O Circo dos Fantasmas
Capítulo 46
O alvorecer se tornou manhã e a manhã virou o sol do meio-dia: todas as janelas do sótão
estavam abertas; o aposento estava quente e abafado, mas ninguém ligava. Sapatos e casacas
foram descartados e Celine e Rillie encomendaram gelo assim que amanheceu. Colocaram
um pouco no rosto ferido de Gwenlliam também, pois o Sr. Doveribbon a atacara
quando gritou ao encontrar o cabelo da mãe após ele tentar trancá-los na cabine para fugir
da briga no convés. Ele batera nela uma vez mais quando havia tentado indicar a Arthur
sua localização no SS Scorpion.
Logo que se encontraram, Cordelia e Gwenlliam apenas se abraçaram, sem conseguir
falar nada. Depois de alguns momentos, Gwenlliam levou as mãos à cabeça da mãe e a
acariciou.
— Eu vi. Eu vi o seu cabelo negro com a mecha branca. Sabia que era seu. — Lágrimas
escorriam pelo seu rosto e Cordelia tentou secá-las.
— Estou aqui, querida. Nós duas estamos!
Rillie serviu grandes taças de vinho do Porto e todos riram e choraram, juntos, por
fim. Gwenlliam abraçou Monsieur Roland, Rillie, Regina e Celine.
Então, Gwenlliam perguntou:
— Mas... Onde está a Sra. Spoons? — Olhou para o sótão familiar com o qual tanto
sonhara, notando que havia algo diferente. Então, lançou um olhar para Rillie e
compreendeu imediatamente ao ver a expressão no rosto da amiga. Seus olhos se
encheram de lágrimas e ela abraçou Rillie bem apertado.
— Ohhhh — suspirou Gwenlliam. Era a mistura de suspiro e de choro combinados.
— Você esteve longe por mais de um ano, querida. E ela já era uma senhora muito
idosa.
Gwenlliam ficou em silêncio, pensara tanto em estar com a família e não esperara que
nada houvesse mudado.
— Achei que tudo estaria exatamente como deixei. — Lançou um olhar para o cabelo
da mãe. — E nada está igual. — Enxugou as lágrimas do rosto. — Eu costumava cantar a
música da Sra. Spoons, Rillie, quando estava presa na minha cabine.
— Ela ainda conseguia cantar — comentou Rillie, sorrindo e, por um momento, foi
como se pudessem ouvir a voz alta e frágil: Whistle and I’ll come to ye, my lad.
Regina, que nunca derramava lágrimas, também chorou e abraçou a menina de novo.
Regina, que nunca derramava lágrimas, também chorou e abraçou a menina de novo.
Então, leu a manchete do jornal matutino em voz alta:
— POLÍCIA DE NOVA YORK FRUSTRA CONTRABANDO DE OURO , bem, isso
deixará nosso Arthur muito orgulhoso!
Gwenlliam despiu, por fim, a estranha roupa de órfã, sabendo, como sempre soubera,
que com todas as pessoas da família ao seu lado — embora uma delas estivesse diferente e
outra tenha partido —, não era órfã.
La Grande Celine, não desejando perder nem uma palavra sequer, decidira não abrir
o restaurante: fato inédito. Maybelle, Blossom e as garçonetes, Ruby e Pearl divertiram-se
entre as mesas do grande salão vazio. Pearl tocou harmônio e cantou:
Gin a body
meet a body
coming thru’ the rye
Gin a body
kiss a body
Need a boy cry!*
A alegre e despreocupada canção ecoou por toda Maiden Lane. Um aviso na porta fechada
dizia:
RESTAURANTE FECHADO ATÉ ESTA NOITE DEVIDO A (FELIZES)
CIRCUNSTÂNCIAS INESPERADAS.
Monsieur Roland estava quieto, mas o rosto pálido e idoso irradiava vida e vigor e —
simplesmente — felicidade. Celine, ao olhar para ele, pensou que seria um privilégio ser
amada por aquele senhor. Nem mesmo Alfie conseguiu partir para tratar de negócios. Ele
chegou, abraçou Gwenlliam e lhe disse o quanto era esperta, sentou-se ao lado de Regina e
não parou de sorrir.
Sem seguir uma ordem coerente, Gwenlliam recontou a extraordinária história: o
pavor quando encontrara o cabelo da mãe, enquanto o Sr. Doveribbon juntava as coisas
quando a luta começara; as gangues e as brigas em Sandy Hook; e Arthur chegando com
Frankie Fields para salvá-la, enviando uma flotilha de barcos para as docas de Nova York.
Cordelia fechou os olhos por um momento, lembrando-se de como tentara insistir para
ir com ele e de como fora burra. Então, Gwenlliam descreveu repetidas vezes toda a
aventura do sequestro: Sr. Doveribbon, São Francisco, o Moe’uhane, clorofórmio (“Ele usou clorofórmio?”, indignou-se Monsieur Roland.), Panamá, o clíper Sea Bullet, os dias
infindáveis que passara trancada observando o mar e o céu, o estreito de Magalhães — e a
Sra. Colleen Ray, do Royal Theatre, Nova Zelândia.
— Ela se parece muito com você, Celine. Eu escrevi sobre ela em uma das minhas
cartas. Acho que devem ser parentes. Foi ela quem enviou o telegrama quando fui
arrastada para o Scorpion.
— Ora, estou orgulhosa! Ficarei feliz de saber que tenho algum parentesco com tal
heroína!
— Quero que ambas trabalhem para mim! — exclamou Alfie. — A sagacidade daquele
telegrama.
— Conseguimos pagar o envio com o que ganhamos no pôquer! — exclamou
Gwenlliam, e, então, descreveu a pequena escola de pôquer que atraiu mais jogadores,
graças ao charme da Sra. Ray.
— No entanto, como ela poderia saber que o Scorpion faria uma parada em Sandy
Hook quando enviou o telegrama?
— Não sei! Mas Colleen Ray age por meios misteriosos — disse Gwenlliam, com um
sorriso nos lábios.
— Quero que ela venha trabalhar comigo! — repetiu Alfie. — Vocês duas! Tão
destemidas!
— Será que ela virá nos visitar? — perguntou Cordelia, por fim. — Gostaria de abraçar
essa Colleen Ray!
— Não dá para saber para onde irá em seguida, mas acho que ela nos encontrará.
Mesmo que seja apenas para saber se o Sr. Doveribbon teve o que merecia. — E eles
vislumbraram a dureza no olhar da menina, algo novo. — Ele tentou matá-la, mamãe!
— Sim, e agora eu entendo. Ele queria me tirar do caminho. Sem dúvida. Para que
pudessem pegá-la. Eles passaram muitos anos tentando me tirar do caminho porque
queriam os meus filhos!
— O que aconteceu com o Sr. Doveribbon? — quis saber Monsieur Roland, zangado.
— Estava inconsciente da última vez que o vi. Se não estiver morto, espero que Arthur
o trancafie em uma cela da delegacia de polícia! — declarou Gwenlliam, veemente. —
Espero que apodreça na prisão. Veremos o que ele acha de ficar trancado em um lugar. —
Todos perceberam de novo o tom mais duro em sua voz.
E, durante todo o tempo, o sótão ficava cada vez mais quente. Gwenlliam e Cordelia
estavam sentadas próximas, inclinando-se na direção da outra conforme conversavam. Às
vezes, Cordelia acariciava os cachos quentes e suados da filha. Gwenlliam fazia o mesmo
no cabelo curto da mãe, quase sem notar, enquanto falavam: era como se estivessem
ligadas, e estavam mesmo, devido aos eventos da estranha vida que tinham. Gwenlliam
ouviu a história de como a carta de Peggy Walker chegara até eles pelas mãos de Danny
O’Reilly e do que acontecera com a pepita de ouro no formato de lesma. Todos falavam
juntos e faziam perguntas, gritavam, riam e choravam e discursavam sobre a nobreza de
Gales.
— Não quero ser a herdeira deles! — exclamou Gwenlliam.
— Você já é herdeira — disse Rillie, fria. — Graças a você, temos dinheiro suficiente
para levarmos uma vida confortável por muitos anos.
— É claro que não é da minha conta, mas você tem certeza disso, querida Gwen? —
perguntou Celine, por fim. — Se aceitasse ser herdeira, isso mudaria completamente a sua
vida e lhe daria outras liberdades.
— Esta é a minha liberdade! — respondeu Gwennie com firmeza. — Fiquei trancada
em uma cabine por meses! Eles tentaram matar a minha mãe! Sei bem a importância do
dinheiro, todos nós neste aposento sabemos a importância do dinheiro bem melhor do
que muita gente. — Ela olhou para Celine. — Não estou sendo romântica. Estou sendo
sensata. Não fui feliz nem por um dia sequer depois que nos tiraram de mamãe: minha
irmã morreu, meu irmão morreu, mamãe foi presa por assassinato. Aquilo não era
liberdade. Nada de bom veio daquela família depois que papai nos traiu e eu não quero
que minha vida volte a ser interligada a deles nunca mais!
— Ah oui, ah oui, essa é a garota que eu conheço — declarou Monsieur Roland e isso
fez com que todos rissem. Celine inclinou a cabeça aceitando a explicação (mesmo que
talvez tivesse sido mais pragmática se aquele problema fosse dela). Então, de repente,
ergueu o olhar novamente.
— Gwen, diga-me, como vai Pierre l’Oiseau? Ele ainda está casado? — perguntou ela e
seu olho brilhou enquanto Gwenlliam contava que não parecia haver qualquer esposa no
momento.
Esperaram por Arthur. As horas da tarde sufocante se passavam e ele não chegava.
— Frankie Fields disse que foi uma grande operação policial envolvendo sessenta
homens — repetiam entre si sem parar. — Deve ter muito trabalho a fazer ainda.
— Ele costuma mandar uma mensagem — disse Cordelia em tom preocupado,
quando a tarde chegava ao fim. — Certamente teria enviado uma mensagem hoje. Ele iria
querer ouvir a sua história. Ainda não a ouviu.
— E Frankie — interrompeu Gwenlliam. — Ele disse que o traria de volta.
— Sim, Frankie — disse Rillie. — Que jovem corajoso.
Estavam todos exaustos, mas não conseguiam descansar até que Arthur chegasse.
Cordelia se lembrou uma vez mais de como haviam se separado: sentiu um frio no
coração.
Celine precisou, por fim, abrir o restaurante.
— Venham comer! — convidou ela, quando finalmente se obrigou a descer. Mas logo
subiu com uma grande cesta de frutas.
— Ela é uma mulher muito bondosa — disse Monsieur Roland.
— Ela ainda está apaixonada pelo senhor? — provocou Gwenlliam.
— É claro que está! — exclamaram Cordelia e Rillie em uníssono.
— Ela o presenteou com aquele casaco roxo! — lembrou Rillie. — Mas, para grande
— Ela o presenteou com aquele casaco roxo! — lembrou Rillie. — Mas, para grande
alívio de Monsieur Roland, ela dava sinais de palpitação sempre que o nome de Pierre, o
Pássaro, era mencionado em suas cartas. Sabemos que fez isso de propósito, Gwennie!
Então, talvez tenha outros planos para o caso de Monsieur Roland continuar
constrangido!
— Pierre, o Pássaro, precisa de alguém como Celine. Ele foi um bebezão em relação
aos mosquitos!
— Mas onde está Arthur? — perguntou Cordelia.
— Frankie Fields deveria ter voltado para nos dar alguma notícia — disse Gwenlliam.
— Se tivesse acontecido algo de errado, não é? O sótão ficou no mais absoluto silêncio
pela primeira vez desde o retorno de Gwenlliam. Conseguiam ouvir o som das carroças
na rua pavimentada. Então, de repente, Gwenlliam se levantou. — Mas ele disse que
voltaria também. — Elas se olharam. — Vamos mamãe, vamos até a Delegacia de Polícia
para saber o que aconteceu.
Cordelia voltou a sentir um aperto no peito quando se levantou, mas tentou se
controlar.
— Pode deixar que eu vou, Gwennie — disse ela. — Também procurarei por Frankie.
Você não pode sair, querida, depois de tudo que passou. Fique aqui.
— Você não pode ir a nenhum lugar, menina — repetiu Regina para Gwenlliam. —
Acabou de chegar de uma aventura! Olhe para você!
— O que quer dizer com “Olhe para você!”? Você viu a roupa que eu estava usando!
Agora sou liiiivre! Estou em casa! Mamãe está aqui. Tudo que me dá força nessa vida,
Regina. E estou usando um vestido que me serve pela primeira vez em meses!
— Vou com elas — informou Rillie. — Tomarei conta de ambas.
— Vou com elas — declarou Alfie. — E tomarei conta de todas.
— O senhor quer jogar pôquer apostando dinheiro, monsiê — perguntou Regina, seca.
— Só até eles voltarem, considerando que já somos velhos? Alguém tem de ficar para o
caso de ele voltar.
Monsieur Roland, sempre tão contido, envolveu Gwenlliam em um abraço e a segurou
por um momento.
— Tenha cuidado, querida. Minha querida menina — pediu ele.
Naquela manhã, um pouco antes do alvorecer, Arthur e Frankie e dois outros policiais,
cansados, porém relaxados depois de uma missão bem-sucedida, caminhavam pelos agradáveis
jardins que cercavam a prefeitura. Ainda estava escuro. O inspetor Rivers convidara-os para
tomar café da manhãem Maiden Lane.
Estavam nos jardins com o chafariz, onde outros também aguardavam.
Arthur foi o primeiro a ser atacado; enquanto tentava reagir, percebeu: havia pelo menos
dez deles. Todos os policiais foram derrubados.
— Filho da puta estraga-prazeres! Inglês filho da puta e estraga-prazeres!
Sua cabeça foi atingida por um objeto pesado.
Nota
* Tradução livre: “Alguém deve encontrar alguém / Vindo pelo campo de centeio / Alguém
deve beijar alguém / Alguém precisa chorar?” (N.T.)