O Circo dos Fantasmas
Capítulo 43
Se a estrela de “The Bandit Chief” não estivesse intimamente envolvida por algum tempo
com o belo timoneiro naquele lindo clíper, Gwenlliam nunca saberia o que aconteceria
em seguida. No entanto, em uma noite quente e agradável (sobre travesseiros em um
barco salva-vidas isolado, em um canto também isolado do navio), o timoneiro, em uma
folga de quatro horas fora do comando do leme, confidenciou à atriz que o Sea Bullet
faria um breve desvio pelo porto de Norfolk na Virgínia nos próximos dias.
Naquele instante, Colleen ficou alerta. Mas acariciou o peito do homem
preguiçosamente, demonstrando grande admiração.
— Por que faremos esse desvio, meu belo, belo jovem? Achei que faríamos uma
viagem sem paradas até Nova York. — Bocejou parecendo relaxada e realizada; mas
completamente atenta.
— O capitão disse que o desvio é para deixar dois passageiros que seguirão direto para
Boston. — Colleen sentou-se de forma lenta e cuidadosa, parte por causa da informação e
parte porque o barco salva-vidas balançava e rangia como se fosse muito brusco.
— Dois passageiros?
— Mas eu o conheço, o velho arrogante, ele nunca faria um desvio quando velocidade
é essencial e recordes estão sendo quebrados. Pelo menos não para o desembarque de
passageiros. Eu acho, eu não sou uma pessoa brilhante, mas...
— Você é muito brilhante para mim — disse ela, beijando seu rosto, bem alerta
naquele momento.
— Mas eu me pergunto, veja bem, apenas me pergunto, e faço suposições, entende? Já
que não possuo qualquer prova disso, mas me pergunto se não há alguma transação de
ouro envolvida.
— Ouro?
— Escutei os rumores antes de sairmos da Califórnia. Nunca contam nada para o
timoneiro, sabe? Mas estamos levando uma grande quantidade de ouro, disso tenho
certeza. Eles não conseguiriam fazer qualquer esquema em Nova York, não em um clíper,
com todos esperando sua chegada e admirando sua beleza. Mas uma parada não
programada em Norfolk, Virgínia... Uma parte poderia ser retirada, documentos
alterados. Essas coisas acontecem o tempo todo.
— Norfolk, Virgínia — repetiu Colleen pensativa. Ele levantou seus longos cabelos
— Norfolk, Virgínia — repetiu Colleen pensativa. Ele levantou seus longos cabelos
bem devagar, segurou-os e a puxou para si.
— Sim. Eu já escutei os passageiros tentando adivinhar o que levamos na carga,
chegando a apostar dinheiro nisso! Mas se eu sei com certeza que estamos levando ouro,
então deve haver mais gente que também sabe. Não sei qual é o plano e talvez possa estar
sendo um pouco desconfiado, mas há algo bastante suspeito acontecendo. — Sra. Ray
encobriu o lindo timoneiro com os cabelos, e se curvou sobre ele enquanto o Sea Bullet
navegava.
— Não ria, mas acho que descobri uma trama mais improvável do que a de “The Bandit
Chief” — cochichou Colleen para Gwenlliam, aproveitando um momento particularmente
violento em uma partida de pôquer. Os passageiros andavam bastante irritados agora que
sabiam que o navio se aproximava de seu destino e contavam os dias. Por sorte, alguém
estava acusando o médico de ter trapaceado, elevando o tom das vozes. Sr. Doveribbon foi
obrigado a sair em defesa do médico quando os demais jogadores começaram a se
levantar e ameaçá-lo. Colleen, bem depressa, explicou o que descobrira.
— Mas esqueça o ouro, você acha que os passageiros que desembarcarão podem ser
vocês? Dois passageiros seguindo diretamente a Boston, foi o que ele me disse.
— Acho que somos nós sim, tenho quase certeza — declarou Gwenlliam, devagar. —
Ele sabe que eu tenho família em Nova York. Além disso, vive tramando coisas com o
capitão, eles parecem ser grandes amigos.
— Bem, eu poderia desembarcar em Norfolk também e ver o que acontece com você,
de qualquer forma, Norfolk não é longe de Baltimore — ofereceu Colleen. — Acho difícil
que ele sequestre nós duas!
E os olhos de Gwenlliam brilharam.
— E nada de clorofórmio! — exclamou ela. — Não podemos falhar! Céus, estou feliz
que tenhamos ganhado dinheiro! Vou dividir nossos ganhos essa noite, e vou lhe entregar
sua parte amanhã durante o jogo. — Pensou por um momento. — Escute, escute! — pediu
ela, de repente, sussurrando sob a gritaria dos jogadores ainda aos berros. — Eu não vou
para Boston! — Dois homens estavam sendo separados naquele momento, o médico tinha
a aparência de quem acabara de levar um soco direto no olho. — Se realmente pararmos,
e se, de fato, formos os passageiros a desembarcar, eu vou pular.
— No mar?
— Eu sou acrobata, lembre-se! E agora que ele está sem clorofórmio, não poderá mais
me impedir fisicamente, senão eu mordo ele... a não ser... — E em algum lugar em meio a
tanto barulho devido à confusão, a gargalhada da Sra. Ray pôde ser ouvida, pois Gwen, de
maneira repentina, começou a soar como uma dama inglesa. — A não ser pelo fato de que
eu não suportaria o gosto. Os camareiros estavam sendo chamados para apartar a briga, ou
o próprio capitão.
— Escute, Colleen, se nós pararmos, eu consigo fugir, tenho certeza disso. E outra
— Escute, Colleen, se nós pararmos, eu consigo fugir, tenho certeza disso. E outra
coisa: aconteça o que acontecer, nós podemos, sem dúvida, enviar um telegrama de Norfolk,
Virgínia! É perto de Nova York, não é como estar do outro lado da América! Escute,
escute bem, pensei em outra coisa: eu sei de um homem que todo mundo conhece, todo
mundo de todas as docas de Nova York, e ele conhece meu padrasto, o policial. Vou
dividir o dinheiro e o que quer que venha a acontecer, nós podemos enviar um telegrama
para ele: George Macmillan, Docas de Nova York.
Quase aconteceu um assassinato naquele momento entre os apostadores: o capitão
chegou gritando, por fim, dispersando toda a multidão que havia se formado, e o médico
foi salvo de levar outro murro. Na noite seguinte, Gwenlliam cuidou de colocar 87 dólares
nas mãos da Sra. Ray, embrulhados com cuidado na toalha de mesa do Sea Bullet que ela
mesmo bordara.
— É um presente para você, Colleen — disse ela na mesa de pôquer. — Eu mesma
bordei.
— Muito obrigada, Gwen! Que encantador! — agradeceu, colocando o embrulho ao
seu lado com muito cuidado enquanto o jogo prosseguia.
Então, naquela mesma noite, depois que as aulas de pôquer terminaram (com o Sr.
Doveribbon olhando seu relógio e pagando o que devia, como de costume), as velas
começaram a oscilar para outro lado; ficou claro que o Sea Bullet estava mudando o
curso. Gwenlliam fitou, animada, a pequena escotilha de sua cabine. Depois de algum
tempo, achou que via luzes. Bem rápido, tratou de colocar seus ganhos no pôquer no
fundo dos bolsos de sua capa. Em menos de uma hora, o Sr. Doveribbon entrou, de
repente, na cabine carregando sua bagagem. Rapidamente, pôs os poucos pertences de
Gwenlliam em uma mala pequena: ela, um tanto obstinada, adicionou à mala um de seus
diversos guardanapos bordados.
— Uma lembrança da viagem — disse ela de forma breve. — Seja lá para onde
estivermos indo agora, pois está claro que vamos para algum lugar.
Ele não forneceu a ela quaisquer informações.
— Venha comigo — ordenou de forma brusca. — Nem pense em tentar nada.
— E o que você acha que eu posso tentar? — perguntou ela, na mesma hora, enquanto
vestia a capa. — Acha que vou pular?
— Você achou que eu não me lembraria, Srta. Preston, que, quando nos conhecemos,
me contou que tinha família em Nova York? Não desejo ir a Nova York. — (Ele de certo
não queria que Gwenlliam descobrisse que a mãe se afogara há algum tempo).
Olhou rapidamente a cabine, agarrou o braço dela com firmeza e a puxou para a
escuridão do convés. Várias balsas pequenas e iluminadas de Norfolk já apareciam com
lampiões, prontas para ajudar o navio a aportar, se movendo pela água enquanto o clíper
arriava as velas, jogando cordas para cima. Uma voz vinda de um das balsas chamou.
— Nome e negócios.
— Clíper Sea Bullet. Transferência de passageiros para o SS Scorpion — respondeu o
capitão, em tom de saudação. — Ancoragem breve.
Houve uma comoção entre os passageiros pelo navio ter feito uma parada depois de
tanto tempo. Algumas pessoas queriam descer e, na verdade, insistiram nisso sem se
importar com as ordens do capitão. Desembarque! Todos gritavam de alegria conforme o
navio se aproximava cada vez mais da costa: podiam ver a civilização. Desembarque! No
convés, os olhos de Gwenlliam se encontraram com os de Colleen e, depois, ela lançou
um olhar para as cordas e os mastros. O capitão gritou ordens. Por baixo do som de sua
voz, ela sussurrou para Colleen com uma voz muito firme: GEORGE MACMILLAN,
DOCAS DE NOVA YORK.
Cordas foram jogadas para o cais. Do outro lado, podiam ver a forma de um navio a
vapor e suas chaminés.
— SS Scorpion — chamou o capitão do navio a vapor, usando um megafone. — Direto
para Boston. Estivemos esperando pelo Sea Bullet. Partiremos para Boston pela manhã.
Os passageiros no convés do SS Scorpion acenavam para cima, em direção ao enorme e
belo clíper.
— Temos passageiros para embarcar, Scorpion — informou o capitão. — E algumas
bagagens — acrescentou.
No convés, Sr. Doveribbon ficou desconcertado ao ver que a Sra. Colleen Ray, do
Royal Theatre, Nova Zelândia, cercada por malas e carregando um lampião, também se
preparava para desembarcar; mas, então, ficou claro que vários passageiros do Sea Bullet
estavam se aproveitando daquela parada imprevista e decidindo-se naquele momento, não
importando o que o capitão falasse, continuar com a viagem por terra; alguns outros
perguntaram se poderiam embarcar no Scorpion e seguir direto para Boston. Muitas
negociações foram feitas, e havia muito tumulto por causa das bagagens, idas e vindas de
pessoas, caixas e grandes contêineres naquela noite, cordas eram apertadas, homens
corriam enquanto carregavam coisas, e uma prancha para o desembarque de passageiros
foi colocada no cais, ligada ao clíper; lâmpadas tremeluziam, vozes chamavam. Colleen
observava os olhos brilhantes de Gwenlliam, enquanto permanecia atenta aos estivadores
e às cordas: Sr. Doveribbon segurava o braço de Gwenlliam, mas ela estava pronta para
saltar.
Colleen deu um beijo de despedida em Gwenlliam e sussurrou em seu ouvido:
— Tenha cuidado. Eu vou iluminar a corda da melhor forma possível. Se você não
conseguir fugir, eu mando o telegrama. — E então ela chorou bem alto enquanto beijava e
se despedia da amiga de forma bem teatral. — Com quem vou jogar pôquer agora? —
Afinal de contas, era uma atriz, e um pequeno grupo de pessoas se dirigiu a ela pelo
convés, estendendo as mãos para se despedir da Sra. Colleen Ray, a mulher de cabelos cor
de fogo que iluminou a viagem de todos. Sr. Doveribbon foi forçado a recuar um pouco
e, naquele momento, Gwenlliam se libertou de seus braços, escalou a grade do convés
com agilidade e pulou em direção à corda amarrada que descia até o cais: a corda podia
ser vista com clareza à luz de diversos lampiões, incluindo, bem rapidamente, o de
Colleen. Logo depois, passageiros de ambos os navios não tinham certeza do que tinham
visto: tudo aconteceu tão rápido, mas houve um momento glorioso onde a louca que jogava pôquer muito bem voou para baixo, agarrou a corda enquanto a capa e a saia
elevavam-se por trás dela, parecendo, por um segundo, com um pássaro sombrio e belo.
Então, rápida como um raio, ela deslizou pela corda até o cais. O capitão saltou por cima
da prancha, que ainda se mexia, seguido de perto pelo Sr. Doveribbon: ambos gritavam:
— PAREM-NA! ELA É LOUCA E PERIGOSA!
Gwenlliam correu, as pessoas do cais não a impediram, abrindo caminho para ela,
espantados, enquanto a observam. Corria rápido ao longo do cais de madeira. E, então,
na escuridão, a saia dela ficou presa em um gancho de carga, fazendo com que tropeçasse
e caísse enquanto o gancho puxava a saia: mesmo conseguindo se levantar, o capitão a
alcançou e a agarrou, o Sr. Doveribbon pegou o outro braço e estava acabado: as moedas
caíram pelo chão do cais feito de tábuas de madeira, algumas rolaram para a frente, outras
caíram na água escura enquanto Gwenlliam era carregada (puxada com violência, podia-se
dizer) para o SS Scorpion do outro lado do mesmo cais. Tudo aconteceu tão rápido que
Colleen se espantou muito: não podia acreditar. Ainda a bordo do Sea Bullet, viu que o
capitão e o Sr. Doveribbon seguravam Gwenlliam com firmeza; os pés dela pareciam não
tocar o chão até que estivesse a bordo do outro navio, aquele que seguiria para Boston.
— Era aquela garota louca — Colleen escutava as pessoas dizendo em volta dela. —
Vocês a viram voando? — E as vozes carregavam um sinal de admiração.
Já no cais, alguns minutos mais tarde, enquanto as pessoas se moviam de maneira
confusa na escuridão e as últimas caixas eram transferidas entre os navios, Colleen ergueu
o olhar, mas não pôde ver se Gwenlliam estava no convés do Scorpion; supôs que a
levaram imediatamente para baixo: estava chocada com o modo cruel que carregaram a
moça. Malditos. Ela acenou para cima e disse alto, com uma voz que chegaria facilmente lá
em cima:
— Adeus, minha querida Gwen! Adeus, querido Sr. Doveribbon! Que vocês façam
uma boa viagem à Grã-Bretanha!
— Vamos partir imediatamente! — informou o capitão do Sea Bullet de volta a bordo
do clíper. As pessoas assistiram àquela forma garbosa e escura afastando-se devagar das
docas com ajuda das balsas, e escutaram as velas subirem e o vento as encherem,
enquanto o Sea Bullet voltava ao mar, a caminho de Nova York.
O timoneiro olhava com o coração partido enquanto a mulher de cabelos ruivos e
longos acenava em despedida.
Colleen Ray ainda segurava o lampião, assim ela poderia ser facilmente vista pelos
homens do cais e, tinha esperança, por Gwen no navio a vapor.
— Alguém poderia me levar ao melhor hotel que vocês têm por aqui? — pediu em voz
alta. — Estou com todas as minhas bagagens aqui. — E houve muitas respostas submissas.
— Aqui, nessa esquina, companheira — informaram eles e levantaram seu baú nos
ombros e caminharam de volta pelo cais de madeira. — Apenas nos siga. Qual é o seu
nome? O que está fazendo em Norfolk? É casada?
Ela se inclinou para pegar sua menor mala e os seguiu. Lançou mais um olhar para o
SS Scorpion para tentar ver de relance a amiga, e escutou dois homens sussurrando no momento em que subiam a bordo.
— Correu tudo bem?
— Sim.
— Chamaremos isso de parada para abastecimento de carvão — murmurou um deles.
— Meia-noite em Sandy Hook.