O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 7 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 6

 

 

Celine Rimbaud, LA GRANDE CELINE, como fora descrita nos pôsteres de circo, era

uma engolidora de fogo de cabelos vermelhos flamejantes (estranho, porém real), que,

infelizmente, queimara um dos olhos e parte do rosto em uma noite em Cincinnati.

Diziam que um amante possessivo adulterara seu equipamento, mas isso nunca foi

provado. Ainda assim, e apesar desse amante ciumento, não se poderia dizer que ela tinha

azar no amor (a não ser que muitos amantes fosse sinal de infortúnio): Celine amara de

Paris a Nova York, passando por Londres, e muitos dos seus amantes eram homens ricos

e generosos. Assim, apesar do acidente que sofrera, La Grande Celine não era, como

diriam, uma mulher de poucos recursos.

Depois do acidente, passou a usar (claro que sim, pois era La Grande Celine) um

grande tapa-olho negro com uma pequena pérola bordada no centro, como um rico

pirata. Esse acessório cobria a maior parte dos danos sofridos e, sem dúvida, lhe conferia

uma aparência exótica e garbosa. Não podia mais trabalhar como engolidora de fogo, uma

vez que a visão não era confiável o bastante para conseguir a precisão necessária. La

Grande Celine, porém, era uma mulher de grande energia e iniciativa: antes que muitos

meses se passassem, tornara-se dona de um dos muitos restaurantes que se espalhavam

pelos arredores da Broadway e das ruas adjacentes. Seu restaurante logo encontrou a

combinação certa de sociabilidade, boa comida e diversão. Não que muitos nova-

iorquinos se divertissem e relaxassem enquanto comiam: eles queriam acabar logo e

voltar aos negócios e, em geral, comiam em absoluto silêncio e apressados, mesmo entre

amigos. Tudo que se ouvia era o tilintar dos talheres e a comida sendo cortada.

Entretanto, Celine tornara seu estabelecimento o mais atraente possível para os clientes.

Pagava bem aos cozinheiros, supervisionava a compra de suprimentos e estava sempre

presente na CASA DE REFEIÇÕES DA CELINE, como nomeara orgulhosamente o

estabelecimento, sempre sorrindo, dando as boas-vindas e gerenciando o dinheiro que

logo começou a entrar. O cardápio estava sempre na janela:

 

SALMÃO COZIDO

LOMBO GRELHADO

OSTRAS: EM CONSERVA, ASSADAS, FRITAS OU CRUAS

TORTA DE MAÇÃ

TORTA DE CREME

 

Certificava-se (verificando os outros restaurantes) de que seus preços fossem justos e

competitivos.

 

A Nova York do novo mundo, excitante, agitada, selvagem, eletrizante e em franco

crescimento tinha de acomodar e alimentar cada vez mais gente, que chegava todos os

meses. Havia um enorme número de restaurantes e diversos hotéis, variando desde o

American Hotel e o Astor House (para os visitantes mais ricos) até o Tremont Temperance

Hotel e o Florence’s (que só recebia visitantes de Nova Orleans e do sul). Em 1845, foi

publicado um censo da cidade: 375.223 almas viviam em Manhattan — 128.492 das quais

eram estrangeiras. Essas pessoas tinham de morar em algum lugar. Assim, um número

cada vez maior de hotéis e, em particular, “pensões” começou a aparecer. Em 1849,

estimava-se que pelo menos 170 mil imigrantes esperançosos aportassem em Nova York

em busca de nova vida e fortuna: a cada semana desembarcava mais gente.

As pensões, fossem elas antigas mansões convertidas ou prédios especialmente

construídos para esse fim, tornaram-se o lar de muitas das pessoas que chegavam todos

os dias à cidade. Algumas ofereciam apenas quartos; outras contavam com uma sala de

estar comunal, onde, com sorte, haveria uma lareira para aquecer dos invernos gelados de

Nova York. Alguns jornalistas, americanos ou estrangeiros em visita, publicavam críticas

sobre o fenômeno das “pensões”, as quais eram descritas como “uma ameaça ao lar e ao

modo de vida americano”. A Igreja na América vociferava contra a “má vontade de

algumas jovens damas em assumir as responsabilidades do lar e o fardo das tarefas

domésticas”. Ainda assim, um número crescente de imigrantes chegava diariamente à

cidade, e novas pensões abriam as portas. Algumas ofereciam suítes equipadas com

cozinha e até banheira; a maioria, porém, oferecia apenas um quarto com um cabide. À

medida que mais imigrantes desembarcavam, as acomodações se tornavam mais lotadas.

Assim, algumas das pensões se transformaram em fétidos cortiços. Na época em que

imigrantes desafortunados se estabeleciam (ou nasciam) em acomodações violentas e

insalubres, como Five Points ou na outrora elegante Cherry Street, próxima ao rio East,

“pensão” se tornara uma palavra fina demais.

É certo, porém, que La Grande Celine não seria vista nas redondezas de Cherry Street

ou Five Points. Seu estabelecimento ficava na Maiden Lane, próximo à esquina com a

Broadway. E La Grande Celine logo percebeu o que deveria fazer em seguida. Alugou toda

a casa que ficava acima do restaurante. Convidou um antigo amigo, Jeremiah, o ex-

halterofilista do circo, para trabalhar como gerente e garçom. Por fim, o seguinte anúncio

foi publicado em todos os jornais que se prezem:

CASA DE REFEIÇÕES DA CELINE,

MAIDEN LANE,

esquina com BROADWAY

 

A nova proprietária anuncia extensa melhoria no estabelecimento acima,

apresentando um salão de jantar DE CONFORTO E QUALIDADE insuperáveis na

cidade. Tanto a comida quanto a decoração agradarão às pessoas de bom gosto. Em

algumas noites, uma suave música ambiente acompanha as refeições.

Uma mesa especial com biombo está disponível para jantares de mulheres, caso

prefiram.

PS: Convencida por muitos amigos e visitantes, a proprietária agora também oferece

quartos de bom gosto para inquilinos a preços excelentes. Por que pagar mais? Venha

conferir!

MULHERES TRABALHADORAS SÃO BEM-VINDAS PELA PROPRIETÁRIA.

CASA D E CELINE.

MAIDEN LANE

 

***

 

Em uma doce manhã de abril, La Grande Celine abriu a porta da frente respondendo a

uma batida. Quando percebeu que o visitante era um francês, entusiasmou-se (suas

reações eram sempre exageradas). Não importava que tivesse deixado a França com a mãe

igualmente ruiva quando tinha apenas 8 anos de idade, não importava que nem se

lembrasse do pai francês, nem que só conseguisse falar umas poucas frases naquele

idioma. Era uma cidadã americana orgulhosa e leal, mas tinha antepassados franceses e

também tinha orgulho deles: afinal, os franceses não vieram ajudar na revolução

americana? (E, na verdade, os homens franceses eram seu fraco: o amor de sua vida, o

mais passional e inesquecível, fora um acrobata francês grande, elegante e inteligente, com

um enorme bigode preto. Chamava-se Pierre l’Oiseau: Pierre, o pássaro, e ela ainda

pensava nele.)

— Bonjour, Monsieur Roland! — exclamou depois de ele lhe dizer o nome. — Seja

bem-vindo. Sou Celine Rimbaud e também nasci na França.

O velho cavalheiro francês entrou no amplo salão de jantar com paredes repletas de

quadros: pinturas alegres de flores coloridas, uma representação das cataratas do Niágara

e, para sua surpresa, muitos pôsteres em cores vivas. Havia uma grande lareira, que não

estava sendo usada naquela agradável manhã; poltronas e dois grandes sofás eram como

um convite aos hóspedes. Um relógio repousava sobre o console da lareira, com seu

agradável tique-taque. Duas empregadas de pele escura arrumavam talheres pesados sobre grandes guardanapos brancos em várias das mesas do salão, e, no canto, algo

surpreendente: um harmônio com pedais — algo que se esperava encontrar em uma

capela talvez, não em um restaurante. Uma escadaria levava ao segundo andar.

— Bonjour, madame Celine — respondeu ele, notando sua aparência interessante

enquanto ela o observava, séria. — Este salão é deveras agradável. A senhora é a

proprietária com quem posso obter algumas informações?

— Sou a única proprietária. Esta casa pertencia a um dos primeiros comerciantes

ianques — explicou ela, orgulhosa. — E, é claro, conta com água encanada, pois o senhor

bem sabe que Nova York possui água encanada desde a abertura do reservatório. Se o

senhor for recém-chegado à cidade precisa visitar nosso reservatório. Nós o chamamos de

oitava maravilha do mundo!

— Já moro aqui há um bom tempo, madame. E, de fato, nós fomos até a 42nd Street

com grande interesse para ver o famoso Croton Reservoir assim que chegamos. Somos

sempre muito gratos pelo encanamento.

— Eu mesma — contou Celine — já comi em tavernas e dormi em pensões que fariam

um homem chorar e, portanto, tentei fazer algo melhor. — Então, já que eram

conterrâneos, nada lhe agradaria mais do que se sentarem nas poltronas e tomarem um

pouco de café com brandy, enquanto conversavam informalmente antes de falar de

negócios. Ela se desculpou por não falar com ele na língua pátria. Falaram sobre Paris

com um suspiro (embora há anos nenhum deles tenha posto os pés lá), e madame Celine

pareceu ainda mais feliz quando descobriu que Monsieur Roland nascera próximo ao

belíssimo Institut de France, não muito distante da rue de Condé, onde ela vivera quando

criança.

— Ah, Monsieur Roland! — suspirou ela. — Creio que nunca mais verei o amado rio

Sena. Tenho de me contentar com o rio East e o Hudson! — Então, ela soltou uma

gargalhada contagiante e alta. — Estou falando bobagens. Não visito a França há mais de 35

anos! — E começaram a discutir Nova York com espanto: o crescimento, a riqueza, os

habitantes de diversos lugares e os dois rios caudalosos e turbulentos.

— Então, o que posso fazer pelo senhor, Monsieur Roland? — perguntou madame

Celine, enfim falando de negócios, pousando nele o olho bom brilhando de interesse.

— Madame Celine, estou à procura de uma suíte para alugar por longo prazo para sete

pessoas.

— Sete pessoas!

— Sete. Cinco mulheres, as quais apreciaram muito seu anúncio.

Naquele momento, apareceram duas damas descendo as escadas e conversando entre

si. Contornaram as mesas e seguiram para a grande porta de entrada. As saias farfalhavam

de modo agradável, enquanto cumprimentavam madame Celine e seu visitante com um

simpático aceno de cabeça antes de saírem para o sol da manhã. Uma das mulheres

carregava um estojo de violino.

— Cinco mulheres! — exclamou Celine. — Sua esposa, certamente. E filhas talvez?

 

— Sinto dizer que não tenho esposa ou filhas — informou o digno cavalheiro, o que

— Sinto dizer que não tenho esposa ou filhas — informou o digno cavalheiro, o que

despertou interesse e atenção no coração de madame Celine: o coração de Celine sempre

ia direto ao ponto e este senhor era um francês. Homens jovens, com toda sua paixão e

problemas não a interessavam mais, exceto como espécimes fascinantes da raça humana.

Também reconhecia um homem que não gostava de mulheres a vinte passos de distância e

Monsieur Roland certamente não era um deles. Madame Celine talvez não tenha se dado

conta, mas soltou um pequeno suspiro. Imagine, arranjar um digno companheiro francês

(embora velho) aqui na América seria a realização de um sonho e ele conferiria um toque

de classe à CASA DE REFEIÇÕES DE CELINE e a ela também.

— Meus companheiros, madame, são todos da Inglaterra — continuou Monsieur

Roland.

— Ah. — Ela não apreciou muito essa informação. Isso ficou claro.

— O motivo porque ficamos tão cativados pelo seu anúncio é porque duas delas

trabalham também.

— Nossa, fico feliz em ouvir isso. Mas conte-me, no que elas trabalham?

Ele olhou para os pôsteres.

— São mãe e filha e trabalham em um circo.

Celine ficou boquiaberta. Será que esse estranho grupo, composto por sete pessoas,

fazia parte da trupe de um circo?

— Ora, Monsieur Roland, é verdade? Parece o destino! Em que circo trabalham? Pois

eu mesma trabalhei em um circo. Houve uma época em que o circo era a minha vida! — E

o tapa-olho com a pérola de enfeite brilhou com alegria, enquanto indicava os pôsteres. —

Saiba que essa não é mais uma época propícia para os circos. Olhe! Olhe para este

anúncio que tenta promover um novo circo aqui em Nova York. Eu o estava lendo, pronta

para cuspir, quando ouvi o senhor bater na porta.

Então, ela passou-lhe o jornal e apontou o anúncio com o dedo adornado com um

anel.

 

O gerente assegura que este circo está de acordo com a moral e os bons costumes e

livre de quaisquer objeções frequentemente ligadas a esse tipo de entretenimento.

 

Não há mulheres nesta companhia a fim de assegurar a decência dos artistas. Também

não há qualquer número com negros.

 

— Agora, diga-me, Monsieur, isso lá é maneira de se anunciar um circo?

— De fato, madame Celine.

— E olhe aqui! — Ela apontou para o jornal de novo. — “Este circo não satisfaz gostos

depravados!” Meu Deus do céu! O circo é uma profissão honrada, como o senhor bem sabe, que data desde os romanos e os egípcios antigos e até antes! E todos rimos do que

Phineas Barnum fez com seu American Museum na Broadway! — Com seu jeito

exuberante, apontou o dedo na direção da rua. — Pensei que estivesse sonhando a

primeira vez que ouvi que ele baniu todas as bebidas alcoólicas das dependências do museu.

Todos aqui sabem que havia uma dúzia de bares (isso sem mencionar as mulheres

disponíveis) e, por causa da nova “respeitabilidade” que infelizmente surgiu nesta cidade

como uma imitação dos fracassados ingleses, ele agora está fazendo apresentações de

melodramas junto com seu homem-leão, sua sereia e seus anões! O senhor já ouviu falar

de algo assim? Ele os coloca no que chama de “sala de palestras” para que as pessoas

respeitáveis possam dizer a si mesmas que estão assistindo a uma palestra, quando, na

verdade, estão assistindo a uma peça de teatro, é claro, o que agora é algo que decidiram

reprovar. Melodramas, pois sim!

— De fato, madame Celine! Lembro-me de ter sido informado há alguns meses sobre

esses melodramas. — Trazia um sorriso nos lábios, provocado pela exuberância dela.

— Perdoe minha exaltação! — Ela soltou novamente sua gargalhada amigável.

— Compreendo bem o seu fureur, madame. Creio que meus amigos pensam

exatamente como a senhora. É interessante perceber com que rapidez a “respeitabilidade”

se insere até nas sociedades mais modernas e democráticas.

E madame Celine concordou com a cabeça. Estavam em total harmonia, ela e o

francês.

— Em que circo, Monsieur? — indagou. Ela se perguntava se algum deles era acrobata

ou anão; e o que será que este senhor fora em sua época? Um vidente?

— A senhora talvez tenha ouvido falar de Monsieur Silas P. Swift? — perguntou ele.

— Ah, Silas — concordou ela. — Ele é um louco, mas um artista. Costumava ser

muito bem-sucedido aqui em Nova York com seus números exóticos. Ele tentou me

contratar nos meus dias de glória. Mas, pelo que sei, teve de sair em turnê pelo país

fazendo apresentações únicas para ganhar algum dinheiro.

— Temo que seja verdade. Eles fizeram algum sucesso em uma ou outra cidade por

algum tempo, mas agora têm de viajar todas as noites. Entretanto, parece que o Sr. Swift

tem novos planos. Notei que é um homem de muitos planos. Ele chegou a Nova York na

semana passada e fomos informados de que chamou o circo de volta. Estamos felizes, é

claro, porque sentimos muita falta de nossas amigas. Presumimos que talvez haja algum

lugar vago para o circo.

— Deus! Será que ele vai arrancar uma página do livro de Phineas Barnum e chamar o

seu circo de “melodrama qualquer coisa”?

Monsieur Roland sorriu.

— Quem sabe? Já estamos todos acostumados com o Sr. Silas P. Swift e suas mudanças

de planos. Na verdade, quando os circos eram um sucesso em Nova York, ganhávamos

muito bem. Desde que o Sr. Silas começou a turnê, tentamos vários hotéis menores, mas

temo que ainda temos despesas acima dos nossos recursos. Então, sejam quais forem os novos planos do Sr. Silas P. Swift, achamos que alugar nossos próprios quartos em uma

pensão seria uma ideia bastante sensata.

Celine não escondia a alegria.

— O senhor já trabalhou no circo, Monsieur Roland? E os outros também? O senhor

disse que são sete no seu grupo?

Ele entendia o jeito americano. Eles faziam muitas perguntas: é claro que queriam

saber se você tinha dinheiro para pagar, mas também eram curiosos de modo diferente

dos contidos ingleses, com os quais estava bem mais acostumado. Assustara-o no início:

quantos anos o senhor tem?, quanto ganha?, mas agora já estava acostumado. Madame Celine

até podia ter vindo da França, mas certamente era americana.

— Sou o que chamam de mesmerista, madame.

Ela levou as mãos ao coração, muito animada. Os anéis brilhavam em seus dedos na

luminosa manhã de primavera.

— O senhor coloca pessoas em transe? Nossa, qual é mesmo aquela palavra moderna

que ouvi? Hipnotizar. O senhor hipnotiza as pessoas? No circo?

— Meu trabalho costumava ser realizado em hospitais. Eu podia ajudar os cirurgiões

em operações. Posso mesmerizar os pacientes de modo que não sintam dor durante a

cirurgia.

— Ah, Monsieur Roland — suspirou madame Celine, que conhecera muita dor,

concordando com a cabeça. — Quisera eu tê-lo conhecido antes!

Monsieur Roland deu um sorriso amargo.

— Temo que a descoberta primeiro do éter e agora de outros gases como anestésicos

signifique que o meu trabalho em hospitais seja bastante dispensável hoje em dia. Então,

agora tenho um pequeno consultório de mesmerismo na Nassau Street. Ainda posso

ajudar as pessoas a lidarem com diversos tipos de dor.

Por um momento, madame Celine apenas olhou para o homem. Viu o cabelo branco,

os olhos gentis e sábios e a postura ereta que mantinha. E ainda é francês. Ele seria perfeito

para mim! E foi naquele exato momento que madame Celine Rimbaud, que se encantava

com bastante frequência, se apaixonou (à sua maneira) pelo Monsieur Alexander Roland.

— E... Seus outros amigos, Monsieur Roland? — Seu coração batia forte. Será que tem

uma amante? Afinal, é francês! Deve ter uma amante.

— Somos um grupo de pessoas que o destino uniu há muito tempo. Assim como as

duas artistas de circo, as duas damas idosas. — (Os olhos de madame Celine brilharam de

alívio.) — E a filha de uma dessas senhoras, a Srta. Amaryllis Spoons — (Ela ouviu a voz

dele se suavizar e sentiu o coração doer.) —, que cuida dos assuntos domésticos de forma

admirável.

— Entendo.

— Somos uma família pouco comum. — A palavra família foi uma punhalada em suas

expectativas. — Também inclui um detetive da polícia de Londres, o inspetor Arthur

Rivers.

 

Os olhos dela endureceram, ou melhor, o olho que ele podia ver ganhou um brilho

Os olhos dela endureceram, ou melhor, o olho que ele podia ver ganhou um brilho

inflexível. Definitivamente não se tratava de uma trupe de circo.

— A Casa de Celine não é um estabelecimento para um policial, Monsieur Roland.

Outras pessoas que vivem na pensão poderiam se sentir desconfortáveis com isso.

Membros da polícia de Nova York não são lá os cidadãos mais populares. Monsieur é

estrangeiro e talvez não compreenda. O senhor sabia que eles nem precisam usar

uniforme ou quepe? Apenas uma pequena estrela de cobre serve como identificação.

Apenas uma estrela porque sabem que não são populares!

Monsieur Roland ergueu-se com pesar.

— Então, sinto muito por ter feito a senhora perder seu valioso tempo, madame, mas

foi um grande prazer conhecê-la. Embora ele precise ficar frequentemente no

departamento de polícia próximo à prefeitura por causa do trabalho, esse oficial da

polícia faz parte da nossa família.

Aquela palavra de novo. Família. Ela quase o deixou partir, apesar do coração

romântico que carregava no peito. Detestava a polícia de Nova York. Todavia, viu uma vez

mais — e mal podia articular a palavra para si — a beleza dele. Quem poderia pensar que

La Grande Celine, com sua vida repleta de aventuras, um dia acharia um homem velho

belo?

— Monsieur Roland. — Ela também se levantou.

— Madame Celine.

— Lembro-me de que havia policiais gentis em Londres, guardando a paz em seus

uniformes.

— Inspetor Rivers é um dos melhores homens que já tive a sorte de conhecer.

— Talvez ele possa ajudar a manter a paz na cidade! Muitas greves violentas têm

ocorrido.

— Creio que peçam a opinião dele sobre esse e outros assuntos.

— Entendo. — Ela estava considerando a possibilidade. — Um grupo de sete, o senhor

disse. — Os braços estavam cruzados e ela batia os dedos nos braços. — Então, deixe-me

ver se compreendi corretamente: dois cavalheiros, o senhor e o oficial de polícia. Duas

senhoras idosas e a filha de uma delas. E apenas duas artistas do circo: mãe e filha. — Ele

concordou com a cabeça e não elaborou mais as relações que tinham entre si ou explicou

como um grupo de pessoas tão diferentes se uniu. De qualquer forma, La Grande Celine

resolveu investigar isso posteriormente. Naquele momento, disse apenas: — Será que as

senhoras idosas conseguirão subir as escadas?

— Desta agradável casa?

— Sim. Sinto informar que são cinco lances de escada.

— Creio que elas consigam. As capacidades físicas de ambas ainda funcionam muito

bem. — Não mencionou as faculdades mentais.

— O senhor, é claro, também conseguiria? — Mas ela sorria ao dizer isso, em tom de

provocação, jogando o cabelo ainda cor de fogo para o lado. A pérola no tapa-olho

brilhou ao refletir a luz do sol primaveril que entrava pelas janelas.

— Creio que eu consiga dar conta dos degraus — sorriu ele, gentil.

— Que pergunta tola. Claro que o senhor consegue. O último andar da casa é um

grande sótão, onde há quatro quartos pequenos e uma sala de estar e está prestes a ser

desocupado. Há até uma cozinha, embora eu assegure que a comida que servimos em

meu restaurante seja inigualável tanto em qualidade quanto em preço e muitos dos meus

hóspedes comem aqui regularmente. E seu próprio banheiro! — Ela abriu os braços

como se estivesse lhe oferecendo o paraíso. — É como se o destino conspirasse. O último

andar será desocupado em três ou quatro dias porque a família inteira que mora ali,

incluindo duas crianças pequenas, partirá para a Califórnia! Duas crianças pequenas! Este

é o mundo louco da corrida do ouro, Monsieur! E precisamos discutir os termos.

— Sem dúvida. Precisamos discutir os termos e as escadas, mas asseguro-lhe de que

somos um grupo intrépido. Trarei a Srta. Amaryllis Spoons para avaliar os cômodos com

a senhora.

Madame Celine tinha certeza de que não gostaria da Srta. Amaryllis Spoons. Por outro

lado, não queria deixar seu conterrâneo partir.

— Muito bem, Monsieur Roland. Vejamos se conseguiremos chegar a um acordo. —

Acompanhou-o até a grande porta da frente. — Se me permite dizer, essa sua família é

bastante estranha. Mas é claro que existem inúmeros grupos estranhos de pessoas em

Nova York.

Monsieur Roland nada disse, mas deu um sorriso sério e La Grande Celine sentiu

uma vontade repentina de pegar-lhe a mão e beijá-la, mas conteve tal ímpeto.

 

La Grande Celine e a Srta. Amaryllis Spoons se deram bem como uma casa em chamas,

como se dizia na época (principalmente em Nova York, onde, de fato, ocorriam muitos

incêndios — o sino de incêndio, que ficava no topo da prefeitura, onde sempre havia um

vigia, tocava a qualquer hora do dia ou da noite e bombeiros voluntários puxando

equipamentos concorrentes contra fogo brigavam entre si para chegarem ao cano de água

da rua primeiro).

— Pode me chamar de Rillie — declarou a Srta. Spoons. — Todo mundo me chama de

Rillie.

— Pode me chamar de Celine — respondeu La Grande Celine.

Era impossível não gostar de Rillie — pequena, roliça, calorosa, agitada e tão amável

com a pobre mãe idosa que (ficou claro para Celine na hora) era louca. A outra senhora

chamava-se Regina (nome bastante inadequado na América democrática, pensou). Regina

era barulhenta e esquisita, mas não apresentava sinais óbvios de loucura, no sentido

literal da palavra. Rillie, Monsieur Roland e essas duas senhoras idosas mudaram-se para

o sótão da pensão em Maiden Lane assim que a família que ali morava partiu para a

Califórnia. Os novos pensionistas tiveram a ajuda do gerente e garçom, Jeremiah, e do

policial inglês, inspetor Arthur Rivers para subirem com seus pertences, incluindo uma

gaiola contendo um cantante canário amarelo. O inspetor Rivers era tão gentil quanto Monsieur Roland o descrevera, além de (Celine percebeu) deveras atraente; por algum

motivo, nem usava a estrela da polícia o tempo todo, e os outros residentes não

precisariam ser avisados. De forma cortês, explicou à madame Celine que costumava

trabalhar à noite e que precisaria entrar e sair em horários pouco convencionais. Madame

Celine logo decidiu que não se tratava de um policial nova-iorquino comum, mas sim de

alguém bastante confiável. Assim (apesar de ele ser inglês), decidiu lhe dar uma cópia da

longa chave de ferro da porta da frente. As duas outras damas estavam a caminho de Nova

York com o circo e chegariam na semana seguinte, conforme instruções do Sr. Silas P.

Swift e, na Maiden Lane, seu novo lar as aguardava. Enquanto levava um prato de broas de

milho assadas como boas-vindas para o sótão, notou que Monsieur Roland se acomodou

no pequeno quarto do canto que estava mais para um armário ou uma cela, contando

com uma cama estreita, um cabide e uma janela no telhado. Afirmou que lhe serviria

maravilhosamente bem. O coração de Celine encheu-se de esperanças: talvez não houvesse

uma amante. Ainda estavam desfazendo as malas: não apareceu qualquer outra pista sobre

a qual Celine pudesse matutar.

Quanto a Rillie Spoons (que adorava quase todas as coisas da América), esta ficou

fascinada por La Grande Celine: o entusiasmo, as pretensões francesas, os anéis, o tapa-

olho brilhante, a gargalhada sonora e a bondade. Rillie notou imediatamente o efeito que

Monsieur Roland despertava na proprietária da pensão e embora talvez não tenha dado

todas as informações de que dispunha (pois Rillie sabia que Monsieur Roland tivera um

grande amor em sua longa vida), ela assegurou a Celine de forma sincera que, embora

conhecesse Monsieur Roland há anos e soubesse muito sobre o seu trabalho, acreditava

que ele jamais havia se casado.

Celine cantava antigas músicas francesas que esquecera que sabia enquanto

supervisionava as empregadas negras.

 

Frère Jacques

Dormez-vous?

 

Cantarolava enquanto ajudava os cozinheiros a tirar as ostras das conchas para preparar

as tortas.