O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 49 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 48

 

Por fim, deixaram o hospital, caminhando por Anthony Street e subindo a Broadway. Os

dois policiais sobreviventes, ambos alternando momentos de consciência e inconsciência

— às vezes gritando e outras tremendo como se estivessem deitados sobre gelo — foram

banhados e examinados e, por fim, deitados sobre lençóis limpos (que talvez parecessem

gelo para eles). Também receberam doses de láudano.

Do lado de fora, era novamente um dia quente de fim de verão. Devagar, quase como

em um sonho, Cordelia, Rillie, Gwenlliam e Alfie caminharam de volta para casa.

Gwenlliam e Rillie trocaram algumas poucas palavras sobre Frankie Fields, cuja mãe

aparecera: Você é a jogadora de pôquer que foi atrás do ouro!, dissera ela para Gwenlliam,

antes de abraçá-la. A capa e o xale de Cordelia foram jogados fora, pois não tinham

salvação. Seu rosto e seu vestido estavam cobertos de lama, mas os nova-iorquinos

sempre apressados não pararam, seguindo seu caminho para ganhar dinheiro. Gwenlliam

pegou o braço da mãe com crostas de lama enquanto caminhavam juntas bem devagar.

Durante todo o caminho, Cordelia se manteve em silêncio: era como se tivesse ficado

abobada diante de tudo que acontecera. Alfie queria chamar um cocheiro, mas sentiu que

precisavam do céu azul, da luz e do calor do sol, além de normalidade e paz. Assim, ele

manteve a calma até estarem de volta a Maiden Lane. Já haviam enviado uma mensagem

para Monsieur Roland e Regina. La Grande Celine os aguardava junto com eles no sótão

com bolinhos, bolo de milho e café.

Foi Alfie quem contou a história. Recontou os eventos terríveis pelos quais passaram

nas últimas horas como um pesadelo. Alfie havia se sentado na cadeira que costumava

usar, ao lado de Regina, mas acabou se levantando no decorrer do relato da horrível

aventura. Rillie, Gwenlliam e Cordelia se apertaram no pequeno sofá, pálidas de exaustão,

e ainda tensas. Embora tivessem tentado demonstrar gratidão, os bolinhos permaneceram

intocados.

Mas, depois de contar a história, Alfie não conseguiu manter a calma.

— Vocês têm de partir de Nova York imediatamente, Cordelia. Você e Arthur não

ficarão seguros aqui. Não em Nova York. Não mais.

Ela olhou para ele sem entender, como se nem tivesse ouvido as palavras. Gwenlliam

respondeu, rápido:

— Mas eles foram pegos. Os Garotos do Alvorecer estão presos.

— Os Garotos do Alvorecer são um grupo de desordeiros violentos e perigosos. Eles

— Os Garotos do Alvorecer são um grupo de desordeiros violentos e perigosos. Eles

estão sempre mudando, são espertos, frios e calculistas. Frankie Fields também não pode

ficar. Nem sei se você ou Rillie ficarão em segurança. Vocês ouviram Gallus Mag.

Cordelia disse sem expressão.

— Era só uma citação de Shakespeare. Ela estava citando um trecho de Rei Lear porque

sabia o meu nome. Cordelia é uma das personagens principais da peça.

Fazia tanto tempo desde que dissera algo que sua voz estava mais baixa e rouca do que

de costume.

— Sei que era Shakespeare — disse Alfie, pacientemente. — Ela é conhecida por usar

frases de Shakespeare em vez das próprias palavras cruéis. Ela deu um aviso a você,

querida. A gangue foi desmantelada e humilhada por tudo que aconteceu em Paradise

Buildings. Pessoas como você, Arthur e Frankie Fields não serão perdoados e vocês têm

de sair daqui!

— E quanto a você, Alfie? — perguntou Regina, empertigando-se na cadeira. — Você

tava lá.

— É diferente para mim — retrucou Alfie. — Eles me conhecem. — Todos olharam

para ele sem entender. — Já trabalho nas docas há muitos anos — explicou Alfie em tom

paciente. — Eles me conhecem.

Um silêncio tenso e quente pairou no ar. O sol brilhava no sótão como em qualquer

dia ensolarado de fim de verão. Então, por fim, Monsieur Roland se levantou. Algo em

sua postura fez com que todos olhassem para ele.

— Creio que seja o bastante por hora — disse ele. — Estamos exaustos e nada pode

ser decidido agora. Precisamos descansar.

Alfie se levantou. Celine percebeu que todos eles, até mesmo Alfie, estavam tão

chocados com tudo que acontecera e ainda estava acontecendo que obedeceram ao senhor

frágil e alto que falava com tanta gentileza como se fossem crianças. Ouviu Regina dizer

para Gwenlliam.

— Venha menina, deite-se e eu contarei uma história.

Gwenlliam abraçou Monsieur Roland por um momento e, depois, permitiu que

Regina a levasse para o quarto. Rillie beijou a cabeça do senhor francês quando passou

por ele e Cordelia tocou o seu braço.

Alfie pegou o chapéu. Celine recolheu alguns pratos, mas não desceu. Em vez disso,

pegou alguns papéis que estavam no grande bolso do seu avental.

— Tem mais uma coisa — disse Celine para Monsieur Roland e Alfie em voz baixa. —

Talvez este não seja o momento certo, mas talvez seja, enquanto elas não estão aqui. Pois

isto também é sobre Arthur e não creio que ele um dia vá mostrar isto. — Ela limpou a

garganta como se estivesse constrangida (o que era bem improvável tratando-se de La

Grande Celine). — Arthur deixou isto cair na noite que Danny O’Reilly chegou. Quando

eu a encontrei na manhã seguinte, achei que tivesse caído da bolsa de Danny. É claro que

peguei e comecei a ler. É uma carta. Ou melhor, duas cartas. E ela começou a ler as

páginas para os dois homens:

Marylebone

Londres

 

Estimado Arthur,

O senhor escreveu perguntando por que não recebeu mais cartas! Pois bem, eis a resposta: o pequeno Arthur faleceu há dois meses. Lembra-se dele? O único neto que conheceu? Ou será que já esqueceu? O pequeno caixão foi enterrado e Faith não contou com o conforto do marido nem do pai. Conviva com isso, Arthur Rivers, se for capaz.

 

Rogo para que volte a Londres para cumprir seu dever.

 

Deus parece achar que mereço ainda mais sofrimento. Tenho dores de cabeça durante todo o dia e toda a noite também. Não fosse por Millie, não sei o que seria de

mim. Os médicos são imprestáveis. Não estou mais em condições de cuidar de forma satisfatória da casa do senhor em Marylebone e não temos dinheiro para contratar um criado. Millie sugeriu que TODOS deveriam morar comigo! Sete crianças! Estou muito doente e sentindo dores em todas as partes do corpo. Também sofro de inchaços e é claro que não tenho como conviver com crianças agitadas. Quanto ao marido de Faith, aquele bêbado, quanto menos eu falar, melhor.

 

Ninguém se importa comigo, ainda assim, desisti da minha própria vida para cuidar de sua família, Arthur Rivers, sua família. Londres está um verdadeiro caos. Há estrangeiros por todos os lados se preparando para a Grande Exposição do Príncipe Albert.

É impossível ir a qualquer parte (não que eu tenha saído ultimamente) sem trombar com um estrangeiro. E Hyde Park agora está cheio de bordéis e prostíbulos abertos por eles.

 

Continuo, como sempre, sua zelosa cunhada,

Agnes Spark (Srta.)

PS: recebemos cinco pagamentos.

 

Oh, papai, eu sinto tanto por ter ficado tanto tempo sem

escrever. As coisas por aqui estão cada vez mais difíceis. Foi tão

triste o que aconteceu com o pequeno Arthur, papai. Não foi a

cólera, que já se foi, mas sim outro tipo de febre, e Faith sem poder contar com o apoio do marido! Foi muito difícil para

ela. Aquele velho e bêbado do Fred desapareceu e nunca mais

foi visto. Ficamos sempre muito felizes com suas cartas e com o

dinheiro que envia, mas a vida anda tão exaustiva. Oh,

papai, será que o senhor não poderia vir para casa agora,

mesmo que por pouco tempo, só para tentar resolver as coisas

por aqui? Tentei conversar com a tia Agnes como o senhor

sugeriu, mas ela se mantém inflexível. Seremos bem mais

amáveis com a Sra. Preston agora que estamos mais velhas, pai.

Como fomos horríveis naquela época! Ninguém mais se lembra

daquele escândalo. Afinal, surgem escândalos novos e maiores

toda semana — ontem, um homem esquartejou duas mulheres

em Islington e colocou os pedaços em um vagão de trem, e os

jornais baratos dizem que 15 mil estrangeiros inundaram

Londres na semana passada e que, assim que chegaram,

alugaram casas para abrir bordéis e cassinos clandestinos para

atender às milhões de pessoas que virão para a Grande

Exposição do Príncipe Albert no ano que vem, mas Charlie

diz “se acreditar em tudo que os jornais dizem, não vai mais

sair de casa” (como tia Agnes). Gostaria que o senhor

continuasse insistindo para que nos mudemos para

Marylebone, pai, apesar dos protestos da tia Agnes. Seria mais

barato — somos onze pessoas vivendo apenas com o salário de

Charlie na Companhia de Água e da sua gentil contribuição

(sem a qual já teríamos nos afogado em dívidas há muito

tempo, pai). Talvez o senhor possa vir para casa por pouco

tempo apenas até ajeitarmos as coisas? Estou quase

enlouquecendo tentando agradar a todos e cuidar do

dinheiro. Graças a Deus por eu poder contar com o querido

Charlie, que sempre me ajuda e apoia. Faith está morando

conosco agora, e não ouso deixar nenhuma das crianças com

ela no momento, ela perdeu o emprego na fábrica de conservas,

está muito triste e deprimida. Chora muito. E nós achamos os

desenhos que o senhor fez para o pequeno Arthur, ele sempre os guardou, na despensa, atrás das geleias e das conservas. Chorei

quando os encontrei, pobre menino. Oh, papai, não consigo

descrever o quanto sinto sua falta. Mas também sei que o

senhor tem sua própria vida agora e fico contente que o senhor

esteja feliz. Então, se o senhor não puder vir para casa agora —

bem, então quando o senhor puder, querido pai, seria

maravilhoso recebê-lo, mas nós vamos nos arranjando até lá.

Com amor, Millie. Beijos.

 

Celine parou de falar.

— Isso é tudo — finalizou ela.

Ficaram ali em silêncio por um tempo, de volta a Maiden Lane, Nova York.

— Pobre Arthur — declarou Alfie, por fim.

Monsieur Roland apoiou a cabeça nas mãos por um momento e nada disse.

Perceberam que ele estava exausto demais.

— Vou embora, monsiê. Descanse também. Vou passar no hospital e pegar todas as

informações que puder e voltarei amanhã de manhã. Então, conversaremos sobre isto.

Alfie pegou o chapéu e pousou a mão no ombro do senhor idoso por um tempo.

 

***

 

Depois da partida de Alfie, Celine ainda se demorou por lá.

— Vou deixar isso aqui — disse ao francês, colocando as cartas sobre a mesa. — O

senhor saberá o melhor modo de lidar com elas. — Mesmo assim, não desceu. Em vez

disso, sentou-se ao lado dele. — Meu querido Monsieur Roland — disse ela, em voz baixa,

ou tão baixa quanto era possível para La Grande Celine. Do lado de fora, a Maiden Lane

estava tão movimentada e barulhenta quanto sempre e o ar quente entrava pelas janelas

abertas.

O senhor idoso e exausto segurou um suspiro. Sentiu pelo tom de voz dela que Celine

estava prestes a fazer uma proposta que o deixaria muito desconfortável, mas não queria

magoar essa mulher gentil e bondosa com seu tapa-olho negro e garboso, intuição para os

negócios e coração desejoso e bom.

E estava certo: Celine tinha uma proposta. Só que era um pouco diferente do que ele

temia.

— Monsieur Roland, estive pensando sobre essas cartas. O senhor sabe qualquer coisa

sobre essa Grande Exposição em Londres sobre a qual elas escreveram?

No início da noite, as primeiras sombras caíram sobre o sótão, enquanto o sol se punha

no céu. Monsieur Roland ainda estava sentado à mesa. Tinha uma caneta e uma folha de

papel. Estava trabalhando em um projeto que começara. Escrevera tudo o que pensara

sobre a memória, sobre a perda dela, sobre memórias bloqueadas e o fracasso do FALE

COM O MESMERISTA. Queria doar os documentos para um hospital ou, quem sabe, uma

biblioteca, onde acumulariam poeira, mas que, um dia, talvez pudessem ser úteis a outra

pessoa.

Talvez Monsieur Roland também tenha dormido. Quando ergueu os olhos parecia

ainda estar dormindo. Hester, sua amada Hester estava em pé, diante dele.

— Não tive intenção de acordá-lo — disse ela em voz baixa e se sentou ao lado dele

como se fossem jovens de novo.

Esfregou os olhos. Não era Hester, mas sim sua sobrinha-neta.

— Não conseguiu dormir, querida Gwenlliam?

— Eu dormi sim, mas acordei agora e não sabia onde estava.

— Não fico surpreso com isso, minha querida. Aconteceram tantas coisas com você!

Há pouquíssimo tempo, estava trancada em uma cabine, cruzando o oceano Atlântico.

— Parece que isso já foi há muito tempo, depois de tudo que aconteceu desde então.

— Ela esboçou um leve sorriso. — Mas agora há pouco, por um breve e terrível

momento, eu estava sonolenta e ouvi passos e achei que fosse o Sr. Doveribbon do lado

de fora da cabine do Sea Bullet. — Ela meneou a cabeça. — Mas era mamãe andando em

seu quarto. Oh! Oh! — E ele percebeu que ela parecia ofegante. — Oh, estou tão feliz que

tudo tenha terminado. Feliz por mamãe estar viva e não estar mais trancada em uma

cabine e feliz por estar em casa. — Mas ele percebeu que ela tremia um pouco, como se

estivesse com frio, embora o clima estivesse bem quente. — Espero que Arthur se

recupere. Assim com Frankie. — Então, com voz ansiosa, fez a pergunta que queria fazer

desde que entrara na sala: — Eles vão se recuperar, não é?

Ele assentiu.

— Creio que ficarão bem — respondeu para tranquilizar a ela e a si mesmo. Ela sorriu

para ele como se tivesse a mais absoluta certeza de que, pela maneira que ele dissera,

aquilo era a mais pura verdade.

— Onde está Rillie? — perguntou Gwenlliam. — O quarto dela está vazio.

— Creio que tenha ido até a St. Paul’s Chapel para conversar com a mãe. Ela me

contou que faz isso quando precisa pensar na vida. Regina foi com ela.

— Oh, querida Rillie. Querida Regina. Querida Sra. Spoons. Durante todos esses meses

em que estive longe, nunca pensei, nem por um momento, que uma de vocês poderia não

estar aqui quando eu voltasse. Então, eu vi o cabelo. O cabelo de mamãe em uma bolsa. E

agora estou em casa... — ela deixou as palavras pairando no ar enquanto caminhava até as

cadeiras de balanço vazias. Empurrou uma e observou até que parasse. Então, voltou-se

para ele.

— Era mesmerismo? — perguntou de repente. Ele entendeu de imediato.

— Era — respondeu. — Creio que seja um tipo de mesmerismo.

— Parecia que, de alguma forma, eu abraçava todos eles, os mineradores. Eu

costumava dizer tudo ficará bem para confortá-los.

— Creio que, às vezes, a energia pode funcionar dessa maneira — afirmou ele, devagar.

— É a sua energia e a deles se unindo por um momento.

— Eu conseguia sentir — contou Gwenlliam.

— Sim — respondeu Monsieur Roland.

Ela ficou em silêncio e, então, empurrou a cadeira de balanço de novo e ele ouviu um

pequeno suspiro.

— Quando estava trancada na cabine eu pensava nestas cadeiras de balanço! — A

cadeira balançava para a frente e para trás e rangia um pouco. — O senhor acha que

realmente teremos de partir?

— Vamos pensar sobre isso mais tarde, querida. Não hoje. Aconteceram muitas

coisas para tomarmos qualquer decisão.

— O senhor acha mesmo que eles vão se recuperar?

— Acho que vão se recuperar sim — repetiu ele, pois não havia outra resposta

possível.

— Vou pensar sobre Silas e o circo e em como encontrá-los amanhã. Mas espero

nunca mais ver aquela varinha dourada. Sou uma acrobata e uma mesmerista, não uma

fada! — E ambos riram um pouco. — Mas agora sei onde estou, sei que estou segura e

que o senhor disse que tudo ficará bem — Monsieur Roland sorriu ao ouvir as palavras de

Gwenlliam. — Vou dormir mais um pouco! — Ela beijou o rosto seco do velho senhor.

Vozes da rua entravam pela janela, mas ele não ligou e voltou a dormir.

 

Quando acordou, Cordelia estava sentada à mesa ao seu lado e já estava escuro. Ela se

livrara de toda lama: na penumbra, ele viu o rosto pálido e cansado, os olhos grandes e a

mecha de cabelo branco. Estava sentada, imóvel, com as costas arqueadas. Segurava a carta

que Celine deixara sobre a mesa.

— Havia muitas outras destas na delegacia — disse ela. Então, como se estivessem no

meio de uma conversa, declarou: — Não foram as minhas memórias que foram

bloqueadas.

Ele aguardou.

— Foi o meu amor. O meu amor ficou bloqueado! — Ela ergueu o olhar para ele. —

Será que o senhor não entende? Eu achei que o amor fosse uma mentira. — Abraçou o

próprio corpo como se buscasse conforto. — De certa forma, eu era como a Sra. Spoons.

Eu estava ali, mas não estava. Por tanto tempo. — As cartas de Arthur estavam sobre a

mesa entre eles. E as palavras saíram de sua boca como uma explosão. — Como Arthur

suportou?! Eu, ali, ao lado dele, mas sem estar ali. Ele compreendeu tudo e sempre foi tão

bom, e eu aceitei a bondade dele como se pertencesse a mim, como se eu tivesse direito

àquilo. E continuei com as minhas lembranças.

 

— Suas lembranças talvez fossem mais fortes do que a sua vida? — sugeriu ele com um

— Suas lembranças talvez fossem mais fortes do que a sua vida? — sugeriu ele com um

sorriso.

Ela tentou sorrir também.

— Sim, o senhor tentou me dizer isso. Mas eu não quis ouvir.

Ele concordou com a cabeça e disse:

— Cordelia, minha querida. Você sabe como eu quis ajudar às pessoas a

desbloquearem suas memórias, embora você, por causa delas, talvez tenha bloqueado o

seu coração. O motivo por que eu ainda acredito que as minhas ideias estejam corretas,

apesar do fracasso total do FALE COM O MESMERISTA, é porque comecei a acreditar que

as pessoas não conseguem seguir adiante e crescer até que tenham lidado com

determinada memória. — Então, de forma bem gentil, ele continuou: — Acho que talvez

você tenha feito isso agora.

Ela se levantou em um salto.

— Sim — concordou. — Creio que talvez eu tenha feito isso agora. Eles sempre estarão

na minha mente, Morgan e Manon. Como poderia ser diferente? — Olhou para ele. —

Mas o amor não é uma mentira. E eu vou para o hospital e não voltarei sem Arthur.

Então, Monsieur Roland disse algo surpreendente.

— Talvez você queira pensar nisto — começou ele em tom sereno. — Pois isto pode

interessar muito a Arthur quando ele acordar. La Grande Celine tem falado sobre a

Grande Exposição do Príncipe Albert em Londres. Se a corrida do ouro da Califórnia está

chegando ao seu esperado fim, como os jornais predizem, eu me pergunto se o Sr. Silas

P. Swift está ciente das oportunidades e detalhes de tal evento.

Ela riu enquanto caminhava até a porta. Pensou que ele estivesse brincando.

 

No hospital, ninguém lhe perguntou o que queria, então, ela simplesmente entrou no

quarto em que eles haviam sido acomodados. Ambos estavam adormecidos: o peito de

Frankie Fields subia e descia de forma regular e a cor voltara ao rosto jovem e ferido. Mas

o homem mais velho parecia ter dificuldades para respirar e seu rosto trazia uma cor

acinzentada. Havia escoriações escuras por todo o seu corpo. Não havia ninguém ali.

Nenhum médico ou servente. Seu coração estava disparado enquanto olhava para o rosto

conhecido e, ao mesmo tempo, desconhecido. O rosto querido, machucado e cinzento.

Cordelia Preston fechou os olhos por um longo tempo: então, postou-se ao lado do

marido, ergueu as mãos sobre o corpo dele e começou os movimentos rítmicos, longos e

repetidos, concentrando toda sua energia nas mãos enquanto as movia sobre ele, sem

parar. Enquanto trabalhava, conversava baixinho:

— Não se atreva a morrer, Arthur Rivers. Tenho muitas coisas para dizer a você.

Coisas que já deveria ter dito há muito tempo. E há muitas coisas sobre as quais temos de

conversar e fazer juntos e dividir. Não se atreva a morrer agora.

Continuou com os movimentos contínuos e rítmicos, usando sua própria energia

para curá-lo.