou claro que os
ambulantes de Ragpickers Row, que batiam latas e tocavam sinos enquanto puxavam suas
carroças cheias de mercadorias de segunda mão para vender nas ruas de Nova York,
costumavam ser usados para comercializar os bens roubados nas docas. Nos últimos
tempos, várias das gangues silenciosas que agiam no rio haviam sido presas e várias
mercadorias chegaram a ser devolvidas aos legítimos donos. Corpos de vagabundos
começaram a ser jogados no rio em vez dos de vigilantes. Os Pais da Cidade ficaram
satisfeitos (desde que determinados “parceiros de negócios” não fossem condenados se as
coisas chegassem a um ponto crítico) e pareciam não perceber a ironia da lealdade
dividida.
Entretanto, os “parceiros de negócios” dos Pais da Cidade não estavam nada satisfeitos.
E aquele foi o motivo pelo qual começaram a falar, principalmente nos últimos
tempos, entre repolhos, aipos e alfaces, atrás das cortinas das quitandas, sobre um tal
policial. Um policial inglês.
— Por que um inglês está trabalhando na polícia de Nova York? Quem permitiu isso?
Ninguém sabia responder a essa pergunta.
— Já lhe oferecemos um quinhão?
— Ele não aceita dinheiro.
— Bem, ele está se tornando um grande problema. Peguem-no.
E, nas sombras, uma mulher alta e violenta deu um breve sorriso e passou pela
cortina da quitanda da Cherry Street (a rua na qual, certa vez, George Washington dançara,
cheio de orgulho).
Notas
* Considerado o primeiro hino dos Estados Unidos, em tradução livre: “Aclamamos
Colúmbia, terra da felicidade! / Aclamamos seus heróis, rebanho do paraíso / Que
lutaram e sangraram em nome da liberdade / Que lutaram e sangraram em nome da
liberdade.” (N.T.)
** Tradução livre: “Encontrei Napoleão Bonaparte e ele pegou a minha mão / Ele disse
“Como vai a pobre e velha Irlanda, e como ela aguenta?” / “É o país mais desgraçado que
já se viu / Pois eles enforcam homens e mulheres por usarem verde.” (N.T.)
*** Morada do paraíso. (N.T.)
**** Buraco na parede. (N.T.)