O Circo dos Fantasmas

Barbara Ewing · Capítulo 4 de 52

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O Circo dos Fantasmas

Capítulo 3

 

O Experimentador estava atrasado. Na verdade, naquele exato momento, estava correndo

pela Cambridge Street em direção ao Massachusetts General Hospital o mais rápido que

suas finas pernas de dentista permitiam. Carregava consigo uma garrafa de formato

estranho.

No anfiteatro, um burburinho de impaciência se elevava no ar: ninguém deixava o

renomado e respeitado cirurgião dr. John C. Warren esperando. Assim, todos os outros

cirurgiões proeminentes de Boston que se encontravam na plateia tamborilavam os dedos

nas bengalas, enquanto os alunos de medicina sussurravam de forma animada entre si

(porém em tom respeitoso e baixo). Talvez tudo não passasse de um embuste e todos

tivessem sido chamados ali por nada.

Duas figuras impassíveis com olhos escuros pintados e rachados observavam os

procedimentos em silêncio. Essas figuras estavam pintadas na parte externa de dois

sarcófagos egípcios desgastados pelo tempo, dispostos na parte de trás do palco do

anfiteatro. Não se sabia se os sarcófagos expostos continham ou não os restos mortais de

alguma múmia.

Alguns dos cirurgiões acenaram com a cabeça cumprimentando um senhor francês

sentado entre eles: distinto, ereto e imóvel. Tratava-se de um conhecido médico

mesmerista, Monsieur Alexander Roland — um estrangeiro, certamente, mas pelo menos

francês e não inglês, muito respeitado em hospitais de Boston e de Nova York. Monsieur

Roland despertava grande interesse entre os médicos: por muitos anos, em vários países,

fora bem-sucedido ao fazer com que operações médicas dolorosas para pacientes se

tornassem suportáveis, usando o mesmerismo como técnica anestésica. Embora muitos

médicos recusassem o mesmerismo como anestesia, a filosofia não era ridicularizada

nessas novas cidades grandes. Monsieur Roland já trabalhara algumas vezes com o

próprio dr. John C. Warren ali, em Boston. Muitos cirurgiões presentes naquele dia e

alguns alunos com autorização especial já haviam assistido ao mesmerista em ação em

mais de uma ocasião — observando a total concentração do senhor francês no paciente.

Entregue-se aos meus cuidados , diria ele e, depois, de forma gentil, sem afastar os olhos do

doente, começaria a movimentar os braços e as mãos: realizando passes mesmeristas bem

acima do corpo do paciente sem nunca tocá-lo e sem parar, repetidas vezes. Sua

respiração e a do doente integrando-se de forma paulatina até o paciente — Acreditem ou não!, exclamariam os espectadores mais tarde — entrar em um tipo de transe. A operação,

então, tinha início. Se o paciente se mexesse durante o procedimento, Monsieur Roland

começaria os movimentos rítmicos longos e repetidos, sem parar, até que o paciente se

acalmasse e voltasse a dormir. Ainda assim, entretanto, a prática causava certo

desconforto entre a classe médica: eles viam o que viam, mas o mesmerismo não

constituía uma técnica científica ou explicável. Alguns deles admitiam, porém, que era

melhor do que embebedar o paciente com uísque ou ouvir os gritos de dor.

No entanto, naquele dia, Monsieur Roland não havia sido convidado para mesmerizar

o paciente antes da operação, mas estava particularmente interessado nos procedimentos

que seriam realizados ali.

Agora, no palco do anfiteatro, o dr. John C. Warren estava em pé ao lado do paciente,

o qual se encontrava amarrado a uma cadeira cirúrgica. Um grande inchaço era visível

abaixo do maxilar do doente, cuja camisa se encontrava aberta e pronta. O paciente era um

trabalhador nova-iorquino, a quem chamavam, formalmente, de Sr. Abbot. Trazia uma

expressão neutra no rosto (mas seu coração batia disparado no peito).

Dr. John C. Warren lançou um olhar impaciente para o relógio.

Em Cambridge Street, dois homens ainda corriam: um baixo, outro alto. O baixo

arfava de maneira alarmante, encontrando dificuldade em manter o ritmo. O alto, o já

mencionado dentista, ainda carregava a estranha garrafa nos braços, a capa voava às suas

costas, enquanto galgava rapidamente os degraus da entrada principal e subia outros

lances de escada até chegar ao quarto andar. Com o baixinho heroicamente em seus

calcanhares, o dentista adentrou o anfiteatro e, tentando recuperar o fôlego e tirar a capa

ao mesmo tempo, informou ao cirurgião que estava pronto. Os dois homens que corriam

estavam vindo diretamente do local onde o instrumentador havia preparado a garrafa.

Então, o Sr. Morton, dentista (tendo recebido um aceno de cabeça como permissão do

altivo cirurgião), apresentou seu companheiro de baixa estatura ao paciente.

— Sr. Abbot, este é o Sr. Frost — disse o dentista.

O paciente parecia confuso enquanto observava os homens desgrenhados e a garrafa

de aparência estranha e com um tubo protuberante, mas o Sr. Frost apertou-lhe a mão

com entusiasmo.

— Meu camarada! Eu vim com o Sr. Morton porque eu já fiz esse... hã... tratamento.

— O Sr. Frost respirou fundo para se acalmar. — Agora, meu camarada, preste atenção.

Olhe aqui! — Na sua animação o Sr. Frost abriu a própria boca e apontou para dentro, se

esforçando para falar e apontar ao mesmo tempo. — Está vendo este espaço? Viu? Viu?

Aqui havia um dente. A dor estava me matando. Eu queria morrer. Nunca senti uma dor

como aquela. Mas eu passei por esse tratamento que o senhor vai fazer agora e não senti

absolutamente nada, nenhum efeito colateral. Eu assinei uma declaração dizendo isso!

Tenha fé, amigo!

— Obrigado — agradeceu o Sr. Abbot, engolindo em seco.

A um sinal do cirurgião, um lençol de borracha foi puxado em direção ao pescoço do

paciente. O Sr. Morton levou o tubo, que estava preso à garrafa que segurava, até os lábios do Sr. Abbot e pediu que ele respirasse pela boca.

— Está com medo, Sr. Abbot? — perguntou o cirurgião.

O jovem paciente meneou a cabeça em sinal de coragem. O Sr. Abbot confiava

plenamente no dr. John C. Warren, que lhe explicara tudo em detalhes. Então, respirou

pela boca conforme haviam pedido.

Sr. Morton, o dentista, estava certamente apreensivo. Havia realizado essas experiências

por meses a fio, inclusive em si mesmo. Sabia que se falhasse (o que acreditava ser

impossível), seria preso bem ali, no anfiteatro médico, por homicídio culposo. O suor

brotava de sua testa enquanto ajustava o tubo à garrafa.

E, na plateia, silenciosa e atenta, Monsieur Alexander Roland compreendeu

perfeitamente bem o objetivo de tudo aquilo. Conhecera diversos alunos de medicina em

Nova York e em Boston que praticavam o que chamavam, de forma descompromissada,

“embriaguez de éter”: inalar a quantidade suficiente de gás para ficarem alucinados. — É

para ficarmos altos — explicavam. — Como se tivéssemos bebido champanhe! Monsieur Roland

conhecera um homem que inalara outro gás, óxido nitroso, e que lhe relatara em êxtase:

— Eu não conseguia parar de rir! Eu me sentia como o som de uma harpa! Monsieur Roland

sabia que experimentos dessa natureza vinham sendo feitos há anos.

— Tomem cuidado — era tudo que o distinto senhor francês dizia e os alunos sempre

lhe asseguravam que inalavam apenas a quantidade suficiente para ficarem altos ou para se

sentirem como o som de harpa, talvez, mas nunca o bastante para ficarem inconscientes,

por temerem nunca mais acordar.

O paciente respirou pelo tubo preso à garrafa, enquanto o Sr. Morton ficava ao seu

lado. As figuras pintadas nos sarcófagos egípcios permaneciam impassíveis. Depois de

alguns minutos, sob o olhar intenso e silencioso da plateia, o Sr. Abbot pareceu

adormecer. O Sr. Morton não afastava o olhar do paciente e acenou para o cirurgião, que

pegou o bisturi.

Dr. Warren falou com a plateia apenas uma vez e de maneira breve:

— Senhores. Como sabem, estamos realizando uma experiência e não sabemos bem

quais serão os resultados. Removerei esse grande tumor que veem sob o maxilar do

paciente. Não se trata de operação perigosa, embora seja extremamente dolorosa.

Então, fincou o bisturi, com extremo cuidado, no pescoço do paciente, sabendo

exatamente onde podia cortar e onde não podia. O sangue brotou na hora. Todos no

anfiteatro aguardavam os gritos que acompanhariam o procedimento, pois já os haviam

ouvido centenas de vezes. Os berros faziam parte das operações hospitalares.

Não se ouviu grito algum.

 

O paciente foi suturado, o sangue foi limpo e o cirurgião lavou as mãos em uma cuia

especial. O Sr. Abbot murmurara algo e agitara-se em determinado momento, mas não

acordara; neste momento, estava imóvel e era difícil para a plateia saber até mesmo se ele

respirava. O silêncio que reinava no anfiteatro soava como um grito: será que está morto? Ninguém se mexia, não se ouvia nada, nem uma tosse. O suor escorria pelo rosto do Sr.

Morton, o dentista. Por fim, pegou um lenço no casaco e enxugou a testa sem, no entanto,

afastar os olhos do homem deitado na cadeira de operação, nem por um segundo. Como

sabia a duração da cirurgia, calculara a dose exata necessária. Obtivera o éter mais puro

possível. Guardou o lenço no bolso, sem tirar os olhos do homem adormecido.

— Sr. Abbot — chamou o Sr. Morton. — Sr. Abbot.

Notaram um movimento no braço.

Por fim, o Sr. Abbot abriu os olhos. (O Sr. Morton contou posteriormente que quase

suspirou de alívio nesse momento.)

O cirurgião se inclinou para o paciente.

— Tudo bem, Sr. Abbot?

Sr. Abbot concordou com a cabeça.

— O senhor sentiu dor?

Viram o paciente mover os lábios, molhando-os com a língua, como se tentasse falar.

Um assistente se aproximou com um copo d’água.

— Não senhor. Nenhuma dor.

Dr. John C. Warren, com seus quase 70 anos, olhos agudos e sobrancelhas

desgrenhadas, um dos cirurgiões mais respeitados de Boston, se inclinou novamente para

o paciente, olhou para o grande curativo e para o rosto do Sr. Abbot.

— O senhor sentiu alguma coisa?

— Acho que... Não sei bem. Acho que não me lembro. Talvez uma sensação de

arranhadura no queixo.

— Mais nada?

— Mais nada.

O cirurgião se empertigou e voltou para os demais respeitados cirurgiões e os alunos

de medicina atrás deles: todos aqueles que ficaram sentados no mais absoluto silêncio

enquanto ele realizava o experimento. Inclinou-se para o Sr. Morton em saudação. Depois

deu o veredito:

— Senhores — começou dr. Warren. — Esta é a primeira vez que o éter é usado como

anestésico em um hospital. Vimos o que vimos. Certamente, não se trata de embuste!

E o anfiteatro, por fim, explodiu com o som de vozes animadas, pessoas se movendo,

falando, gesticulando, apertando a mão do dentista. Enquanto isso, Monsieur Alexander

Roland permanecia sentado, em silêncio, ouvindo o som de vozes triunfantes que soavam

no anfiteatro.

Providenciaram para que o paciente voltasse à ala de recuperação. O cirurgião estava

indo embora, cercado por vários outros cirurgiões, mas viu o velho mesmerista,

mergulhado em pensamentos, com o queixo apoiado na bengala. O cirurgião parou.

— Ah, Monsieur Roland. — O francês ergueu o olhar e acenou, com rosto impassível.

— Pois não, dr. Warren.

— Sem dúvida ainda precisaremos dos seus serviços no período de transição. Ainda

estamos no início. Mas temos de usar o novo telégrafo, como sempre.

— Sem dúvida, dr. Warren.

No entanto, ambos eram sábios e entenderam. Naquele dia — não no velho mundo,

onde toda a ciência e todo o conhecimento eram produzidos, mas ali, em Boston, na nova

América —, a medicina mudara para sempre.

Mergulhado em pensamentos, Monsieur Roland permaneceu onde estava, enquanto os

médicos saíam, até que ficou sozinho no anfiteatro, tendo como companhia apenas as

imagens egípcias pintadas nos sarcófagos.

Dr. Warren, porém, também não partiu. Despedira-se dos colegas, dizendo que logo

se juntaria a eles e voltou. Sentou-se ao lado do francês. Por alguns momentos, nenhum

deles falou. Então, dr. Warren quebrou o silêncio de forma abrupta:

— Bem, o que acha que presenciamos hoje aqui?

Monsieur Roland pareceu despertar da meditação. Quando falou, o fez de forma

cautelosa, mas firme.

— Quanto mais pratico o mesmerismo, Monsieur, mais me maravilho com a infinita

importância e o absoluto mistério da mente humana. — Dr. Warren concordou com a

cabeça, mas nada disse. — Eu esperava que essa nova prática, chamada hipnose, a qual não

dá importância apenas à energia emanada pelo praticante, como o dr. Mesmer me

ensinou, mas também à energia emanada pelo paciente, constituiria um meio mais forte e

eficaz para a filosofia, se o senhor me permite chamar assim, de compreender que

podemos fazer a mente esquecer a dor. Mas, o senhor me pergunta o que presenciamos

hoje. O que vimos nesta manhã é que a mente também pode ser desligada por

determinado período, de forma clínica e artificial, com o uso de gás, de modo que o

paciente não sinta dor.

— O senhor acha que isso é bom?

Monsieur Roland ficou em silêncio por um instante.

— Sim — respondeu. — Porque nós, profissionais de saúde, conhecemos a agonia que

os pacientes tinham de enfrentar por tanto tempo, praticamente desde que o mundo é

mundo. Então, sim. Eu acho que é bom. Dr. Mesmer só obteve sucesso porque havia

poucos meios de se controlar a dor. Mas temo que, embora continue funcionando tão

bem quanto sempre funcionou, de agora em diante o mesmerismo e a hipnose tornar-se-

ão... — ele fez uma pausa. — Puro entretenimento.

— O que quer dizer com isso?

— Certamente, o próprio dr. Mesmer era espetaculoso. Quando trabalhamos juntos,

costumava usar ternos roxos em suas aparições públicas, fazendo qualquer coisa para

chamar a atenção para o seu trabalho. Mas era seríssimo e cheio de integridade quando se

tratava da prática do mesmerismo e do que era possível fazer com ela. Depois desta

manhã, devo, é claro, aceitar o fato de que o éter, administrado de forma cuidadosa e

controlada, será bem-sucedido como anestésico e assim... — Monsieur Roland se

permitiu um pequeno suspiro. — A aplicação séria e útil do mesmerismo encontrou o

seu fim. — Ele meneou a cabeça de leve. — Temo, dr. Warren, que o mesmerismo já

esteja sendo usado para fins muito mais atraentes e teatrais do que possa imaginar nos seus sonhos mais loucos! Hoje em dia, charlatães e impostores cobram grandes somas de

dinheiro para estimular e divertir as pessoas com demonstrações pífias do que chamam

mesmerismo, usando efeitos de fumaça e sombras em recintos escuros. Ou fraudes

ridículas de pessoas que alegam falar com os mortos ou que fazem demonstrações

duvidosas do mesmerismo para divertir as senhoras entediadas da alta sociedade. Tudo

isso me enche de vergonha.

— Creio que esta seja a primeira vez que o vejo irado, Monsieur Roland!

— Perdoe-me. Essa é uma das únicas coisas no mundo capazes de me tirar do sério.

Para ganhar a vida, duas das pessoas por quem tenho mais apreço neste mundo têm de

demonstrar o mesmerismo, técnica que dominam e da qual são praticantes admiráveis e

genuínas, em circos! E os donos e os produtores dos shows sempre querem encontrar

um novo modo de realçar o mesmerismo; vulgarizar ainda mais a técnica a fim de atender

às demandas cada vez mais exigentes do público em sua eterna busca por diversão. Cada

vez mais luzes, sombras, trapézios, leões, música! Se esse é o futuro de algo que tanto

respeito, o senhor deve desculpar a minha raiva.

— Talvez o senhor esteja zangado pelo que viu na manhã de hoje. Porque talvez essa

nova descoberta signifique o fim do trabalho de sua vida.

Monsieur Roland esboçou um sorriso.

— Não, dr. Warren. Já presenciei dor demais nesta vida para não ficar feliz ao me

deparar com a solução para esse problema.

— É claro que existem riscos.

— Obviamente, o Sr. Morton trabalhou muito para que o experimento saísse

conforme previsto, para que o resultado fosse mais do que os alunos de medicina

chamam de embriaguez de éter. — Por fim, os olhos do francês cintilaram. — Congratulo

o Sr. Morton e espero que ganhe muito dinheiro! Ele e o paciente demonstraram muita

coragem, assim como o senhor, meu amigo. — Ele se levantou. — Também o congratulo,

dr. Warren.

O cirurgião também se levantou e os dois trocaram um aperto de mãos.

Uma pessoa adentrou o anfiteatro. Tratava-se do Sr. Morton, o dentista: alto e jovem,

com seus 27 anos e arrebatado de entusiasmo.

— Gostaria de agradecer-lhe novamente, dr. Warren, pela confiança que depositou em

mim. Sei que poucos homens honoráveis estariam dispostos a colocar suas reputações

em risco! Tudo saiu como esperado, não foi? O éter sulfúrico funcionou! Como sabia que

funcionaria. Quantas vezes não experimentei em mim mesmo ou no meu cachorro?

Cheguei a enviar meu assistente às docas para ver se eu poderia pagar um marinheiro para

participar da experiência! O Sr. Frost foi o primeiro paciente em quem o tratamento foi

bem-sucedido. O seu dente doía tanto que ele não se importava em que experiência

poderia estar se metendo. Mas o senhor permitiu que eu demonstrasse em público o que

posso fazer, dr. Warren, e eu patentearei a descoberta! Éter como anestesia! O Sr. Frost

resolveu ir para uma taberna aqui perto e vou juntar-me a ele, agora que já conversei com

o senhor.

Monsieur Roland estendeu a mão para o dentista.

— O seu nome entrará para a história, Monsieur Morton. O senhor mudou a prática

da medicina para sempre e, por isso, eu o congratulo. Creio que o senhor também tenha

mudado a história do mesmerismo, motivo pelo qual tenho alguns sentimentos

contraditórios. — Mas Monsieur Roland sorria para o jovem dentista, enquanto saíam

para a manhã de outono, tão imersos no que havia sido descoberto que nem notaram

duas damas com vestidos azuis, passeando com poodles igualmente azuis, de acordo com

a última moda de Boston.

No anfiteatro, ficaram apenas as múmias egípcias para refletirem sobre o que se

passara naquela manhã.

 

***

 

Na viagem de volta para Nova York, onde residia, Monsieur Roland, envolto em sua capa

escura, estava em silêncio, ainda mergulhado em pensamentos. Embora fosse um homem

de natureza cortês, naquele momento, com esforço heroico, declinou tomar parte no

eterno fluxo de conversa que ocorria entre os passageiros, os quais, quando se davam

conta de que era estrangeiro, o inundavam com perguntas, do jeito íntimo, amigável e

insistente bem próprio aos americanos.

A máquina articulada, ruidosa e veloz — o trem de ferro — passava por plantações,

pequenos povoados ou florestas, ressoando e trepidando sem parar. O pôr do sol

dourado e frio iluminava as folhas de outono, e a sombra e a luz se alternavam nas janelas

à medida que o trem passava por árvores, que rapidamente ficavam para trás. De vez em

quando, em cruzamentos desertos, um pequeno grupo misterioso de pessoas acenava:

uma criança com a mãe, um fazendeiro. Em um cruzamento, havia um negro solitário e

sério. De onde vinham essas pessoas? Não se viam casas ou luzes até onde a vista

alcançava. O sol continuava a descer no horizonte e o trem parou algumas vezes como se

não tivesse sido alimentado rápido o suficiente para manter a velocidade: os passageiros

ouviam o silvo de lamento da máquina a vapor. Alimentavam a fornalha com lenha e as

fagulhas se espalhavam; os ferroviários gritavam entre si sob a luz tênue do fim de tarde e

acendiam grandes lampiões. Às vezes, os passageiros saíam para observar a máquina ou a

vastidão que os cercava, gravando sua pegada no chão duro e frio, querendo seguir viagem

e chegar em casa, enquanto sua respiração também virava vapor na escuridão gelada.

Monsieur Roland, porém, não se moveu. Ele sabia: o que vira naquele dia mudaria

tudo. Nesses tempos modernos, não demoraria muito para que a notícia se espalhasse.

Sempre, desde o início, teve de lutar pelo respeito de sua profissão. O mesmerismo

sempre andou de mãos dadas com a controvérsia e a reprovação, porque as pessoas

acreditavam que o mesmerismo não podia ser explicado pela ciência e, por isso, eles

viam, mas não acreditavam; achavam que se tratava de truque. Além disso, a prática envolvia o que muitos viam como uma relação íntima entre duas pessoas que, de outro

modo, talvez nem chegassem a se conhecer. Muitas pessoas e instituições achavam que

relações de qualquer tipo entre duas pessoas não deviam, francamente, ser permitidas em

público: e certamente não uma relação mesmerista. Sem dúvida, o fim do mesmerismo

traria consigo muito regozijo.

 

***

 

Monsieur Roland estava certo. Não demorou muitas semanas para que as notícias da

experiência com éter chegassem à Grã-Bretanha e para que uma experiência idêntica fosse

realizada na Escócia. Um jornal escocês publicou imediatamente:

 

Uma descoberta extraordinária foi feita. Diferentemente dos truques e

poderes do mesmerismo, esta descoberta é fundamentada nos princípios

científicos e só pode ser realizada pelas mãos de cavalheiros que não

fazem segredo acerca da questão ou da técnica. Para evitar que seja

utilizada de forma abusiva ou de cair nas mãos de pessoas irresponsáveis,

de pouco conhecimento, ou com más intenções, fomos informados de

que o descobridor entrou com pedido de patente.

 

Então, Monsieur Roland entendeu: o éter, administrado por pessoas inexperientes,

poderia matar um paciente. Ainda assim, não causaria tanta controvérsia quanto a

filosofia à qual dedicara a vida. Doía-lhe a alma saber que o destino final da descoberta do

dr. Franz Mesmer, outrora incrível, fosse, provavelmente, o circo.