O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 38 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 37

 

Mais tarde, naquela mesma noite quente, úmida e insuportável de Nova York, quando La

Grande Celine contava os ganhos do dia e estava prestes a se despedir das duas criadas

negras, Maybelle e Blossom, que sempre ficavam com ela até que encerrasse o trabalho

para só depois descerem para o pequeno quarto que ocupavam no porão, ouviram uma

batida na grande porta da frente.

— Sempre há alguém chamando — reclamou ela para as garotas. — E é sempre a

mesma ladainha: só mais uma bebida, Celine, só mais uma dose!

Ainda assim, ela pediu que as garotas ficassem um pouco mais, pegou o grande bastão

que mantinha sob a mesa do caixa. Jeremiah já fora embora; os inquilinos na pensão,

assim que se mostravam dignos de confiança, recebiam uma cópia da chave. Caminhou

até a porta e a abriu, pronta para usar o bastão se necessário fosse.

Havia uma figura parada na escuridão. Elas conseguiram sentir o cheiro dele

(presumindo-se que fosse um homem), antes de conseguirem realmente enxergá-lo.

— Já fechamos — informou Celine, firme, fechando a porta novamente, mas antes que

o fizesse, o homem perguntou:

— Sra. Cordelia Preston? Estou no lugar certo?

Elas ouviram um carregado sotaque irlandês.

La Grande Celine pegou-lhe pelo braço e o puxou para dentro.

— O que aconteceu? — perguntou ela, sabendo que o inspetor Arthur Rivers não se

encontrava ali e temendo receber notícias das docas sobre sua segurança, pois ninguém

conseguira esquecer os tumultos de Astor Place.

O homem era tão magro que parecia prestes a quebrar. Celine conseguia sentir seus

ossos. Vestia farrapos; a barba, o bigode e os cabelos estavam imundos. Os sapatos não

passavam de uma sola esburacada e uma tira de couro. Nos ombros, carregava uma bolsa

gasta. Perceberam na hora que o homem mal se aguentava em pé. Com o auxílio de

Blossom, ele se sentou cuidadosamente no sofá próximo à porta e puxou a bolsa para a

frente do corpo com grande dificuldade, como se já estivesse sem forças.

— Pelo amor de Deus, abram — pediu ele, quase sem fôlego. — Uma carta.

— Pegue uma dose de uísque — ordenou Celine a Maybelle.

Blossom se ajoelhou aos pés do homem e abriu a bolsa. Por um breve momento, o

irlandês pareceu se ofender ou estar enojado com o fato de uma negra estar tão próxima dele, mas não tinha forças para fazer nem para dizer algo. Celine se agachou tentando não

vomitar pelo mau cheiro que o homem emanava e olhou dentro da bolsa. Ali, havia uma

carta embrulhada em uma tira de tecido imunda, uma carta endereçada — a tinta escorrera

um pouco, mas ainda dava para ler — SRA. CORDELIA PRES e CASA DE CEL. No

remetente, lia-se DE SILAS P.

— Rápido! — exclamou Celine para Maybelle enquanto levava a dose de uísque aos

lábios do homem. — Chame Cordelia.

Ouviram os pés de Maybelle correndo escada acima e, depois, vários passos descendo

apressados. Cordelia e Rillie foram as primeiras a chegar, ambas já de camisola, seguidas

por Monsieur Roland, que ainda segurava o livro que estivera lendo e os óculos de

leitura.

Celine entregou a carta a Cordelia e esta percebeu que a caligrafia quase ilegível não era

de sua filha. Ela se inclinou para o homem.

— O senhor está vindo da Califórnia?

— Sim e eu voltei — respondeu ele com dificuldade. — É um lugar selvagem e muito

ruim e ela não deveria estar lá. — Ele pareceu, de repente, ter recebido uma onda de

energia ou de raiva. — É como uma fossa de homens se rastejando e morrendo à procura

de ouro. A cidade do Panamá é uma visão do inferno com todos indo e vindo e para quê?

— Então, mesmo com a ajuda do uísque, ou por causa disso, ele caiu para trás, nos

braços de Blossom que, heroicamente, ignorou o fedor de suas roupas e do seu corpo.

— Será que ele morreu? — perguntou Rillie, temerosa.

Blossom aproximou o ouvido do peito do homem.

— Não, madame — respondeu ela. — Consigo escutar o coração dele batendo.

O homem abriu os olhos por um instante.

— Ela é um anjo dos céus — declarou ele.

— Eu? — indagou Blossom, um tanto ofendida. O desdém que ela sentia pelo irlandês

era o mesmo que os irlandeses nutriam pelos negros.

— Tem um lugar nos fundos — disse Celine e ela, Blossom e Monsieur Roland entre

ambas, ergueram o homem inconsciente e todos arfaram quando três pepitas de ouro

caíram da bolsa esfarrapada. Rillie as colocou de volta. Carregaram o homem até uma

cama em um pequeno quarto que mais parecia um armário de louças e o deitaram ali.

Colocaram a bolsa ao seu lado e ele abriu os olhos por mais uma vez.

— Ela levou o meu irmão para o Céu — informou ele. Ela é um anjo, mas agora... —

Ele foi sacudido por um espasmo. — Agora eu cruzei o istmo e meus camaradas

morreram como o meu irmão e não me importo se eu morrer ou não. — Então fechou

os olhos novamente.

Pensaram que estava delirando. Rillie murmurou para ele:

— O senhor está em casa e em segurança. — Mas voltou-se para Monsieur Roland e

sussurrou em tom urgente: — será que ele está dizendo que Gwennie está morta?

— Corra até a casa do nosso vizinho médico, Blossom — ordenou Celine. E Blossom

logo partiu, mas Celine meneou a cabeça, com cenho franzido, enquanto observava o homem. — Será que você poderia ficar com ele, Maybelle — perguntou ela, em tom de

desculpas.

— Ele realmente não pode ficar sozinho — respondeu Maybelle, mas ela se posicionou

o mais longe possível do irlandês.

Os outros voltaram para o salão onde Cordelia os aguardava sentada: corajosa, estoica

e valente. Cordelia Preston estava temerosa demais para abrir a carta sozinha. Segurava nas

mãos o envelope imundo e olhava fixamente para a letra estranha, enquanto esperava por

eles. Então, a porta da frente se abriu e Arthur Rivers entrou, segurando nas mãos as

próprias cartas. Pareceu bastante surpreso ao ver as pessoas com roupas de dormir

reunidas ali no salão de jantar. Então, percebeu a expressão no rosto da esposa.

— Um homem trouxe notícias de Gwenlliam — sussurrou Cordelia. — Não é a letra

dela.

Arthur não teve tempo de fazer qualquer pergunta, pois o médico chegou logo em

seguida.

— Rápido — pediu ele. — Eles estão trazendo a febre.

— O que quer dizer? Febre? — perguntou Cordelia, assustada.

Ele respondeu de forma sucinta:

— Cólera. Onde ele está?

Celine acompanhou o médico até o pequeno quarto, o policial os seguiu, enfiando as

suas cartas no bolso da capa.

— Ele trouxe uma carta para Cordelia da Califórnia — explicou Celine. — Não

sabemos nada mais sobre ele.

O homem estava inconsciente. O médico o examinou com bastante cuidado.

— Os senhores têm muita sorte — declarou ele depois de alguns minutos. Ou talvez

estivesse falando com o homem inconsciente. Era difícil saber. Mas, então, ele se voltou

para Celine e Arthur. — Sabemos que os viajantes estão pegando cólera na viagem de volta

da Califórnia. Foi por isso que vim tão rápido. Ele não está nada bem, mas não está com

cólera. É bem provável que sobreviva. Quem é ele?

Arthur respondeu:

— Acabei de olhar na bolsa dele, mas não há qualquer documento informando sua

identidade, encontrei apenas algumas pepitas de ouro e alguns farrapos.

— É provável que sobreviva — repetiu o médico. — Mas queimem os farrapos.

Homem de sorte de ter chegado à casa de Celine. Ele deve morar em Five Points!

Alimentem-no e deixem que durma por muito tempo.

A carta era de Peggy Walker. Cordelia, por fim, segurou as folhas nas mãos, que

ficaram trêmulas quando percebeu quem era a remetente e que a carta fora escrita há dois

meses e meio.

 

Que rida Co rde lia,

 

Não s e i b e m co mo co me çar e s ta carta, e ntão me rg ulh are i de cab e ça no as s unto p o rque Não s e i b e m co mo co me çar e s ta carta, e ntão me rg ulh are i de cab e ça no as s unto p o rque

a carta p re cis a s e r le vada às do cas de ntro de uma h o ra. Silas e do is do s líde re s do s

mine rado re s já s e g uiram p ara ve rificar o único navio que p artirá de São Francis co

h o je , talve z h aja o utro s e e le o rde no u a um do s ch arro s p ara e s p e rar p o r e s ta carta e ,

e ntão , g alo p ar o mais ráp ido que p ude r p ara s e r e ntre g ue a alg uém de co nfiança

p artindo naque le navio , alg uém que te nh a o p tado p o r to mar a ro ta p e la cidade do

Panamá. E s te é o caminh o mais ráp ido p ara que a carta ch e g ue até vo cê.

E g raças a De us vo cê de cidiu me co ntar a h is tória de Gwe n. Cas o co ntrário e u não

e nte nde ria nada.

Gwe nlliam de s ap are ce u. Ou me lh o r: ach amo s que s ab e mo s o que aco nte ce u e e la fo i

le vada p o r um ing lês . E s s e h o me m ch e g o u h á alg um te mp o a São Francis co , fing indo

s e r um ing lês e ncantado r e ag radáve l — um daque le s que re alme nte s ão b o nito s p o r fo ra,

mas , na ve rdade , p o s s ue m almas ne g ras . Vo cê s ab e , aque le s que ach am que s ão um

p re s e nte de De us . Ach o que vo cê co nh e ce o tip o , Co rd, e , p ara falar a ve rdade , e le s

não s e dão muito b e m p o r aqui. De qualque r fo rma, ach amo s que e le e s tava ag uardando

p e la te mp o rada de mine ração , co mo to do s o s o utro s . E le dis s e que e ra fã do circo , s e

ap re s e nto u co mo um lo rde e re clamo u s o b re co mo de mo rara p ara ch e g ar até aqui, 1 32

dias no mar, e le s e mp re re p e tia co mo s e fo s s e o único viajante e ntre nós ! Vivia

p e rg untando s e não s e ria mais ráp ido viajar p o r te rra, mas nós co ntamo s a e le s o b re a

viag e m p e lo is tmo e to das as dificuldade s que e nfre ntamo s e e le e xclamo u: “ Nunca

atrave s s are i uma flo re s ta tro p ical ch e ia de co b ras !” E ntão , s e calo u. De p o is de alg uns

dias , Gwe n e njo o u da co ns tante p re s e nça de le , qualque r um p e rce b ia is s o . Mas e le não

s e afas tava. Po r fim, ins is tiu que tinh a de falar co m e la a s ós s o b re as s unto s imp o rtante s .

To do s imag inamo s que a tinh a vis to no circo e s e ap aixo nara p o r e la. E xis te m vário s

cas o s as s im p o r aqui e e la já re ce b e u inúme ras p ro p o s tas de cas ame nto , mas quando

p e rce b e mo s que não e s tava inte re s s ada, dis s e mo s a e le p ara s umir, mas e le não de s is tiu

até que co nco rdas s e e m co nve rs ar co m e le e m p articular — to do s nós , p o rém, ficamo s

de o lh o e b e m p róximo s de la (e la co ntava co m ce rca de vinte g uardiãe s naque la tarde ,

Co rd!) p ara no s ce rtificarmo s de que e le não co me te ria qualque r co vardia co ntra no s s a

me nina, aque le ing lês p re s unço s o , ch amado Sr. Do ve rib b o n (o que , e m minh a

o p inião , já é o b as tante p ara le vantar s us p e itas .)

E lá e s tava e la, no s s a me nina favo rita s e de s ab ro ch ando p ara o mundo e , de re p e nte ,

de p o is do e nco ntro a s ós co m aque le camarada, e la vo lto u p ara no s s o quarto de h o te l e

e s tava tão p álida que imag ine i to do s o s tip o s de co is as . “ E s to u b e m, Pe g g y ” ,

as s e g uro u e la, mas re s p o ndi não , vo cê não e s tá nada b e m, que rida, e e u s o u s ua g uardiã e

p ro me ti à s ua mãe que cuidaria de vo cê. Ag o ra, dig a, o que aco nte ce u? E la me ne o u a

cab e ça. “ É difícil e xp licar” , co me ço u. — “ É s o b re o p as s ado .” E vo cê s ab e o que e la fe z Co rd, e la vo mito u e m uma b acia e is s o re alme nte me ch o co u. E e u co nte i a e la que

s ab ia tudo s o b re o p as s ado , que a mãe de la h avia s e ce rtificado de que e u s o ub e s s e de

tudo . E la p are ce u s urp re s a: “ So b re p ap ai e s o b re o cas ame nto fals o e s o b re o

no s s o s e que s tro ?” Sim, e u re s p o ndi. Sua mãe me co nto u tudo . E ntão , e la lavo u o ro s to

e s e nto u na cama. Vamo s lá, Gwe n, p e di. “ E le s ab e tudo s o b re mim” , de claro u e la co m

vo z s e m e mo ção , b e m dife re nte do mo do co mo co s tuma falar. Que m? Mas é claro que e u

s ab ia a re s p o s ta. “ Sr. Do ve rib b o n. E le fo i e nviado aqui p e lo p ai, que é advo g ado ,

p ara me le var de vo lta a Lo ndre s . E le s ab e que fui criada e m Gale s co m me u irmão e minh a

irmã. E le s ab e que Mano n s e cas o u co m um duque e que s e mato u. Sab e que Mo rg an

e s tava mo rto e falo u s o b re tudo is s o , co mo s e tive s s e o dire ito de falar s o b re e s s as

co is as co mig o . E s s a é a minh a h is tória. Minh a. E e le não te m o dire ito de falar s o b re e la

co mo falo u. E le dis s e que e u te nh o de vo ltar p ara a Ing late rra ime diatame nte , que o

me u... O me u avô” (e e la mal co ns e g uia p ro nunciar a p alavra “ avô” , Co rd), “ e s tá ve lh o e

do e nte e ins is te que e u re to rne , p o is que r me to rnar s ua h e rde ira” .

E ntão , e la o lh o u p ara mim, Co rd, s e u o lh ar e s tava zang ado e co rtante e e u fique i

muito p re o cup ada. Vo cê s ab e o quanto e la é g e ntil e s e ns ata e , ap e s ar de tudo , vo cê

p o de ria até ach ar que e la e s tava me dando b o as no tícias , já que dis s e que s e to rnaria uma

h e rde ira? Ce rtame nte , é b e m mais fácil do que o circo ! Mas e la co ntinuo u: “ E le e s tava tão

co nve ncido ! Co mo s e e s tive s s e me traze ndo b o as no vas ! E u o diava aque le ve lh o . E le

e ra crue l, p rincip alme nte co m o me u irmão . E le o intimidava e não p e rmitia que e le

p intas s e e Mo rg an e ra um e xce le nte p into r. Aque le duque de crép ito e fétido b e b ia

uís que e g ritava e co ntro lava no s s as vidas . No s s o p ai e ra fraco e te nh o ce rte za de que

tinh a tanto me do do p ai que não cas o u de ve rdade co m a minh a mãe . Aque le ve lh o duque

e ra um mo ns tro e e u o o diava. E le e ra um mo ns tro no je nto e minh a mãe s o fre u tanto , e u

e s p e rava que e le já tive s s e mo rrido h á muito te mp o . Não que ro nada co m e le . E o Sr.

Do ve rib b o n me dis s e que te nh o o b rig ação de vo ltar, que to do s e s tão te ntando me

e nco ntrar p o rque h á uma e no rme quantia de dinh e iro e de te rras e nvo lvida. E u s e re i a

h e rde ira, e le dis s e , e te nh o de vo ltar ime diatame nte . E ntão , s ab e o que e le dis s e ,

Pe g g y ? Dis s e que s e cas aria co mig o p o rque e u p re cis o de p ro te ção ! E u!”

E ntão , e u ri, não co ns e g ui e vitar. No s s a Gwe n, tão inde p e nde nte e e s p irituo s a, e la é

fe liz quando e s tá no circo , vive ndo co m a trup e . Se i que vo cê me dis s e que e la fo i criada

p ara s e r uma lady ing le s a, mas e m nada s e p are ce co m uma lady ! E la é maravilh o s a no

circo , Co rd, um g rande s uce s s o . É claro que e la não é vo cê, e la não te m o “ alg o a mais ” ,

co mo Silas ch ama, aque le alg o a mais que faz co m que as p e s s o as não co ns ig am afas tar o s

o lh o s de vo cê, Co rd, mas vo cê ficaria o rg ulh o s a de la, Co rd. Os mine rado re s a ado ram, a

ve ne ram e o s acro b atas france s e s , o s ch arro s e o s anõe s (e m núme ro b e m me no r

ag o ra, co mo vo cê já de ve s ab e r) que s e mp re dividiram s e us s e g re do s co m e la. E o cacique Gre at R ainb o w, e la co me ço u a jo g ar p ôque r co m e le , ante s que ficas s e tris te

de mais co m a matança do s índio s aqui. Um cacique jo g ando p ôque r co m uma mulh e r. Vo cê

já o uviu alg o p are cido ? Mas ach o que e le e s tava o rg ulh o s o de co mo e la ap re nde u

b e m.

O que vo cê dis s e p ara o Sr. Do ve rib b o n, Gwe n?, p e rg unte i ainda rindo , mas lo g o

p are i p o rque , Co rd, e la co me ço u a ch o rar. No s s a que rida e jo ve m Gwe n. Ora, e u nunca

a vira ch o rar ante s . Ach o que fico u fe liz p o r e u co nh e ce r o s e u p as s ado , Co rd, e ntão ,

vo cê to mo u a de cis ão ce rta quando de cidiu me co ntar tudo , e mb o ra e u nunca te nh a

me ncio nado nada até aque le dia. Ach o que e la não te ria me co ntado nada do que h avia

aco nte cido co m o Sr. Do ve rib b o n s e tive s s e de me e xp licar tudo . “ A arro g ância!” ,

re p e tia e la. “ E le fo i tão arro g ante , tão ce rto de que e s tava faze ndo o me lh o r p ara mim

— E s to u faze ndo is s o p o r vo cê, dis s e ra e le . Atrave s s e i o mundo p o r vo cê!” E ntão , e la

dis s e que a ide ia de ab ando nar o circo e vo ltar p ara aque la vida que imp us e ram a e la quando

e ra mais jo ve m e e s tar co m o duque ve lh o e crue l e ra alg o tão te rríve l que a fazia s e ntir

vo ntade de vo mitar. E ntão , de p o is de um te mp o , e la e nxug o u as lág rimas . “ E u não s e i

p o r que ch o re i, Pe g g y ” , dis s e e la. “ Ach o que é p o rque le mb re i daque la ép o ca” .

Vo cê não p re cis a ir, Gwe n, afirme i p ara e la, vo cê é do na da p róp ria vida e e la me

re s p o nde u “ s im, e u dis s e a e le que não que ria nada daquilo e que que ria que e le nunca mais

me dirig is s e a p alavra. Além dis s o , vo u falar p ara o s ch arro s que e le e s tá me

inco mo dando e e le s vão mantê-lo lo ng e de mim!” E ntão , e la riu e finalizo u: “ To do

p o mp o s o vindo de Lo ndre s p ara minas de o uro p ara falar s o b re fo rtunas ! Co mo is s o

tudo é inap ro p riado quando te mo s a no s s a p róp ria fo rtuna! Ne m s e i p o r que e s to u

ch o rando !” e e u ri e e la ainda ria daque le je ito co rajo s o quando (e u no te i is s o Co rd, já

que vo cê me co nto u a s ua h is tória) s e le mb ro u do p as s ado . E no final, Sr. Do ve rib b o n

p are cia não s e r nada mais do que um s o nh o ruim.

E la não o lh ava p ara e le e ne m lh e dirig ia a p alavra. É claro que e le vinh a ao circo ,

mas o s ch arro s ficavam p o r p e rto quando viram que e la re alme nte não que ria nada co m

e le . E s s e s me xicano s s ão muito de vo tado s a e la; s imp le s me nte dis s e ram p ara e le s umir

e vo cê s ab e que e le s p o de m ficar b e m vio le nto s quando não g o s tam de alg uém. E ntão ,

e le de s ap are ce u e é claro que p e ns amo s que tive s s e p artido p ara s e mp re e Gwe n fico u

muito fe liz. E acre ditamo s que aque le e ra o fim da h is tória e e s que ce mo s de le . Mas e u

p e rce b i que aquilo tudo a ab alara. “ E s to u co m dificuldade s de e s cre ve r p ara mamãe ” ,

co nfide ncio u e la. “ Para co ntar s o b re o que aco nte ce u. Tudo aquilo fico u no p as s ado e

nós ach amo s que e s tive s s e acab ado .” E alg umas ve ze s e la re p e tia a me s ma fras e : “ a

arro g ância!”

Co rd, quando Gwe n e s tava vo ltando p ara o h o te l de p o is do jo g o de cartas na no ite

p as s ada — s aí quinze minuto s ante s de la, dis s e que fe rve ria ág ua —, e la s imp le s me nte de s ap are ce u e m alg um lug ar e ntre o s alão de jo g o s e o h o te l.

Não te mo s ce rte za. São Francis co , o nde e s tamo s ag o ra, é um lug ar s e lvag e m e

vio le nto , e o co rre m muito s crime s p o r aqui. Há muito s trap ace iro s e vag ab undo s .

Ainda as s im, duvidamo s que qualque r p e s s o a e m São Francis co p ude s s e faze r mal a e la. As

p e s s o as aqui s e co nh e ce m. E la é e s p e cial e s e to rno u muito p o p ular me s mo . Não

s ão ap e nas as acro b acias , mas e la co ns e g uiu muito s uce s s o co m o me s me ris mo . E as

p e s s o as aqui ficaram b as tante imp re s s io nadas e quas e to do mundo na cidade s ab e que m

e la é. O tre inado r do came lo e s tá ce rto de te r vis to o Sr. Do ve rib b o n p róximo às te ndas

na no ite p as s ada ante s da ap re s e ntação do circo , mas ning uém mais o viu. No e ntanto , e u

s us p e ite i daque le ing lês de s de o p rincíp io . E ntão , co nte i to da a h is tória p ara Silas ,

s o b re o Sr. Do ve rib b o n s e r o filh o de um advo g ado e te ntar le var Gwe n de vo lta à

Ing late rra e as s im que e u co nte i tudo e le fico u muito e s tranh o . Pare ce que um p o uco

ante s de de ixarmo s No va Yo rk, Silas re ce b e u a vis ita de s s e me s mo Sr. Do ve rib b o n.

“ E le e s te ve aqui?” , p e rg unto u Silas , s urp re s o . “ Se p e lo me no s e u o tive s s e vis to ” ,

mas vo cê co nh e ce Silas , s e mp re co rre ndo de um lado p ara o o utro , faze ndo p lano s e

co ntando dinh e iro . Ainda co ntamo s co m uma g rande audiência. De qualque r fo rma, o Sr.

Do ve rib b o n de s co b riu que trab alh ávamo s no circo e e ntre g o u a Silas uma carta

de s tinada a vo cê, Co rd, co m no tícias vantajo s as .

Be m, vo cê co nh e ce Silas , Co rd, e le não é mau. Não mau de ve rdade , o que que ro dize r

é que e le te m b o as inte nçõe s . Ai me u De us , o s ch arro s e s tão p e dindo a carta. De qualque r

fo rma, Silas não co nto u a vo cê s o b re a carta p o rque que ria que amb as s ub is s e m a b o rdo

daque le navio p ara a Califórnia. E le me dis s e que a ras g o u.

E ntão , Gwe n de s ap are ce u, Silas o rde no u uma g rande b us ca e e s tá inve s tig ando o

cas o e , co mo e u dis s e , ne s s e mo me nto e s tá ve rificando o s navio s de p artida. To do s

e s tão à p ro cura de la. Ning uém o uviu g rito s o u b rig as , mas s ab e mo s que nunca te ria

ab ando nado o circo o u ido co m e le . Mas não e xis te m p o liciais de ve rdade p o r aqui,

ne m um g o ve rno ne m nada. O que que ro dize r é que s ó p o de mo s co ntar co no s co p ara

re s o lve r is s o . Se alg uém p o de e nco ntrá-la, e s s e alg uém é Silas . O circo não é nada s e m e la.

O que que ro dize r é que , s e m e la, não te mo s nada de e s p e cial e s e i que Silas tamb ém e s tá

s e s e ntindo culp ado .

E la e s tá de s ap are cida de s de o nte m à no ite ; h o je é 1 4 de maio e ne nh um navio

g rande p artiu de s de o nte m de manh ã. Graças a De us que e s tamo s trab alh ando e m São

Francis co e p o de mo s co ntro lar e s s as co is as . Se e s tivés s e mo s e m Sacrame nto , quando

as minas de o uro s ão re ab e rtas de p o is do inve rno rig o ro s o , mas e s tamo s indo b e m

aqui ag o ra que h á o uro de no vo . Pe lo me no s e s távamo s trab alh ando até o nte m à no ite .

Os ch arro s s e g uirão co m e s ta carta dire to até as do cas , p o r is s o te nh o de te rminar. E la

s e g uirá p e la ro ta mais ráp ida que co nh e ce mo s e , s e h o uve r qualque r s inal do Sr.

Do ve rib b o n no p róximo navio de p artida, e le s e rá arrancado de lá e a carta não s e g uirá

o caminh o . Mas e xis te m e mb arcaçõe s p articulare s me no re s , até me s mo b arco s de

p e s ca p artindo p ara o Panamá o te mp o to do , já que as p e s s o as não têm p aciência ne s te

lug ar. E mb o ra de alg uma fo rma s e e s te Sr. Do ve rib b o n co ns e g uir le vá-la até o Panamá

s e m que o imp e çamo s , ainda te rá de faze r a s e g unda p arte da viag e m. Ag imo s o mais

ráp ido p o s s íve l, mas talve z não o s uficie nte . A única co is a que me inco mo da é que não

acre dito que alg uém p o s s a o b rig ar Gwe n a faze r alg o que e la não que ira a não s e r que

te nh a s ido imp e dida fis icame nte de s e de fe nde r. Talve z ap are ça s ã e s alva amanh ã e , ne s s e

cas o , e s cre ve re i no vame nte p ara vo cê. Ade us , Co rd, o s ch arro s não p aram de ch amar,

e le s têm de e ntre g ar e s ta carta p ara alg uém de p artida p ara No va Yo rk p e lo is tmo do

Panamá, a não s e r que e nco ntre mo s Gwe n p rime iro .

Sinto muito , Co rd.

Pe g g y W alke r.

 

Cordelia não percebeu que deixara a carta cair no chão. Não percebeu que caminhou

até a janela, olhou para Maiden Lane à noite e que carroças ainda passavam pela rua

pavimentada.

Somos o nosso passado, dissera-lhe Monsieur Roland. A memória — evasiva e enganadora

que, às vezes, sufoca — nos define e nos torna quem somos.

 

Ellis lhe mandara uma mensagem. Deveria partir para Londres imediatamente, sem as

crianças e seguir para um endereço próximo à Strand Street. Ela nunca se separara dos filhos e

prometeu que voltaria logo, que traria papai com ela e que ele nunca mais iria embora.

Quando a carruagem se afastou, ela viu Morgan, com 5 anos de idade, chorando e lutando,

sua irmã de 6 anos segurava-lhe pela mão: os longos cabelos claros de Gwenlliam voavam ao

redor do rosto enquanto se inclinava para ele. Manon, com 7 anos, olhava insensível para a

carruagem que partia: também queria ir para aquele lugar chamado Londres e não acenou

para a mãe. Algo, algum instinto talvez, fez com que Cordelia batesse no teto da carruagem.

Ela rapidamente desceu e o forte vento que soprava quase a derrubou para fora da estrada

enquanto observava os filhos, mas ela já estava longe demais e as crianças eram apenas sombras,

na grama alta; a pedra quebrada do antigo castelo galês se erguia à distância, sobre eles

enquanto o vento forte soprava.

Na longa viagem para Londres, Cordelia pensou na própria vida e na reviravolta romântica

e inacreditável. As dúvidas que ela havia mantido afastadas ao longo dos anos em que vivera no

interior de Gales ressurgiram e seu coração disparou à medida que se aproximava de seu antigo

lar: Londres.

Aguardando por ela no endereço que lhe fora dado em uma rua próxima a Strand Street

não estava Ellis na residência de Londres, mas sim um procurador em um gabinete legal. Ele tinha documentos e dinheiro.

— Lorde Morgan Ellis sente muito, Srta. Preston...

Ela lhe lançou um olhar surpreso.

— Por favor, não se dirija a mim como Srta. Preston. Sou Lady Ellis.

— Temo que não, Srta. Preston. Hum, a cerimônia de casamento realizada há tantos anos

na capela foi realizada por um... um amigo. Não passou de pilhéria.

—Pilhér ia?

— Ah... não. Talvez essa não seja a palavra correta. Mas a cerimônia não foi legal nem os

une. — Ele fungou. — A senhora não é e nunca foi Lady Ellis.

Ela se manteve ereta.

— Eu gostaria de ver o meu marido.

— Temo que isso não seja possível. E eu devo dizer que Lorde Morgan Ellis não é e nunca

foi seu marido. A senhora não deve voltar para Gales. A residência de vocês foi fechada. E

temo que esse seja o fim da história.

Ela repetiu as palavras, incrédula:

— O fim da história?O fim da histór ia ?

De repente, ela empurrou o procurador, pegando-o desprevenido, pois jamais fora

empurrado por uma mulher. Ela bateu a cabeça dele contra a parede do escritório próximo à

Strand, antes que conseguisse escapar.

— E quanto aos meus filhos?

— Sua messalina! — gritou ele. — Sua atriz e prostituta!

—E q ua nto a os meus filhos?

— Eles não são seus filhos. Perante a lei, eles pertencem a Lorde Ellis. Tenho aqui duzentos

guinéus por seu incômodo.

Então, percebendo a incredulidade nos olhos de Cordelia, o procurador deixou o aposento

antes que ela pudesse atacá-lo novamente e aproveitou para contar em vários jantares a história

da atriz messalina que acreditou ter se tornado uma lady.

Cordelia voltou a Gales imediatamente. Alugou uma carruagem particular e nem parou

para visitar a tia Hester. Viajou dia e noite, se recusando a parar, a não ser para trocar os

cavalos. Ao chegar, descobriu que uma tempestade de primavera castigava a costa de Gwyr, a

chuva lavava o caminho e o vento soprava forte. Enquanto se aproximava da mansão de pedras,

das ruínas do castelo nas rochas e via através do véu da chuva que a maré estava baixa à

distância e, à medida que se aproximava dos portões, ela sabia: as crianças não estavam mais lá,

seu lar havia sido trancado e não haveria mais cabelos louros brincando entre as algas na areia

e nas rochas da praia. Um relâmpago rasgou o céu enquanto ela estava parada ali e foi seguido

por um trovão. Conseguiu pular o portão de ferro pelo muro de pedra, que rasgou a sua capa,

mas a casa estava fechada e trancada. Não havia sinal dos filhos, exceto pela casa que haviam

construído entre os galhos de um carvalho. A árvore. Ela subiu rapidamente até a pequena casa

da árvore onde sempre deixavam cartas uns para os outros. A chuva pesada e o vento forte já

haviam destruído um pedaço pequeno de papel que acabara sendo carregado para o céu e já

havia desaparecido bem antes de Cordelia ter chegado em casa.

Um grito alto ecoou através da chuva, do mato alto, das flores do campo, das ruínas do

castelo e da praia deserta abaixo, enquanto Cordelia corria como uma alma demente e

atormentada em volta da vazia construção de pedra. O nde estã o meus filhos? O que

aconteceria com Morgan e sua raiva e as tempestades que aconteciam dentro de sua cabeça?

Ninguém sabe quanto tempo Cordelia Preston permaneceu sob a tempestade do lado de fora da

mansão, mas a maré subiu de novo e o mar que sempre pareceu tão bom se arremessou contra

as rochas, em um constante vaivém.

Cordelia Preston também poderia ter se jogado contra os rochedos, mas ela era sobrinha da

Srta. Hester Preston. E agora, ao que tudo indicava, ainda era uma Srta. Preston. As mulheres

da família Preston, no final das contas, não se atiravam em nenhum lugar, apenas

mergulhavam de cabeça na vida.

 

Mas ali, em Nova York, tantos anos depois, as folhas da carta de Peggy Walker espalhadas

pelo chão, Cordelia Preston levou as mãos ao rosto, enquanto os soluços vindos do

fundo de sua alma sacudiam-lhe o corpo.

E tudo isso éminha c ulp a.