O Circo dos Fantasmas
Capítulo 38
Clorofórmio. Não foi o éter, nem o óxido nitroso que os anões usavam todos os dias
depois do espetáculo para ficarem “altos”. Clorofórmio.
Gwenlliam sabia que era clorofórmio.
Já sentira o cheiro antes: os anões experimentaram clorofórmio, mas o descartaram;
também cheirara a substância no hospital com Monsieur Roland. Então, reconheceu na
hora: o odor estranho e ligeiramente adocicado.
Não fazia ideia de onde se encontrava, ou há quanto tempo estava ali, mas percebeu
um leve movimento. Talvez estivesse em uma carruagem silenciosa com cavalos trotando
suavemente sobre a relva do campo. Estava sendo levada por cavalos silenciosos. Não
abriu os olhos — na verdade era muito difícil abri-los, pareciam tão pesados... Preferiu
flutuar... Flutuar por sobre os campos. Estava sendo levada, devagar, vagando até chegar,
abruptamente, aos próprios pensamentos. O circo, o trapézio vazio balançando em um
vaivém lento enquanto os mineradores gritavam, aplaudiam e cuspiam tabaco como
sempre faziam. Os mineradores se esparramando pelas tavernas e assediando as
garçonetes como de costume, é a minha vez de dançar, encontrando-se com outros
acrobatas na penumbra iluminada por lampiões, perambulando pelas tendas de apostas,
jogando, ganhando? Então, uma lembrança fugaz de estar caminhando, caminhando e
ouvindo passos. Será que eram passos? Mas precisava se esforçar muito para pensar nos
passos, então, se deixou flutuar pelos campos de sonhos levada por cavalos silenciosos e
graciosos.
E, então, lembrou-se.
Algum instinto imediato fez com que mantivesse os olhos fechados. Tentou escutar
algo. Um som. Um som como a correnteza de um rio... Estavam sentados à beira do rio
fora de pequenas cidades, enquanto ela, os engolidores de fogo, os acrobatas e o cacique
jogavam cartas, o bebê elefante esguichava água por cima da cabeça e Peggy Walker
costurava sem parar. Peggy Walker. Onde estou? Novamente escutou o som, o rio, e então
ouviu: o estalar de uma vela atingida diretamente pelo vento. Estou em um barco e alguém
colocou clorofórmio no meu rosto. Ainda conseguia sentir o cheiro, mesmo que fraco, da
substância como se estivesse impregnado na sua pele ou no seu cabelo.
De novo, o som de uma vela ao vento. Clorofórmio. Já ouvira histórias. Garotas jovens
dominadas por homens diabólicos que usavam clorofórmio para satisfazer seus desejos perversos. Analisou a si mesma, com cuidado, sem abrir os olhos, para verificar se havia
sido vítima de tais desejos, mas parecia bem e — de maneira delicada e suave tentou se
mover, mexeu um braço, depois outro e as pernas — ainda estava completamente vestida,
os pés ainda calçavam as pequenas botas.
Clorofórmio. O que aquele cirurgião do hospital dissera sobre essa substância?
Clorofórmio administrado da forma errada pode causar uma parada cardíaca. Seu coração, é
claro, não havia parado, pois podia senti-lo, batendo forte no peito enquanto uma onda
de pensamentos passava por sua cabeça. Uma vez mais, escutou o som de velas ao vento.
Mas onde estou?
Tentou se lembrar mais uma vez de quando voltava da tenda de apostas, havia ganhado
vinte dólares e os guardara no bolso da capa. Lembrou-se de ter acenado boa noite para
os charros, que cuidavam dos cavalos, para uma das acrobatas que estivera no salão de
dança e que passeava de braços dados com o proprietário de uma das lojas. Lembrava-se
de ter acenado para os anões reunidos na esquina onde um dos médicos mostrava
remédios, acenava para as pessoas e caminhava, viu as luzes do hotel para onde Peggy
Walker se encaminhara um pouco antes para ferver água e, então, passos, passos atrás
dela e... Nada mais... Apenas a escuridão.
Naquele momento, uma luz pareceu se acender em sua mente... Se abrisse os olhos
agora ela o veria: Sr. Doveribbon, o filho do advogado.
Respirava de forma suave e gentil como se ainda dormisse.
Compreendeu com absoluta clareza. Sua fortuna não poderia ser reivindicada se não
estivesse lá para cuidar do avô, e como optara por não se associar com o Sr. Doveribbon,
ele usara clorofórmio para garantir sua presença. Uma quantidade excessiva de clorofórmio
poderia causar uma parada cardíaca. Será que ele estava ciente dessa importante
informação?
Manteve a respiração suave e lenta.
Sr. Doveribbon cometera um erro, pois Gwenlliam Preston nunca, nunca mesmo,
cooperaria com algum membro da família do duque de Llannefydd, que parecia achar
perfeitamente aceitável sequestrá-la duas vezes e afastá-la de sua vida.
Manteve a respiração suave e lenta enquanto seguia com suas deduções.
Peggy Walker sabia de tudo. Será que Peggy desconfiava do que realmente acontecera?
Peggy escreveria para Nova York de imediato. No entanto, uma carta não chegaria a Nova
York mais rápido do que uma pessoa e não havia nenhum posto telegráfico que ligasse
Nova York a São Francisco para que levasse sua mensagem. Arthur. Arthur era um
policial, um policial de verdade, um detetive da Scotland Yard. Peggy encontraria uma
maneira de enviar uma carta urgente para Nova York. Os charros a ajudariam. Arthur era
um detetive. Ele a encontraria...
A respiração continuava calma.
Será que o Sr. Doveribbon planejara a viagem pela rota segura, contornando o Cabo, a
rota que ele conhecia, ou será que optara pela rota mais rápida e perigosa, através do
istmo do Panamá? De alguma forma, a sensação que tinha era de que estava em um barco pequeno. Se esse fosse o caso, a embarcação deveria seguir de São Francisco até o Panamá.
Ela percebera o interesse dele por outras rotas: será que estava considerando atravessar o
temido istmo? Ou talvez tomar a rota pelo México? Se gritasse naquela loucura que era o
Panamá, quem a escutaria? O Sr. Doveribbon sabia que ela tinha família em Nova York.
Será que sabia que estariam procurando por ela? Caso se recusasse a seguir com ele, será
que, sem conhecer os riscos, continuaria a drogá-la com clorofórmio, provocando, talvez,
uma parada cardíaca? Será que deveria resistir? Ou seria melhor viajar de maneira
tranquila de volta a Nova York sob a proteção do Sr. Doveribbon?
Gwenlliam não estivera presente quando Cordelia Preston e Peggy Walker concluíram
que ela era uma garota sensata e corajosa. A corajosa e sensata Gwenlliam Preston, agora
conhecida como A ACROBATA CLARIVIDENTE (que, ora, vejam, não possuía os
poderes clarividentes para prever a situação em que se encontrava), compreendeu que
tinha apenas uma opção naquele momento: ser sensata (pelo menos até descobrir os
planos dele), e depois ser corajosa (quando tentasse frustrá-los). Serei sensata e agradável
até chegarmos ao Panamá e, então, de alguma forma, vou fugir e voltar para São Francisco.
Ela se perguntou o que teria acontecido com os vinte dólares que ganhara no pôquer.
Será que ainda estavam no bolso de sua capa?
Com a respiração ainda lenta e suave, começou a dar pequenos suspiros como se
estivesse despertando apenas naquele momento e, por fim, abriu os olhos e viu, sob a luz
que entrava por uma pequena escotilha elevada, o Sr. Doveribbon (como previra sem a
necessidade de poderes mágicos). Ele estava sentado em um pequeno banco e a observava.
Ela olhou ao redor da pequena cabine. Conseguia ver o céu azul através da diminuta
janela, podia sentir o mar: tinha certeza de que se tratava de um barco pequeno, não um
grande. Parecia estar na cama de baixo de um beliche. Havia uma pequena mala:
provavelmente dele, já que ela não tivera a chance de arrumar as próprias malas. Não
havia qualquer sinal visível de um recipiente de clorofórmio, mas não queria correr
riscos.
— Olá, Sr. Doveribbon — cumprimentou Gwenlliam. — É melhor usar essa substância
com bastante cuidado ou poderá acabar com uma herdeira morta em suas mãos. — Ela se
sentou. — O senhor sabia que clorofórmio, administrado da forma errada, pode causar
uma parada cardíaca?