O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 39 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 38

 

 

Clorofórmio. Não foi o éter, nem o óxido nitroso que os anões usavam todos os dias

depois do espetáculo para ficarem “altos”. Clorofórmio.

Gwenlliam sabia que era clorofórmio.

Já sentira o cheiro antes: os anões experimentaram clorofórmio, mas o descartaram;

também cheirara a substância no hospital com Monsieur Roland. Então, reconheceu na

hora: o odor estranho e ligeiramente adocicado.

Não fazia ideia de onde se encontrava, ou há quanto tempo estava ali, mas percebeu

um leve movimento. Talvez estivesse em uma carruagem silenciosa com cavalos trotando

suavemente sobre a relva do campo. Estava sendo levada por cavalos silenciosos. Não

abriu os olhos — na verdade era muito difícil abri-los, pareciam tão pesados... Preferiu

flutuar... Flutuar por sobre os campos. Estava sendo levada, devagar, vagando até chegar,

abruptamente, aos próprios pensamentos. O circo, o trapézio vazio balançando em um

vaivém lento enquanto os mineradores gritavam, aplaudiam e cuspiam tabaco como

sempre faziam. Os mineradores se esparramando pelas tavernas e assediando as

garçonetes como de costume, é a minha vez de dançar, encontrando-se com outros

acrobatas na penumbra iluminada por lampiões, perambulando pelas tendas de apostas,

jogando, ganhando? Então, uma lembrança fugaz de estar caminhando, caminhando e

ouvindo passos. Será que eram passos? Mas precisava se esforçar muito para pensar nos

passos, então, se deixou flutuar pelos campos de sonhos levada por cavalos silenciosos e

graciosos.

E, então, lembrou-se.

Algum instinto imediato fez com que mantivesse os olhos fechados. Tentou escutar

algo. Um som. Um som como a correnteza de um rio... Estavam sentados à beira do rio

fora de pequenas cidades, enquanto ela, os engolidores de fogo, os acrobatas e o cacique

jogavam cartas, o bebê elefante esguichava água por cima da cabeça e Peggy Walker

costurava sem parar. Peggy Walker. Onde estou? Novamente escutou o som, o rio, e então

ouviu: o estalar de uma vela atingida diretamente pelo vento. Estou em um barco e alguém

colocou clorofórmio no meu rosto. Ainda conseguia sentir o cheiro, mesmo que fraco, da

substância como se estivesse impregnado na sua pele ou no seu cabelo.

De novo, o som de uma vela ao vento. Clorofórmio. Já ouvira histórias. Garotas jovens

dominadas por homens diabólicos que usavam clorofórmio para satisfazer seus desejos perversos. Analisou a si mesma, com cuidado, sem abrir os olhos, para verificar se havia

sido vítima de tais desejos, mas parecia bem e — de maneira delicada e suave tentou se

mover, mexeu um braço, depois outro e as pernas — ainda estava completamente vestida,

os pés ainda calçavam as pequenas botas.

Clorofórmio. O que aquele cirurgião do hospital dissera sobre essa substância?

Clorofórmio administrado da forma errada pode causar uma parada cardíaca. Seu coração, é

claro, não havia parado, pois podia senti-lo, batendo forte no peito enquanto uma onda

de pensamentos passava por sua cabeça. Uma vez mais, escutou o som de velas ao vento.

Mas onde estou?

Tentou se lembrar mais uma vez de quando voltava da tenda de apostas, havia ganhado

vinte dólares e os guardara no bolso da capa. Lembrou-se de ter acenado boa noite para

os charros, que cuidavam dos cavalos, para uma das acrobatas que estivera no salão de

dança e que passeava de braços dados com o proprietário de uma das lojas. Lembrava-se

de ter acenado para os anões reunidos na esquina onde um dos médicos mostrava

remédios, acenava para as pessoas e caminhava, viu as luzes do hotel para onde Peggy

Walker se encaminhara um pouco antes para ferver água e, então, passos, passos atrás

dela e... Nada mais... Apenas a escuridão.

Naquele momento, uma luz pareceu se acender em sua mente... Se abrisse os olhos

agora ela o veria: Sr. Doveribbon, o filho do advogado.

Respirava de forma suave e gentil como se ainda dormisse.

Compreendeu com absoluta clareza. Sua fortuna não poderia ser reivindicada se não

estivesse lá para cuidar do avô, e como optara por não se associar com o Sr. Doveribbon,

ele usara clorofórmio para garantir sua presença. Uma quantidade excessiva de clorofórmio

poderia causar uma parada cardíaca. Será que ele estava ciente dessa importante

informação?

Manteve a respiração suave e lenta.

Sr. Doveribbon cometera um erro, pois Gwenlliam Preston nunca, nunca mesmo,

cooperaria com algum membro da família do duque de Llannefydd, que parecia achar

perfeitamente aceitável sequestrá-la duas vezes e afastá-la de sua vida.

Manteve a respiração suave e lenta enquanto seguia com suas deduções.

Peggy Walker sabia de tudo. Será que Peggy desconfiava do que realmente acontecera?

Peggy escreveria para Nova York de imediato. No entanto, uma carta não chegaria a Nova

York mais rápido do que uma pessoa e não havia nenhum posto telegráfico que ligasse

Nova York a São Francisco para que levasse sua mensagem. Arthur. Arthur era um

policial, um policial de verdade, um detetive da Scotland Yard. Peggy encontraria uma

maneira de enviar uma carta urgente para Nova York. Os charros a ajudariam. Arthur era

um detetive. Ele a encontraria...

A respiração continuava calma.

Será que o Sr. Doveribbon planejara a viagem pela rota segura, contornando o Cabo, a

rota que ele conhecia, ou será que optara pela rota mais rápida e perigosa, através do

istmo do Panamá? De alguma forma, a sensação que tinha era de que estava em um barco pequeno. Se esse fosse o caso, a embarcação deveria seguir de São Francisco até o Panamá.

Ela percebera o interesse dele por outras rotas: será que estava considerando atravessar o

temido istmo? Ou talvez tomar a rota pelo México? Se gritasse naquela loucura que era o

Panamá, quem a escutaria? O Sr. Doveribbon sabia que ela tinha família em Nova York.

Será que sabia que estariam procurando por ela? Caso se recusasse a seguir com ele, será

que, sem conhecer os riscos, continuaria a drogá-la com clorofórmio, provocando, talvez,

uma parada cardíaca? Será que deveria resistir? Ou seria melhor viajar de maneira

tranquila de volta a Nova York sob a proteção do Sr. Doveribbon?

Gwenlliam não estivera presente quando Cordelia Preston e Peggy Walker concluíram

que ela era uma garota sensata e corajosa. A corajosa e sensata Gwenlliam Preston, agora

conhecida como A ACROBATA CLARIVIDENTE (que, ora, vejam, não possuía os

poderes clarividentes para prever a situação em que se encontrava), compreendeu que

tinha apenas uma opção naquele momento: ser sensata (pelo menos até descobrir os

planos dele), e depois ser corajosa (quando tentasse frustrá-los). Serei sensata e agradável

até chegarmos ao Panamá e, então, de alguma forma, vou fugir e voltar para São Francisco.

Ela se perguntou o que teria acontecido com os vinte dólares que ganhara no pôquer.

Será que ainda estavam no bolso de sua capa?

Com a respiração ainda lenta e suave, começou a dar pequenos suspiros como se

estivesse despertando apenas naquele momento e, por fim, abriu os olhos e viu, sob a luz

que entrava por uma pequena escotilha elevada, o Sr. Doveribbon (como previra sem a

necessidade de poderes mágicos). Ele estava sentado em um pequeno banco e a observava.

Ela olhou ao redor da pequena cabine. Conseguia ver o céu azul através da diminuta

janela, podia sentir o mar: tinha certeza de que se tratava de um barco pequeno, não um

grande. Parecia estar na cama de baixo de um beliche. Havia uma pequena mala:

provavelmente dele, já que ela não tivera a chance de arrumar as próprias malas. Não

havia qualquer sinal visível de um recipiente de clorofórmio, mas não queria correr

riscos.

— Olá, Sr. Doveribbon — cumprimentou Gwenlliam. — É melhor usar essa substância

com bastante cuidado ou poderá acabar com uma herdeira morta em suas mãos. — Ela se

sentou. — O senhor sabia que clorofórmio, administrado da forma errada, pode causar

uma parada cardíaca?